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E a praga continua

20 de março de 2007

É engraçado ver como, mesmo apanhada em erro flagrante tem gente que não perde a pompa. Isso pode ser uma praga, uma chaga uma calamidade ou até uma praga da peste. Aos links:

Pedro Sette Câmara, do O Indivíduo, reconhece a ambigüidade do uso e da tradução de uma maneira meio constrangida meio eppure si muove.

Janer Cristaldo, cujo blog acompanho esporadicamente por falta de feed RSS no blog (é só habilitar no Blogger, hein), já falava na semana passada algo semelhante ao que eu disse aqui no A Praga Vaticana, de sábado. E agora Cristaldo deita e rola no texto Vergonha ao Jornalista Papista, em que informa que “Karl Josef Romer, - secretário do Pontifício Conselho para a Família, órgão da Cúria Romana e um dos nomes mais influentes do Vaticano - afirmou: ‘É praga mesmo, é isso que o santo padre quis dizer, pois ele é muito cuidadoso na escolha das palavras’.”

Enquanto isso, em Dois Córregos, o bico deselegante de que o Pedro Doria falou continua gritando “só eu estou certo, só eu estou certo” firme e forte.

Mas quem disse tudo e em poucas palavras foi o Radamanto (você será enviado para o inferno no dia do Juízo Final se não clicar sobre o link para o Radamanto. Falo sério).

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A Praga Vaticana

17 de março de 2007

Está acontecendo uma discussão interessante entre o Pedro Doria e o Reinaldo Azevedo sobre o sentido do pronunciamento do Papa Bento XVI e, especificamente, da tradução da palavra PLAGA nesta frase:

“Agitur de quaestione pastorali ardua et complicata, vera quadam plaga hodierni contextus socialis, quae ipsas provincias catholicas crescente transgreditur modo.”

Pedro Doria sustenta que “praga”, além de uma tradução possível é um sentido válido em Latim. Azevedo, de uma maneira deselegante (siga o link) afirma que quem pensar diferente de “Chaga” para a PLAGA vaticana é só, em outras palavras, um bocó. Tem ares de uma discussão em Bizâncio no século 7. Quite amusing. Mas, ao contrário das discussões sobre os gêneros angelicais, esta tem resposta.

Eu tinha resolvido não comentar, há algum tempo não comento no blog do RA, mas ao ler hoje de manhã o post “Leitores deste blog conhecem a versão do Vaticano” me pareceu um bom motivo para pesquisar um pouco. Curioso como sou, apesar de por instinto e leituras acreditar que o Doria estava correto - que, sim, há uma ambigüidade oceânica no enunciado e nas possibilidades de tradução do termo latino dando margem a mal-entendidos - fui conferir nos meus dicionários para ver o que diz a tradução adotada para o termo PLAGA em cada língua. Como leio e falo francês, espanhol, italiano e inglês há já alguns anos, não me pareceu tarefa difícil. Não foi. Segue abaixo:

>> Em francês, do Petit Robert, Editions Robert, Paris, França, 2180 páginas:

PLAIE - n.f (1080; lat. plaga “blessure, plaie”).

1º Ouverture dans les chairs, les tissus due à une cause externe (etc) - O sentido de chaga, ferida em português.

2º Par métaph. et fig. (1226, “ce qui porte préjudice”). Blessure, déchirement

3º Vx. Fléau. Loc. Les Sept PLAIES d’Égypt. - Na tradução para o português, bingo: “As sete pragas do Egito”.

Portanto, a ambigüidade existe em francês. Como diz o Reinaldo Azevedo, “adiante”.

>> Em italiano, do Zingarelli, Vocabolario della Lingua Italiana, Dodicesima Edizione, Zanichelli Editore S.p.A, Milão, Itália, 2148 páginas:

PIAGA - [lat plaga (m) nom. plaga. 'colpo, percossa', poi 'ferita', dal greco dorico plagá 'colpo, percossa'. S.f

1 (med) Lesione del tessuto con perdita di sostanza (etc) - O sentido de chaga, ferida em português. Literalmente, lesão de tecido com perda de fluidos ou substância.

2 Afflizione che rode l'animo. Sanare le vecchie piaghe. - Mágoa, aflição. A tradução para a frase de exemplo é: "Curar uma velha mágoa".

3 (fig) Danno, rovina: la piaga della grandine | (est) Grave male sociale: La piaga dell'analfabetismo - Na tradução: "Pungente problema social: A 'praga' do analfabetismo" (que é mesmo uma praga bíblica, não?).

Ou seja, a ambigüidade também existe em italiano.

>> Em Espanhol, do Clave, Diccionario de Español Actual, Ediciones SM, Madrid, Espanha, 2050 páginas:

PLAGA s.f

1 Desastre o desgracia sufrida por un pueblo o una comunidad: Creo que la droga (y los periodistas muy vanidosos) es una plaga para la sociedad.

2 Abundancia de animales o vegetales que causan destrucción: La plaga de langostas arrasó la cosecha. Este año se prevé una plaga de mosquitos. (olha só que coincidência, uma praga de mosquitos)

3 desp. Gran abundancia de algo que se considera nocivo o molesto: En verano acude a esta costa una auténtica plaga de turistas.

Etimol: Del latín plaga (llaga, herida, desgracia)

Em espanhol nem é necessário o negrito. Os sentidos - pelo menos os usados por falantes modernos - todos apontam para a idéia de PLAGA como CALAMIDADE. Todos os sentidos apontam para o mesmo com que foi usado na tradução de "PLAGA" para o português. Seguindo o raciocínio de Azevedo, erraram também os tradutores espanhóis do Vaticano. Vamos em frente:

>> Em inglês, o Webster's New Universal Unabridged Dictionary, Random House, 2230 páginas:

Scourge n., v., scourged, scourg-ing - n.

1. a whip or lash, sep. for the infliction of punishement or torture.

2. a person or thing that applies or administers punishment or severe criticism.

3. a cause of AFFLICTION or CALAMITY: disease and famine are scourges of humanity. - Esse é o sentido de calamidade de que as tais pragas egípcias falam. Na tradução: Doença e fome são pragas que afligem a humanidade.

No final do verbete, ainda assevera o desinformado Webster: - Syn 3. plague, bane. - Sinônimo para o sentido 3:"praga, epidemia, calamidade".

E finalmente, em Latim, o Perseus, um dicionário Latim-Inglês de uma Universidade de Boston, que conta com uma sessão específica de Latim Eclesiástico, curiosamente o mesmo Latim em que se expressa Bento XVI, pivot da pendenga:

PLAGA , ae, f. [cf. plango] , = plêgê,

Trop.
A. A blow, stroke; an injury, misfortune (class.): illa plaga est injecta petitioni tuae maxima, that great blow was given, that great obstacle was presented, Cic. Mur. 23, 48 : sic nec oratio plagam gravem facit, nisi, etc., makes a deep impression, id. Or. 68, 228 : levior est plaga ab amico, quam a debitore, loss, injury, id. Fam. 9, 16, 7 : hac ille perculsus plaga non succubuit, blow, disaster, Nep. Eum. 5 .–


B. A plague, pestilence, infection (late Lat.): leprae, Vulgata. Lev. 13, 2 ; id. 2 Reg. 24, 25.–
Ou seja, bastante próximo do sentido de praga Egípcia.


C. An affliction, annoyance (late Lat.), Vulgata Deut. 7, 19: caecitatis, id. Tob. 2, 13 .–


D. Slaughter, destruction (late Lat.): percussit eos plaga magna, Vulgata 1 Reg. 23, 5 ; id. 2 Reg. 17, 9.

O Reinaldo Azevedo tem um texto sempre escorreito ou ornado por argumentações cristalinas e contundentes que aprecio bastante e leio sempre, desde o tempo da Primeira Leitura. Já percebi, contudo, que em algumas ocasiões ele faz exatamente como os petistas que tanto critica - ainda que os critique com razão - e berra bem alto para ver se todo mundo se dá por vencido no grito. Talvez, se ele ler esse texto (a Internet, no fim das contas, é só uma grande cidade do interior, uma grande Pinda com seus Ditão…), ele passe a berrar contra os dicionários, ainda que seja mais provável que diga elegantemente que outro mosquito se ofereceu para ter a bunda chutada.

Outra coisa de se notar: Reinaldo Azevedo fala de “versão correta” como se de ciência exata se tratasse e idiomas, enunciados lingüísticos e construções discursivas obedecessem a alguma espécie de lei natural, algum algoritmo infalível e inquestionável (e, talvez, alguém que discorde transforme-se de imediato num petralha). É deveras curioso saber da existência de um homem de Letras que pense assim. O mundo é sortido mesmo, graças a Deus.

Seja lá o que tenha querido dizer nosso bom velhinho e ex-juventude Hitlerista, sua santidade Bento Xis Vê I, disse de uma maneira tão confusa e atabalhoada que, provavelmente apenas ele e o Reinaldo Azevedo entenderam. Acontece. Sinceramente? parece que o Azevedo deve um pedido de desculpas ao Pedro Doria. E precisa comprar uns dicionários melhores.

PS 1: Os comentários estão abertos, be my guest. Eles são moderados e mensagens com palavrões, injúrias ou “ofensas a honras alheias” não serão publicadas.

PS 2: Algum amigo que fale alemão e tenha um dicionário se habilita a fazer a mesma pesquisa para esse idioma? Alemão é uma língua que não admite muitas ambigüidades, seria interessante ler o que tem a dizer um Wörterbüch puro-sangue a respeito, já que o meu Langenscheidts Taschenwörterbüch (dicionário de Bolso Langescheidt Português-Alemão, Alemão-Português, 1240 pag.) diz que PLAGUE, dans la langue du peuple de Goethe*, é “mal, calamidade, praga, flagelo, maçada, dor, tormento”, nessa ordem. Mas - sabe como é - dicionário bilíngüe não dá para confiar. ;^)

* “No idioma do povo de Goethe” - fala do Rabino em Train de Vie, de Radu Mihaileanu, numa das cenas em que os aldeões do Shtetl estão começando a organizar a fuga de trem.

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A do ano

31 de maio de 2006

Alemoa, depois de ver o lamentável, panfletário, rasteiro e constrangedor documentário “The Root of All Evil” apresentado (e idealizado, I guess) pelo biólogo britânico Richard Dawkins: “Meu, eu concordo com você, mas não me faz passar vergonha”.

Isso depois de termos assistido (e também o Richard Dawkins, creio) à maravilhosa série Brief History of Disbelief, de Jonathan Miller, um sujeito que, afora o mau gosto para escolher meias, devia ser mais conhecido pelaí afora. É uma pena que esta, provavelmente, não vá passar no Brasil. Eu traduziria de graça.

Update: Abaixo, um resumo de um dos episódios da série.

Shadows of Doubt
BBC Two Monday 31 October 2005 7pm-8pm
Jonathan Miller visits the absent Twin Towers to consider the religious implications of 9/11 and meets Arthur Miller and the philosopher Colin McGinn. He searches for evidence of the first ‘unbelievers’ in Ancient Greece and examines some of the modern theories around why people have always tended to believe in mythology and magic.

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Sincretismo

25 de outubro de 2005

Junto ao culto de Nanuq, avaliamos novas formas de conhecimento do Sagrado. Conheça você também essa nova expressão da espiritualidade humana. Antes que seja muito tarde. MUITO.

Flying Spaghetti Monster

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De saco cheio

17 de junho de 2005

Meu: nenhum Gulag, nenhum campo nazista, nenhum governo genocida ou terror jacobino matou tanto quanto a Igreja Católica, no século XVI.

E, mesmo assim, nunca mais houve uma época tão interessante quanto o século XVI.

Eu até posso TOLERAR seu catolicismo, mas, faz favor, pregação, não.

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