Giovanni Papini
A Defesa dos Imbecis
Não há no mundo raça mais necessária e prolífica que a dos imbecis. Se não tivessem existido homens de gênio, seríamos ainda bárbaros, mas sem os estultos o gênero humano teria acabado há muito tempo. E é um grande argumento a favor da Providência que em todos os tempos sejam precisamente eles os mais numerosos e os mais poderosos. Por vezes decorre meio século sem que tenha aparecido um engenho soberano e fora do comum, mas cada dia que desponta vê crescer e florescer ?a infinita multidão dos idiotas?.
Por toda a parte os encontramos, mesmo onde não se esperaria, e não somente em lugares humildes, subalternos e obscuros, mas nos primeiros e mais altos. Os imbecis formam, pode-se dizer, o corpo máximo da humanidade, de modo que estudar o homem é o mesmo que definir a natureza dos medíocres e dos idiotas. ?São estultos ? dizia o argutíssimo Gracian ? todos aqueles que parecem tal e a metade daqueles que o não parecem?. E como a maior parte são reconhecíveis à primeira vista como imbecis mesmo pelos inteligentes mais distraídos, é fácil fazer a conta e chegar a uma soma não muito distante do total dos hóspedes do planeta.
Este cálculo parecerá exagerado e irreverente a quem não repare que o verdadeiro imbecil está, a maior parte das vezes, seguríssimo de não sê-lo. Haverá quem reconhece a própria fealdade, a própria miséria e mesmo as próprias infâmias, mas todos, e mais do que nunca os imbecis, estão seguríssimos de ter tanta inteligência que igualam ou superam a maior parte daqueles que vivem junto deles. Não há imbecil por direito de nascimento que no início do dia não julgue imbecis os seus vizinhos e companheiros e precisamente nestes juízos, e por vezes nestes só, se mostra não imbecil, antes clarividente.
Pois que não se deve crer que os imbecis mais sólidos e certos sejam aqueles pobres insensatos que nada fazem e nada dizem. A grande máquina do mundo humano não tem mecânicos mais ativos e universais que os estultos. Não retidos pela dúvida dos reflexivos, nem pela humildade dos grandes, nem pelo sentido de responsabilidade dos sábios superiores, eles dão prova de uma ufania e de uma jactância que ao mesmo tempo conforta e aterra. Cada país está cheio de imbecis que escrevem, que ensinam, que falam aos povos, que tratam de negócios, que administram e dominam, que fabricam teorias e obras de toda a espécie. Ai de nós, se não existissem! Quem jamais se entregaria a tantas daquelas profissões que aviltam o ânimo e entristecem o engenho? Quem realizaria aquelas inumeráveis tarefas mais ou menos úteis que para um espírito contemplativo, nobre e delicado, trariam insuportável fastídio e repulsa?
Os estúpidos vigorosos são, em suma, extremamente necessários ao andamento da família humana e necessaríssimos, de modo particular, aos não imbecis. Desempenham, em relação a eles, uma função semelhante à dos antigos escravos, assumindo alegremente uma infinidade de cargos, de maçadas e de horrores que os gênios rejeitariam e, mais ainda, servem aos grandes como perspectiva de fundo para lhes oferecer maior relevo e realce. Se todos fossem inteligentes, que mérito teria a inteligência? E, se a maior parte fossem gênios onde iria acabar a voluptuosidade do sentimento de predominância sobre os outros?
É, porém, verdade que a convivência com os idiotas é um contínuo martírio para os que idiotas não são. Ponde um grande na companhia de estultos e será, a maior parte das vezes, detestado, troçado ou, pelo menos, incompreeendido. Toda a sua grandeza não lhe servirá senão para sofrer, para calar ou cingir a máscara do medíocre. Mas o desdém que os estúpidos suscitam nos sábios é sinal de pouca sabedoria, de ingratidão e talvez de inveja. Que culpa têm os imbecis da sua imbecilidade? Mesmo se esta fosse curável com uma iluminação sublimadora, a quem cabe curá-la? Não porventura àqueles que tiveram de Deus o dom de um engenho sublime e luminoso?
Ninguém se zanga, se vê uma criatura aleijada e com o nariz roído por uma chaga e devemos irritar-nos, se nos caem diante dos pés, como a todo o momento acontece, homens com a mente deformada, o coração a esgarçar-se e a alma desabitada? Ouvir as suas falas faz mal, porque a idiotia é irritante e contagiosa: termos muito que fazer é desaconselhável porque um imbecil dificilmente chega a ser generoso: querer contradizê-los é loucura porque são a maioria e, de costume, destemidos e teimosos como a estirpe asinina. Pelo que não restam senão dois caminhos: educá-los ou suportá-los. O primeiro partido é por vezes desesperado; o segundo penosíssimo.
E daqui nasce o rancor desdenhoso que os homens de talento mostram para com a infindável aluvião dos idiotas pululantes e imperantes. Mas na aversão dos inteligentes há, por vezes, um fermento de inveja. E não sem motivos porque, entre os imbecis, mais do que no resto dos homens, se encontram os felizes e os poderosos. Quanto mais inteligência mais dor; logo, quanto menos inteligência mais paz e contentamento. Ninguém está mais seguro de si e satisfeito com o seu próprio ser que um estulto perfeito: dentro dele nem tragédias, nem drama, nem angústias, nem desesperos. A alma dá-lhe pouco aborrecimento porque está quase extinta: a única coisa que a entristeceria é aquela característica que durante a vida natural ele ignora, isto é, a de ser um imbecil.
E não é de espantar se, a maior parte das vezes, os imbecis têm mais êxito no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes são obrigados a combater contra si mesmos e, como se não bastasse, até contra todos os medíocres que detestam por instinto todas as formas de superioridade, o imbecil, vá para onde vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por natural espírito de grupo, ajudado e protegido. O estulto não enuncia senão pensamentos usuais em forma comum e é por isso aprovado pelos seus semelhantes, que são legião, enquanto o gênio tem o terrível vício de contrapor-se às opiniões dominantes e de querer revolucionar, juntamente com o pensamento, a vida dos mais.
Isto explica por que as obras e as gestas dos imbecis são tão abundantemente solicitadas e admiradas. Os julgadores são, quase todos, da mesma bitola e dos mesmos gostos e aprovam com entusiasmo as coisas feitas ou ditas por qualquer um pouco mais hábil do que eles. O favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária vai aumentar a já copiosa felicidade daqueles. A obra do grande, ao contrário, não pode ser entendida e admirada senão pelos seus iguais que são, em todas as gerações, pouquíssimos e só com o tempo estes poucos conseguem impô-la, pelo menos em aparência, à servil estima dos mais. E a maior vitória dos estultos é a de constranger os sábios, bastantes vezes, a agir e falar como estultos, seja para passar com maior tranqüilidade a vida, seja para se salvarem nos dias das epidemias agudas de estultície universal.
Mas não se pode dizer que a inteligência raciocinante e esplendente seja a única escada para a grandeza. Por vezes também o gênio, que é a inspiração intermitente e efêmera, pode coexistir com a estupidez. La Fontaine, em sociedade, dava a impressão de um meio estulto e S. José de Copertino parecia o homem mais obtuso do seu tempo. E, contudo, hoje, mesmo os mais incontentáveis admiram no primeiro um grande poeta e os cristãos veneram no outro um santo milagroso.
Não se deve esquecer, enfim, que os homens de gênio não se tornariam famosos se não conseguissem atrair também a admiração dos ignorantes. O velho Voltaire perguntava-se: ?Combien de sots faut-il por faire un public?? Mas depois rejubilava ao saber que as platéias de Paris aplaudiam a sua Zaira e o seu Maomet.
Giovanni Papini - 1905.
Hombre lector, quienquiera que seas, quisiera en este momento tenerte aquí, cara a cara, y clavar mis ojos en tus ojos y estrecharte las manos en mis manos y decirte en voz baja: ” Crees vivir, vivir de verdad, profundamente, enteramente? Te parece tu vida tan bella y grande como acaso la soñaste en los días ardientes de la juventud?”
Y todavía más bajo, llanamente, quisiera preguntarte: “Tuviste uma juventud? Sentíste en tí, dentro de tus entrañas, dentro de tu sangre, algo que fermentaba, que hervía, que se agitaba, que temblaba, que quería salir, derramarse, inundar el mundo como un lago de llamas?
Sentíste nunca, despues de alguna hora de agitación, después de um gran crepúsculo, después de los versos de un poeta, sentíste que eras tú, tú en persona, el primer hombre, el descubridor de la vida, el descubridor del mundo? Y no te pareció mísera esta vida, y no te pareció pequeño este mundo? No deseaste la muerte por amor a la vida? No experimentaste la avidez de Alejandro ante el cielo lejano?”
Esto quisiera pedirte, vil lector, hombrecillo enflaquecido que estás leyendo páginas, escuchando los latidos de la vida ajena porque no sabes realizar actos, porque no sabes vivir por tu cuenta. No te parece vil, cobarde, cobardísima, la acción que estás realizando? Una silla te sostiene, ante ti hay papeles cosidos, en esos papeles hay signos negros y tú recorres con los ojos esos signos y tu alma sonríe o gimotea, ve o entrevé, a medida que los signos van despertando a la fuerza tus imágines soñolientas. Y tú crees vivir, creo, leyendo líbros! Saliendo fuera de tí, contemplarás con gran desprecio el vulgo vil que no está “al corriente”, que no hace psicología y no se alimenta de literatura. Yo soy, dices para tí, um intelectual, un refinado, un pensador, un aristócrata, un hombre superior, en suma, un miembro de la élite. El mundo está hecho para mí. Y cuando no va bien doy un puntapié al tramoyista y lo hago yo. Y así juego y me divierto, y en mi casa sólo encontraréis fotografias de obras célebres y buenas ediciones de autores famosos. El cuello alto y las palabras oscuras son las insignias de mi grado: yo soy el rey del tiempo, el rey del espíritu, el rey de la eternidad. Dices tú todo esto, lector cobarde? Es posible: lo creo, me lo imagino, lo deseo. Porque yo hablo precisamente para tí y quisiera tenerte delante de mí, para que sintieras en tu cara el aliento cálido de mi desprecio. Y te desprecio, lector, te desprecio por una razón terrible, por una razón odiosa, dolorosa: que yo me parezco mucho a tí, que yo soy casi como tú, lector, que yo soy tú, acaso…
Pues bien: yo acepto, ves?, tu papel. Lo acepto sin miedo, aunque es muy triste tu papel, oh! bebedor de palabras que me lees! No temo a tus palabras. Para estar obligado a contestar me he puesto a escribir o, mejor, a gritar estas páginas. Y me pregunto aún, en alta voz: crees vivir grandemente, profundamente, intensamente?
Contésto: no, no creo vivir. No, no creo vivir grandemente, profundamente, enteramente. Como todos, yo soy un cobarde, un débil, un castrado! En mi cuarto tengo todo el mundo pintado: hombres de cartón, mujeres de trapo, montañas de humo. He puesto todas esas cosas en orden y algunos días de sol todo ello hace muy bonito. Y me quedo en mí cuarto. Y aquello es todo mi mundo y mi vida, y cada día hago mis oraciones a los dioses de la casa y escupo sobre la gente que pasa por la calle, bajo mis ventanas, y que no tiene en su casa un pequeño mundo artificial tan gracioso como el mío.
Allí dentro estoy en mi reino. Si vierais qué bonitas actitudes! un día tengo una postura magnífica de Zeus tonante y digo a mis muñecos: Cuidado, yo soy vuestro dios y señor, soy vuestro creador y vuestro destructor, y puedo cambiaros de lugar o haceros pedazos. Por ejemplo, yo te puedo poner a tí, fantoche cornudo, en el fondo de aquel cajón en lugar de dejarte pavonear en lo alto de esa escalera, y te echaré por la ventana oh! bailarina indecente que haces tantas muecas con tu cara de cartón rosado!
Otros días, en cambio, entro allí con aires de Fausto enfadado. Cierro las ventanas para dar a la escena un aspecto misterioso, riego con polvo gris las cosas para que parezcan más melancólicas, me siento gravemente en el sillón, tuerzo la boca, levanto los ojos al cielo y acabo llorando con lágrimas calientes sobre la vanidad de la sabiduría y sobre los engaños del mundo.
Pero poco importa que yo sea clásico o romántico: soy siempre un pobre niño que juega en su cuarto y dice para consolarse: Afuera hace demasiado frío y los caminos están llenos de lobos!
Yo soy - lo habéis adivinado?- un cerebralista. Los cerebralistas son una raza muy curiosa: merece la pena conocerla. Te contaré la historia del padre de todos nosotros. Una historia tan grotesca que no he sabido olvidarla.
Un día, un hombre se ató los calzones, se envolvió en una capa y salió de casa, hacia los países del Este, para conquistar el mundo. Estaba lleno de grandes pensamientos. Su corazón era mayor que el mundo. Y pensaba: Conquistaré un reino tan vasto, que los correos encanecerán antes de llegar a sus confines para llevar mis mensajes; conquistaré un tesoro tan grande, que un día podré llenar un lago de monedas de oro, si quiero; gozaré blancas mujeres en camas color de mar; derribaré terribles enemigos, en las montañas, con el fuego de mi mirada. Hoy soy um hombre pequeño y pobre, y sólo una capa me cubre, pero mis pensamientos son magníficos y quiero llegar a ser señor de todo lo que existe y dueño de todo lo que vive.
Este hombre fue a una ciudad y, cuando anunció que quería ser rey y conducir a los hombres a la guerra para hacerse un gran reino, todos rieron a su alrededor. Entonces pensó que castigaría a aquella ciudad cuando hubiese llegado a ser poderoso y se dirigió a outra, donde le sucedió lo mismo. Y así anduvo por todo el mundo, y en todos los países se reían de él y le daban dinero tomándolo por un loco mendigo. Finalmente, un día se encontró delante de su casa.
Nada había cambiado: sólo sus sandálias estaban gastadas, su capa llena de agujeros y sus cabellos se habían vuelto blancos. Entró en casa y pensó: “Nadie há querido seguirme. No he tenido la fuerza de levantar ni un sólo ejército. No he conquistado ni siquiera um tesoro. Nunca seré, según parece, dueño del mundo.”
Entonces se puso a meditar sobre su suerte y estuvo muy melancólico durante vários días.
Pero una mañana - era en marzo y en los prados ya apuntaban las primeras flores amarillas - se despertó todo alegre y dijo entre sí:
Finalmente he comprendido mi destino. Yo estuve ciego al ir a conquistar el señorío del mundo. Lo que yo creía tal no es lo verdadero, lo real, el mundo supremo, sino el mundo de las apariencias, de los sentidos, del engaño. Es el mundo del arado y del mercader. El mundo verdadero sólo se descubre en el pensamiento, y yo puedo ser dueño de él cuando quiera, con tal que lo busque en mí, en el más profundo de mí. Y el hombre encanecido se puso, con una lámpada encendida, a buscar al verdadero, al profundo, al perfecto mundo. Y aquel hombre - ¡recordadlo bién! - fue el padre de todos los poetas, el padre de todos los metafísicos, el padre de todos los soñadores. El fundó la dinastía de aquellos que, no poseyendo un pedazo del mundo real, se fabrican cada día cien mundos pequeños de aliento, de polvo y de barro. Y tú - hombre lector - y yo, y todos nuestros compañeros, somos los últimos descendientes del hombre que no pudo ser emperador.
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