Alguns meses atrás vi uma entrevista de Garry Kasparov ao comediante Bill Maher. Maher consegue proezas como ser um ícone da esquerda americana mais radical e ainda assim ser engraçado ou ser amigo pessoal da Ann Coulter, ícone da direita mais tradicional dos EUA. Kasparov, o russo campeão mundial de xadrez nos anos 80, era então candidato à presidência da Rússia, contra Vladimir Putin.
Pois bem. Num ponto qualquer da entrevista, Maher afirma que Putin tem “um alto nível de popularidade e pititi e pototó“, no que é imediatamente interrompido por Kasparov: “How do you know?” ou, em bom português, “Como você pode ter certeza disso?”. E prossegue: “Como você pode acreditar nos números fornecidos por um Estado policial? Nas mesmas condições que temos na Rússia, posso apostar que Bush e Cheney teriam os mesmos níveis de popularidade nos EUA que Putin tem lá“.
Pois ontem o octagenário Fidel Castro abdicou ao trono da ilha em favor de seu SEPTUAGENÁRIO meio-irmão caçula. E o que disse a imprensa brasileira? Vejamos algumas manifestações:
Merval Pereira acha que a transição deve ser lenta e gradual (se estivéssemos no século 19, seria o equivalente à resistência do parlamento brasileiro à abolição da escravatura, não? Ou, como diria um parlamentar da época: “Deve ser lenta e gradual para não jogar o país e o império na anarquia e no caos“) .
Miriam Leitão (uma das vidraças preferidas da esquerda maoísta brasileira tempos atrás) acha que o “Desafio de Cuba será manter conquistas de Fidel nas áreas de saúde e educação”. Sério. Sério. É, as conquistas cubanas. Vai chupar manga verde, Leitão.
Já Arnaldo Jabor diz: Fidel Castro foi um sonho que acabou. “Eram uns garotos bonitos [...] eram intelectuais armados [...] Fidel Castro era um sonho jovem.” Ora, vá se foder, Jabor. Os guerrilheiros cubanos eram tão “sonho jovem” quanto a UNITA ou Idi Amin Dada. Com resultados semelhantes.
O patético do Brasil é que os colunistas acima são considerados “de direita” pela esquerda local. Direita? Miriam Leitão? Arnaldo Jabor? Merval Pereira? Qualé? Eles parecem dirigentes de um grêmio estudantil aparelhado pelo PC do B. Pelo menos quando o assunto é Cuba. Jornalistas e formadores de opinião capazes de acreditar em estatísticas e no palavrório de um Estado policial é algo que possivelmente só exista no Brasil.
Essa babação de ovo, esse medinho de dar nomes aos bois fica mais patente e patético quando vindo de gente que (com razão) sempre desceu a lenha no Pinochet, mas trata Fidel como se fosse um avôzinho com Alzheimer. Fidel matou mais dissidentes que Pinochet. Fidel matou e torturou mais dissidentes que Pinochet. De novo, para fixar: Fidel Castro matou e torturou mais dissidentes que Pinochet, além de ter destruído a economia de seu país, ao contrário do filho da puta chileno. Parem de tratar Fidel Castro como um vovô panquinha que agora está doentinho e Cuba como um Piauí que melhorou de vida com o socialismo, ou seus leitores e ouvintes em breve acreditarão que os bocós são vocês. Ou coisa pior.
Voltando ao Kasparov: Em outra passagem da entrevista, Maher diz “Há algo na alma do povo russo que ama a figura do homem forte“, no que é interrompido pelo enxadrista: “Calma aí, isso é um completo nonsense refutado pela História. Olhe, por exemplo, as duas Coréias: A do Norte é, basicamente, apenas um gigantesco campo de concentração e a do Sul, uma florescente democracia com economia de mercado. E são absolutamente o mesmo povo. Há outros exemplos, Taiwan e China, Alemanha Ocidental e Oriental vinte anos atrás. Eu não acredito que haja qualquer coisa como ‘uma alma nacional‘ que faça um país ou povo mais receptivo à democracia que outro.”
Se os cubanos não forem feitos de papelão, se lhes sobrou alguma dignidade depois de 50 anos de ditadura, derrubarão, na primeira oportunidade, esse regime “de sonho” - tão rápido quanto os romenos penduraram Ceausescu ou os italianos Mussolini. E, se aceitarem a continuação da ditadura quando a oportunidade de terminar o pesadelo de Sierra Maestra aparecer, aí sim poderemos falar de uma “alma cubana”.
As passagens do vídeo citadas no post estão a partir de 2:40.
(E, como era de se esperar, Kasparov teve de desistir da candidatura por “problemas de prazos” com a Justiça Eleitoral russa.)
Veja os preços de: games, PS2, PS3, Nintendo, Wii, iPod, Livro.