Necrológio
Necrológio. - Uma versão possível e empolada.
João Lorenzo abre o bloco de notas e começa a anotar a carta:
“Luíza,
Estou escrevendo essa crônica com um objetivo bem delineado em mente, pois a minha geração, a das crianças e adolescentes dos anos 80, 90 do século passado foi, talvez, a primeira geração de crianças portoalegrenses criadas sem pai e isso me parece um assunto relevante e ainda não bem analisado. Os pais dos anos da minha infância morriam de morte matada, de morte morrida, embarcavam em caravelas, entravam nos exércitos de Dom Sebastião, tornavam-se garimpeiros em Serra Pelada, iam para Oriximiná, construíam Ilha Solteira, Urubupungá, Itaipú, todas essas hidrelétricas gigantescas que aprendemos nos livros escolares, eram mortos ou simplesmente combatiam moinhos de vento e gigantes que a ditadura tinha lhes metido na cabeça (meu Deus e eu já fui moderno como um Ford T último tipo).
Em minha casa, a história era farta de repetição: Vovó perdera o marido para a tuberculose no início dos anos 60 e ficara com doze crianças sob seus cuidados. Vovó mal sabia que seu exemplo seria tão bem seguido por suas filhas, pelas filhas dos outros em toda parte. De uma de minhas tias, um câncer galopante levou o marido aos trinta anos, de outra, a ditadura estilhaçou a alma ao rapaz sorridente que a namorava e ele nunca mais foi visto depois de ter sido preso e provavelmente torturado, e deixou minha tia grávida e um feto órfão, só aí somando dois meninos homens dessa geração a que estou me referindo. De mamãe, a história não foi muito diferente: em algum dia nublado da minha infância papai despertou, colocou uns poucos objetos numa maleta, fez a barba sorrindo, deu um tapinha na pele lisa, recém escanhoada, sorriu para mim que brincava com meus carros de plástico (revolução industrial cheia de signos horrendos) e, sem dizer nada, apenas isto, foi embora pra nunca mais. Como essas três histórias, moça, mais centenas, milhares. Na vizinhança, pelo menos uma dezena mais. Todos os homens jovens que conheci na infância tinham ido embora ou iriam em breve, como se fossem conscritos numa guerra.
O que até alguns anos antes teria sido vergonhoso, ignominioso para mamãe, para minhas tias, para vovó, para as vizinhas, ter filhos sem pais, quase bastardos, filhos de viúvas, de mulheres abandonadas, criar filhos sem homens e sem exemplos, tudo isso caiu no anonimato da grande cidade que crescia, no anonimato da vida que tem de ser ganha, no anonimato da pobreza digna e trabalhadora das mulheres do centro velho dos últimos anos do século passado. A cidade ia assim, esquecendo sua vida provinciana e tornando-se essa metrópole enfumaçada e cheia de luzes novas que conhecemos, em que amanhecemos todos os dias.
E crescemos assim toda uma geração de meninos brasileiros: fazendo presentes escolares de dia dos pais aos fantasmas, indo aos banheiros femininos até crescermos o suficiente para irmos sozinhos aos banheiros dos homens (como seriam?), conhecendo alguns segredos das almas das mulheres, coisas interditas aos meninos das famílias comuns, ordeiras, patriarcais, tradicionais - o ciclo menstrual que quase coincide com o da Lua, os contornos dos corpos femininos, os amores das tias solteiras, a esperança, a época certa para plantar as folhagens, a medida da água para as violetas, o amor quase instintivo aos gatos e seu silêncio companheiro, esse estranho pragmatismo feminino em relação a certo tipo de loucos simétricos, em relação aos homens fracos, esse desconhecimento do mundo masculino de certezas absolutas, esse desprendimento e generosidade de quem ama para viver e faz do amor a razão da vida.
A casa em que me criei era uma espécie de república. Todos os filhos homens já haviam se ido para suas odisséias pessoais de fracassos e quixotadas e restara vovó e cinco das seis filhas, três com filhos, duas solteiras. Além delas, dois primos homens, eu e uma menina, minha irmã. E assim crescemos os quatro: sem pais, sem modelos masculinos, sem censuras e rispidez, e nos acostumamos todos a esse clima de singela anarquia, de suave e maravilhosa liberdade, tudo isso que é interdito e perigoso ao equilíbrio do mundo. Viver é ir amontoando os sofrimentos e varrer as decepções para trás dos sorrisos, viver é sempre tentar inutilmente as frases que abarcarão o grande segredo do mundo, viver é pensar que o mundo tem segredos quando o que ele tem é mistérios. Segredo supõe partilha, conhecimentos de parte a parte, já o mistério é a saudável treva para todos, a obscuridade reconfortante e bela.
Nos acostumamos desde cedo com os mistérios e os segredos das mulheres. Corpos femininos nus para mim, pelo menos, sempre foram algo natural. Nossa casa de infância era um pequeno apartamento de dois quartos no Centro Velho, com uma magnífica vista para o rio Guaíba, em que moravam seis adultas e quatro crianças, com pouco espaço, portanto, para privacidade. Na verdade, o próprio conceito de privacidade, naquela situação natural, mas digna, acima de tudo, não dava espaço a pudores falsos, a idéias rançosas. Crianças veriam mulheres nuas quando crescessem e as mulheres quase nunca têm vergonha de estarem nuas em frente às crianças. Isto descobrimos em nossas casas, nos vestiários femininos dos clubes de bairro que freqüentávamos, nos banheiros femininos dos lugares públicos a que íamos. Até os doze anos eu certamente vi mais mulheres nuas que em toda a minha adolescência e vida adulta que, a bem da verdade, não começou há muito tempo, mesmo. Mulheres só têm vergonha de seu corpo quando envelhecem, acho. Vovó, se não me engano, nunca se despiu na nossa frente ou, pelo menos, sem um grande pudor, sem um desconforto contristante. Talvez isto fosse reflexo da sua educação, não importa, vovó agora é só uma lembrança boa, polida pelo esquecimento.
O universo masculino, que na teoria, é o meu, para mim é mais um dos mistérios do mundo, e que, na verdade, me interessa muito pouco. Tenho pouco em comum com os homens que não são anarquistas ou não gostam dos anarquistas e despudorados como eu. Fico constrangedoramente sem assunto com todos, homens e mulheres, às vezes. Já passei dias sem falar com qualquer pessoa. Me admiro de ainda não ter sido trancafiado em algum hospício por isso e por outras “estranhezas” do meu caráter. Falo muito comigo mesmo, me olho muito ao espelho, gosto de ouvir minha própria voz. Eu sou é sem assunto, coisa perigosa neste mundo que tem de estar repleto de palavras e ruídos pra que o silêncio não nos venha dizer o que temos medo de ouvir. Não gosto de corridas, não gosto de competições, não gosto de jogos de guerra, não gosto de vestiários masculinos e não gosto de contar vantagem. Não gosto de falar com quais mulheres eu fiz amor, não gosto de conversa de caminhoneiro e churrasco dominical. Sou um homem lésbico, como um cronista já disse de si em algum lugar, e como já disseram de mim por aí. Falo com as mulheres que queiram ouvir o que tenho a dizer, gosto de escutar as mulheres quando estão despidas do verniz de civilização a que as submetem desde pequenas. Gosto das anarquistas, das despudoradas, das que o mundo chama “putas”, gosto das que não tem freios, das que amam e se entregam profunda e inteiramente como a senhora, moça, leitora de poemas e alegria da minha vida. Gosto da gaia terra e da energia criadora, gosto de sementes e crianças. Gosto muito do que as mulheres têm a dizer, meu Deus, e gosto tão pouco do que os homens têm a me dizer - o discurso masculino tão recheado de mortes e assassinatos, competições e vitórias esmagadoras - ai, isso me entedia tanto! E provavelmente serei acusado de proselitismo por ter dito isto, eu, que apenas estou sendo sincero como as mulheres que me ensinaram os contornos do mundo me ensinaram a ser (a partir de qual momento as pessoas deixam de ser sinceras e passam apenas a representar ?).
O único homem de quem me lembro de ter tido uma relação de confiança e amizade, sem competições e enfrentamentos, até hoje, foi meu avô paterno, um velho mecânico de máquinas de datilografia. Vovô foi comunista até ser preso pelo ditador da sua geração (este que nos ensinam que industrializou o Brasil), e se tornou anarquista da mais pura cepa ao aprender o quanto o autoritarismo de qualquer vertente pode estragar a vida. Era filho de italianos e culto de uma cultura incomum para um mecânico de um bairro de remediados na vida de qualquer cidade brasileira. Vovô era amargo e simpático como Mario Quintana, talvez influenciado pelo próprio poeta, de quem ele me ensinou a gostar. Vimos várias vezes Quintana sob as árvores da Praça da Alfândega, centenas de vezes, talvez (pois fui ajudante de vovô algum tempo na sua oficina e andávamos pra lá e pra cá pelo bairro), e ele sempre me disse que eu não deveria incomodar o poeta com meus versinhos. E eu que queria que Quintana autografasse meu volume do Pé-de-Pilão que mamãe comprara numa feira do livro! Agora tudo é tarde e irremediável, vovô e Quintana já se foram pra Cólquida, pra empinar pandorgas nos morros nos dias de vento. E mesmo meu Pé-de-Pilão sumiu na poeira do tempo, antes que eu começasse a amealhar minha pequena biblioteca (meu filho, um homem tem de ter os livros que o leiam à mão - disse vovô - por que a memória sempre falha quando mais se precisa dela).
Meu avô, como eu, também foi um sem-pai. Giovanni, o pai de meu avô, anarquista e carbonário (se essas coisas forem conciliáveis), foi expulso em algum dos pogrons anti-anarquistas do início do século vinte no sul da Itália e embarcado para a Argentina. Chegou com algum dinheiro, o suficiente para abrir um pequeno negócio e ganhou uma nova pátria e lugar de asilo. Giovanni, bisavô paterno, napolitano e poeta, pai de vovô e de quem eu, meu pai e vovô herdamos o olhar triste nas fotos, foi dono de um circo, se tornou profundamente argentino e foi o fundador dessa dinastia de perdedores e desaparecidos que nos tornamos. Certa vez seu circo de ítalo-argentinos desembarcou em Veranópolis, cidadezinha da serra do Rio Grande de Sul que na época seria talvez um povoado, isso nos anos vinte do século vinte, e, bem… circos e navios são cheios de marinheiros, e as mulheres sempre amam os estranhos que se vão, os poetas, os que sonham e tocam a beleza do mundo, não é verdade? Meu bisavô conheceu dona Josefa, italiana também - linda morena napolitana que as fotos guardaram - casaram, ele vendeu sua parte do circo para o sócio, tiveram quatro filhos. Quando vovô tinha seis ou sete anos, meu bisavô levantou acampamento com outro circo e foi embora, sem levar a família. Por isso, talvez, meu avô tinha uma simpatia natural e um carinho especial por mim e minha irmã, que repetíamos sua história estúpida e banal. Estou escrevendo essa crônica desinteressante e boba, cara leitora, apenas pra me livrar da tentação idiota e vaidosa de escrever um romance contando a “saga” da minha família, e me meter numa aventura de anos que resultará quase certamente num livro enfadonho e mal-escrito que poderia ter sido resumido com esta crônica, ou estou arrumando uma boa desculpa para justificar a preguiça colossal que tenho e o tédio antecipado de ter de pesquisar necrológios e obscuros livros de história para escrever qualquer narrativa histórica sobre um assunto tão imensamente comum como uma família de imigrantes do Rio Grande do Sul que não deram em nada de grandioso, não foram grandes políticos, nomes de rua, grandes poetas, grandes médicos, grandes qualquer coisa, uma família de imigrantes italianos e açorianos que resultaram nisto que você está lendo, minha amiga leitora, um homem que teve família como você e talvez não tenha tido pai, como você, e ama viver, como você, e ama você, principalmente, por que a senhora tem, talvez, algo imensamente belo a dizer.”
Pê ésses geográficos e absolutamente dispensáveis:
- Oriximiná é uma pequena cidade às margens do rio Amazonas no estado do Pará, que esteve na rota dos garimpos e na fronteira da conquista da Amazônia nos anos da ditadura (segundo meu pai disse em uma das poucas cartas que recebemos dele desde que se foi - fato a confirmar, entretanto).
- Esse texto foi feito para ser lido depois do ano dois mil.
- Todas as pessoas e fatos citados nesta crônica são fictícios e qualquer idéia de que há semelhança com a verdade dos fatos ou de que há fatos a serem comparados é uma digressão insossa e sem sentido - tipicamente masculina - e falha na avaliação.
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