O ano de 1982 não foi um ano especialmente marcante para muita gente, creio, mas para mim foi a primeira vez em que li a palavra EMBARGO num livro. Em 82 completei duas mãos cheias de anos, o que, aparentemente, já me valia o status de gente entre os adultos, ou assim eu pensava. Foi também o ano em que meus avós paternos voltaram de São Paulo para Porto Alegre e voltaram a morar na frente da minha casa. Meu avô era uma espécie de Henri Salvador pra mim, um sujeito que conhecera a trabalho os EUA, o México, a Itália e a Argentina, tudo antes da Segunda Guerra Mundial, quando viajar de avião aos EUA ainda levava quase três dias e de navio, mais de mês. Também tinha uma biblioteca cheia de livros maravilhosos em seis idiomas diferentes, sabia falar cinco deles menos o Latim, era engraçado, piadista, tinha um prazer imenso em consertar meus brinquedos e ensinar coisas de seu metier. Só não sabia tocar piano, mas, enfim, ninguém é perfeito.
“Vô, você sabe o que quer dizer EMBARGO?”.
O ano de 1982 também foi um ano mais ou menos agitado geopoliticamente e, na prática, o fim de uma era. Falava-se o tempo todo em bombas atômicas, Copa do Mundo da Espanha (e todo mundo acreditava piamente que aquela cambada de pernas-de-pau ganharia o caneco), em como Margareth Tatcher ia arruinar a Inglaterra (hohohoho) e em como a ditadura militar acabaria até o fim daquele ano, diretas-já, Dante de Oliveira, essas coisas. Foi também o ano em que a crise do petróleo de 1979 finalmente bateu às portas de todo mundo. O Natal de 1981 - o melhor Natal pra muita gente da minha geração até hoje - foi o último antes da grande derrocada da economia brasileira que veio em 1982, foi o ano em que demos o calote na dívida externa e o país, para todos os efeitos, quebrou.
“Embargo, então, é uma espécie de castigo, de cheirar canto, só que dum país maior pra outro menor, é isso?”
Foi o ano dos decretos 2045 e 2064 e do Delfim explicando na televisão que era necessário diminuir o salário de todo mundo (menos o dele, presumo), foi o ano das primeiras eleições diretas para governador desde o início da ditadura e o ano em que o MDB (já PMDB) perdeu o governo do estado para a ARENA (já PDS). Foi também o primeiro ano em que percebi que as moedinhas que eu guardava valiam menos de mês para mês. Foi em 82, também, que minha mãe perdeu o emprego num jornal local e passou uns três meses com cara de muito preocupada, procurando outro emprego. Mas calma, não vá embora ainda: Essa fábula tem começo meio e fim e creio que um punchline aceitável. Talvez até moral da História, se calhar.
“Mas a gente só vai de castigo se fizer coisa errada, né vô?”
Em 82 minha tia que trabalhava no Correio do Povo (que quebrou pouco tempo depois) trouxe um livro novinho pra casa. Chamava-se A Ilha, de um tal Fernando Morais. É um livro famoso, que quase todo mundo que lê no Brasil já leu ou ouviu falar. Se for uma pessoa de esquerda, então, é quase certo. A maioria das pessoas de esquerda que já conheci nunca leu ou ouviu falar de Thoreau, Tocqueville, Hayek, Schopenhauer, Ayn Rand, Hobbes, Hume, Francis Bacon ou Montaigne. Mas todas elas ou leram ou tinham vontade de ler A Ilha. Pois foi em 1982 que eu li A Ilha.
“E o que A Ilha fez de errado, vô?”
Eu sei, eu sei, talvez você também tenha lido, mas aqui vai um resumo do que lembro da leitura: A Ilha contava a história de uma terra maravilhosa, cheia de praias maravilhosas e pessoas maravilhosas governada por um sujeito sábio e corajoso, que tinha ganhado uma guerra contra o pior ditador do planeta. Pior até que os milicos do Brasil, veja só. Mesmo sendo um país pequenino, A Ilha era tão surpreendente que conseguia - num monte de coisas importantes (ou que pareciam) - ser tão boa quanto os maiores países do mundo.
“Quando o senhor souber, vô, o senhor me diz?”
Eu li em alguma crônica mela-cueca (como essa) por aí que quase todo garoto quer ser quando crescer: motorista de ônibus, piloto de avião, presidente da República, nessa ordem. Quando li A Ilha, decidi que não queria mais ser piloto e também queria ser presidente e fazer do Brasil um país tão ou mais surpreendente, espetacular, próspero e feliz quanto A Ilha. Mas tinha um problema: o presidente da Ilha já estava no poder, lá no longínquo ano de 1982, há 24 anos. Para um guri de dez é a própria eternidade, não? E, afinal, a gente não estava brigando contra a ditadura pra poder escolher um presidente a cada 4 ou 5 anos?
“Mas o presidente da Ilha também é um ditador, né, vô?”
O tempo passou, eu cresci, meu avô nunca respondeu o porquê do embargo à Ilha e eu resolvi descobrir por minha conta o motivo pelo qual aquele paraíso terrestre permanecia de castigo. Podemos resumir mais ou menos assim: Nos anos 60, houve uma varíola que se espalhou como err… varíola?… por toda América Latina - nacionalização de empresas estrangeiras. Alguém de um país estrangeiro qualquer investia seu dinheiro em infraestrutura ou atividades produtivas em qualquer país latino-americano. Criava empregos, exportava (e trazia divisas pros países) ou auxiliava na criação de divisas (infraestrutura) e, claro, enviava seus lucros para o país de origem, para o seu respectivo dono. Nenhum país latino-americano jamais foi forçado a aceitar esse investimento estrangeiro. Geralmente, eram muito bem recebidos, como foi a fábrica da Volkswagen no Brasil na época do Juscelino, por exemplo - fábrica que está até hoje no país, entre muitas outras.
Pois a varíola de que falava foi a da nacionalização de bens, fábricas, empresas, terras de estrangeiros. Creio que todos os países da América Latina foram infectados pelo vírus nessa época. Muito mais tarde descobri que esse vírus é o principal responsável pela existência d’A Ilha como ela é hoje e o motivo pelo qual o Brasil é um país que até é remediado, mas podia ser muito melhor. Os países nacionalizavam essas empresas ou terras em mãos de estrangeiros pagando o preço de mercado ou algum preço previamente acordado entre as partes. É claro que os investidores estrangeiros não gostavam, quem quer perder uma fonte de renda?, mas ninguém saía de mãos abanando do negócio. Quer dizer, foi assim em quase todos os lugares onde ocorreram nacionalizações: Menos n’A Ilha.
O embargo americano a Cuba, datado de 7 de fevereiro de 1962, ocorreu porque as expropriações de terras, imóveis urbanos e outros ativos físicos de cidadãos e empresas norte-americanas (estadunidense de c* é rola) nunca foram pagas. De novo: Cuba nunca pagou as nacionalizações que promoveu de empresas e propriedades de estrangeiros. Nunca. É como se a Bolívia quisesse nacionalizar, digamos, a fábrica local da Petrobrás e não quisesse pagar. Já pensou que absurdo? OOOOPS.
Essa informação sobre os motivos do embargo a Cuba é pública, não leva muito tempo para achar. Se quiser, comece sua própria pesquisa por aqui. Você vai até descobrir que o tal embargo é de mentirinha, que só se aplica, nos últimos anos, a compras a prazo (afinal, quem vai dar crédito a um notório caloteiro que, além de tudo, está quebrado?).
Não adianta chorar, Jabor: O “odioso” embargo a Cuba foi a melhor desculpa que o seu amigo (”eu estive em Cuba , e é verdade, sim!“) sempre usou pra manter seus canaviais intactos, seus 11 MILHÕES de ESCRAVOS, seus intelectuais basbaques e esquerdistas de “nações amigas” embasbacados. “O Davi contra Golias”. E, para não esquecer: o nojento, imundo e asqueroso Fidel matou mais SERES HUMANOS que o asqueroso e nojento Pinochet (Pinochet tinha pinta de quem tomava banho).
“Tem certeza, vô, que A Ilha está de castigo por nada? Que injustiça! Como são maus esses americanos!”.
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