Rua deserta
27 de junho de 2006Duas cenas de duas copas do mundo:
Dois mil e dois. Copa da Coréia e Japão, no jogo contra a Bélgica, cedo da manhã, eu em São Paulo, fim do primeiro tempo, jogo zero a zero. Não sei porque lembro disto, mas esse era o placar. Tinha de me deslocar para Congonhas, da Vila Mariana, para pegar um vôo para o Rio, um curso. Na época ainda morava em Porto Alegre. As ruas estão completamente desertas, o táxi voa. Chego atrasado para o check-in, “seu vôo fechou há dois minutos, senhor”, me desespero, mas, antes de eu começar a argumentar, alguém surge atrás da moça que me atendia, me dá um bom-dia gentil e diz para despacharem minha bagagem, “o vôo está um pouco atrasado, não tem problema, Márcia”. Agradeço, sigo para o “embarque imediato no portão X” e chego ao saguão de espera onde duas TVs irradiando o jogo estavam rodeadas por pouca gente. Reparo nas pessoas, todos engravatados, senhoras de tailleur, blasés, todo mundo indo ao Rio a trabalho, como eu, bem na hora do jogo do Brasil.
Anunciam o embarque no alto-falante, subimos no ônibus que nos levará ao avião, do outro lado do terminal de passageiros. Dentro do ônibus, um rádio sintonizado no jogo. Eu não entendi direito o que aconteceu, mas a jogada foi descrita rapidamente naquele dialeto de narrador de futebol e terminou com um GOL. No mesmo instante, o ônibus, ainda parado, gente subindo, afundou com o peso da massa de engravatados e senhoras de salto alto pulando em uníssono, digamos assim, para comemorar o gol de Rivaldo. O jogo terminou um pouquinho antes de chegarmos ao Rio, e no vôo ainda nos serviram um champanhe (antes das nove da manhã) para comemorar o segundo gol (este eu não lembro de quem foi) que garantiu o avanço do Brasil na copa. Ou algo assim. Chego ao Rio, tiro a jaqueta de couro, faz um calor inacreditável em contraste com a manhã fria de São Paulo. Lembro de uma cena do Alô Amigos da Walt Disney e, no saguão do Santos Dummont, um Zé Carioca inflável é a primeira coisa que vejo numa loja de suvenires.
Dois mil e seis. Aproveito a diminuição do movimento normal e vou para Porto Alegre rever a família e o Magro. Ele está simplesmente eletrizado com futebol em geral e com essa copa, como qualquer guri saudável entre seis e doze anos. Chego à tarde, no sábado depois do início da copa, e ele fica comigo quase todos os dias até a última sexta. Entre a rotina de levá-lo e buscá-lo na escola todos os dias, pequenas partidas de futebol e treinamentos táticos em campinhos nos parques da cidade ou na garagem da minha mãe quando chovia ou se já estava tarde. Ele está empolgado com a escolinha de futebol, faz gols, sabe driblar, passar bem a bola e chutar em gol. E isso não é papo de pai coruja, mas deixa pra lá. No dia do jogo contra o Japão, saímos logo depois do almoço para bater uma bola, umas duas horas antes da partida. Empolgados, perdemos o horário no parque quase vazio, como também ocorrera nos outros dias dias de jogo: quando eu disse que passava das quatro e meia e o jogo começara, ele ainda quis bater um pouco de bola antes de seguirmos. Acho que o fato de termos um gramado (de futebol sete, vá lá, mas gramado) inteirinho só pra nós influenciou a decisão do moleque. O caminho de volta para casa foi trilhado rapidamente, pois agora ele queria saber quanto estava o jogo. Passamos na frente de uma mercearia e perguntamos o placar. Um a zero pro Japão, nós dois incrédulos. Dobramos a esquina da casa da minha mãe, a ruazinha num silêncio impenetrável e, segundos depois, a explosão geral - gente saindo às janelas dos prédios para berrar ou agitar bandeiras, comemorações mil. Vejo nos olhos do magro o espanto e a sensação de cumplicidade de testemunhar aquele estouro de manada, foguetes, histeria coletiva na rua deserta.
Entramos em casa, ligamos a televisão da sala (minha mãe assistia ao jogo no quarto), perguntamos a ela quem está jogando melhor. Ele me olha e me dá um abraço. “Pai, vamos fazer um lanche?”
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