Arquivo da categoria 'Querido diário'

1968, Porto Alegre

26 de maio de 2008

Esses dias estava falando com uma das minhas ex sobre o fato de que sempre fomos muito mais velhos que nossos pais e os amigos deles. De como ser filho de uma geração de destrambelhados acaba obrigando a gente a pelo menos tentar ser responsável mais cedo (até pra poder sair de casa duma vez). É simplesmente impossível encontrar a certa “maturidade” que se esperaria desses baby boomers que dobraram o Cabo da Boa Esperança já há tempos. Envelhecem e vão se infantilizando, parece.

Eu: Não agüento mais cinqüentão e sessentão bancando o adolescente. E me achando “estranho” por dizer que nasci com 70 anos. Mas com alma de 65.

Ex (ortografia, gramática e preguiça corrigidas): A única parte dessa coisa toda que eles entenderam foi o “é proibido proibir”. Só perderam o contexto todo. Enfim… ser velho a vida toda evita várias visitas ao hospital. Eu prefiro meus ossos inteiros também.

Eu (idem): Está todo mundo revoltado porque tenho ensinado ao MEU FILHO que existe certo e errado, herói e bandido, direita libertária e esquerda autoritária e coisa e tal. Todo mundo = Cicrana, Beltrana, Fulana, etc.

Ex: Sério, até a Fulana?! Isso eu não esperava.

Eu: Fulana = mó comunista, hehe. Nah, HUMANISTA.

Ex: Hahahahahahaha. Humanistas = comunistas com vergonha de comer criancinha. No dia em que recebi o email dos humanistas apoiando o Chávez foi o dia em que pedi pra sair da lista.

#############################################

Ah, é, Porto Alegre: Tenho passado os últimos meses meio recluso e nem olhado muita coisa na Internet ou na rua, tanto pelo luto quanto por uma certa angústia que ainda me dá de interagir com meus conterrâneos. Essa mania que todos têm de perguntar, ansiosinhos, se não estou tão mais feliz de ter trocado aquele horror paulistano por essa estupenda e formidável cidade de que se orgulham tanto.

Pois eu ainda estou procurando motivos para me orgulhar (nah, nem) dessa magnífica cidade em que é possível passar três semanas inteiras sem ver um único policial em ronda, patrulhando as ruas. Em que todas as calçadas de todas as maiores avenidas têm anos de marcas e cicatrizes de chicletes e humores humanos e nunca viram um jato d’água. Nunca. E nenhuma linha nos jornais sobre isso.

Estou procurando motivos para me orgulhar de uma cidade em que todas as cadeias de farmácias compram um certo remédio de uso contínuo de um mesmo distribuidor e, quando o distribuidor esquece de fazer o pedido, o remédio falta na cidade inteira. Repetindo: medicação de uso contínuo. E nenhuma linha nos jornais sobre isso.

Estou procurando motivos para me orgulhar de uma cidade em que a região equivalente à rua Santa Ifigênia tem exatas 10 lojas de informática. Em que é impossível encontrar tipos absolutamente comuns de lâmpadas e acessórios de iluminação, mesmo nas “melhores casas do ramo”. Mesmo que você queira pagar mais. “Não tem”, “não existe”, “nunca ouvi falar”.

Em que tudo o que é industrializado custa o dobro ou o triplo (ou o múltiplo que der na telha do lojista) do que em outras cidades de mesmo porte. Algumas delas até mais distantes do “centro produtor”. “Uóqui? Cento e cinqüenta e dois reais” (custa trinta e cinco em outra praça que conheço. E nem era o mesmo dessa outra praça, era pior).

Estou procurando o motivo para me orgulhar duma cidade em que o transporte coletivo é caro, inexiste bilhete único, não há metrô (p&$ no c# de quem chama o Trensurb de metrô), regiões inteiras estão incomunicáveis por causa da maneira estúpida com que as linhas de ônibus foram distribuídas e não há um único site - meia-boca que seja - com informações decentes sobre a malha de transportes urbanos.

Estou procurando um motivo para me orgulhar de uma cidade cujas principais vias têm o mesmo asfalto há trinta anos, esburacado, podre, esfarelando (claro, era ótimo em 1978, mas sabe como é o tempo) e que, só agora, começa a ser timidamente recapeado aqui e ali. Onde não há lixeiras (agora há: só no Centro) e todos os aparelhos públicos, sem exceção, estão vandalizados ao ponto da inoperância. Esqueça pontos de parada cobertos e com anúncios luminosos. Esqueça avenidas iluminadas à noite, esqueça abastecimento regular de água potável, nada disso faz parte da cultura e tradições gaúchas. E, sim: Algumas linhas de um press release da estatal fornecedora de água - quando começou a faltar água na casa dos jornalistas, creio.

Estou procurando o motivo para me orgulhar de uma cidade em que a alternativa ao transporte coletivo precário, o bom e velho automóvel particular, é um estorvo ainda maior por conta do trânsito selvagem, as multidões de motoristas que ou dirigem bêbados ou não conhecem as mais comezinhas regras de trânsito, as brigas intermináveis protagonizadas por boçais que, houvesse algum rigor na compra das carteiras de motorista, só estariam habilitados a andar de patins - se tanto. Porto Alegre deve ter um trigésimo da frota daquela outra cidade “infernal” e é capaz de produzir congestionamentos que não vi nos 5 anos de vida por lá.

Mas, aparentemente, todos estão muito contentes com a cidade, estupendamente contentes, magnificamente contentes, menos eu. Você fala com as pessoas e lá estão elas, todas orgulhosas, ufanistas, trique-trique-rolimãs. Devo ter nascido com um parafuso a menos, me dou conta. O que vim fazer aqui? Ensinar meu guri a falar inglês, para que também possa sair - se quiser - um dia.

Vou começar a tirar fotos das coisas que estou dizendo e pendurar por aqui, procês aí de fora não pensarem que estou mentindo ou exagerando. Porto Alegre é DJI MAIS, mesmo. Só visite se não houver alternativa.

PS: Faltou falar de restaurantes, táxis, parques, calçadas, praças, imprensa, entrega de jornais e revistas, etc. Se algum gaúcho nacionalista não me assassinar no meio-tempo, escrevo mais, outro dia.

Veja os preços de: DVD, MP3, LCD, Plasma, HDTV, Home Theater.

Novas paixões

12 de maio de 2008

Cheio de rascunhos não publicados por conta da combinação de WiFi podre e ranhetice do Virtua, o resto da minha mudança que não chega nunca - é o que dá confiar em GAÚCHO - milhões de emails autênticos que o gmail resolveu jogar no spam (ok, só uma dúzia) - a vida é. Onde estão os cabos pra descarregar as fotos? Onde anda o carregador da Sony? Vida encaixotada.

Mas tem essa senhorita aí, que é parceira, gosta de posar pra foto e de acordar a gente raspando a porta cedinho pra fazer festa. E paga o aluguel direitinho: Já pegou duas lacraias, várias abelhas e outros visitantes indesejados.

Bella, a gatinha

Floating Bella

Mais Bella, The Floating Cat

Pra não dizer que não andamos em sintonia, Tía Raq publicou uma do Donnie.

Veja os preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras.

Como se vuelve siempre al amor

13 de março de 2008

Internet em cyber café é algo absolutamente bizarro e irritante. Vou ficar uns dias sem atualizar isto aqui, a menos que ache algo melhor para conectar no meio tempo. Semana que vem um jovem (”Pai, eu quero ir pro Canadá”) começa a aprender inglês. Vamos ver como me saio como professor particular. Dicas serão bem-vindas. Heh.

Sobre o post anterior: o incidente diplomático já foi resolvido, parece que foi um “remove” acidental e eu peço desculpas pela delicadeza das palavras abaixo. E, pros cidadãos de um certo município gaúcho que não gostaram da brincadeira, como dizia o pai do Diogo Mainardi:  $%# no $% da periferia. E um abração. De urso polar.

Ah, o título vem de um Piazzolla favorito da casa.

Veja os preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras.

A futura Guerra das Baratas

5 de março de 2008

A futura Guerra das Baratas

Se a América do Sul fosse um (sub) continente normal em que sangue de gente e não sangue de barata corresse nas veias dos seus habitantes, colombianos e equatorianos já estariam engalfinhados bombardeando-se, fuzilando-se, arrancando uns aos outros os membros a machete.

É preciso dar o benefício da dúvida e a razão aos colombianos: Abrigar uma força hostil a um Estado constituído - ainda mais a um Estado de fato e direito - é um ato de guerra e ponto. Ou seja, equatorianos (e quem mais esteja hospedando comandos das FARC com tanta mordomia e direito a pijama e Wi-Fi na selva) declararam a seu modo tosco*, guerra à Colômbia.

A retaliação colombiana também é um ato de guerra, se o governo do Equador quiser ver assim. Guerras absurdamente sangrentas começaram por muito menos, I mean.

Se o War Nerd escrever algo a respeito do “quase entreveiro”, o mais divertido da coluna será caçar os adjetivos que ele usará para descrever os sangues-de-barata da América do Sul. Uma velha, sobre a Colômbia, já foi de engolir a dentadura.

Enquanto isso, os diplomatas se empanturram de canapés na OEA e protelam qualquer decisão. Talvez seja até melhor assim.

Uribe, Chavez e Correa num abraço grupal
03.mar.2008/Guillermo Legaria/Efe

*Nada na América Hispânica é mais tosco que o castelhano falado pelos equatorianos. Paraguaios e venezuelanos em briga de foice no escuro pelo segundo lugar. Palabra de boy scout.

Veja os preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras.

O Mundo é Sortido

20 de fevereiro de 2008

Bueno, agora é oficial: no próximo sábado começo a longa jornada de voltar a Porto Alegre, a ver se passo mais tempo com meu caçula. Desde que perdi minha filha no ano passado a vida tem gosto de papelão. Escrever, comer, beber, ver os amigos, tudo tem gosto de papelão. E, não, não é que as coisas ou as pessoas tenham finalmente se tornado papelão, o mundo continua o mesmo de sempre. Como disse pra alguém, cansei de ser “pai de skype”.

Foram os anos mais felizes da minha vida esses aqui em São Paulo. Queria trazer todas as pessoas que amo pra cá e mandar o mundo se foder bem redondo. Porque o mundo merece se foder bem redondo. Mas não é assim, a gente sabe. Então vamos aturando as reinações do mundo como quem atura uma namorada temperamental e uterina (mas que é boa de cama e tem um traseiro de cinema).

De quando em quando virei visitar essa cidade - que o Magro também gosta - e ver a Liberdade, o Sumaré, o Villa Lobos, a Martins Fontes, o Toninho e Freitas, o skyline e as pessoas que amo e que deixo aqui: e que não posso levar pra Porto Alegre, pois, como disse ali em cima, o mundo é um filho da puta e tal. Vaga fertur avis.

Mas, tenho certeza, grandes aventuras nos esperam na terra do falar cantado, do pé-de-bosta e do recorde de assassinatos en 2007: Sempre esperam. “O mundo é sortido”, dizia alguma vovó gaúcha que não era a minha.

Veja os preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras.