Quando saí de casa há vários anos a única certeza que eu tinha era a de que eu precisava sair de lá e fazer algo de minha vida. A vida interiorana me oprimia de tal forma que assim que pude deixei pai e mãe e fui para Porto Alegre. Minha cidade foi uma das primeiras a ser fundada no estado pelos casais açorianos, mas nunca deixou de ser um vilarejo com não mais de trinta mil almas e, mesmo sendo distante da capital pouco mais de oitenta quilômetros, jamais perdeu a caipirice natural de um vilarejo de agricultores. Nasci em um casarão na esquina de um beco de calçamento antiqüíssimo, que tinha sido mandado calçar por ocasião da visita de D. Pedro I na época de alguma guerra contra o Uruguai. O beco da Fonte despenca por uma ladeira íngreme até uma praça com uma fonte pública ao centro, no pé da colina. A fonte, de 1847, tinha sido mandada construir pelo mesmo Pedro, que aprovara o frescor da nascente, suas propriedades, sua pureza, essas coisas que os visitantes polidos dizem pra fazer feliz a gente dos vilarejos. De qualquer forma levaram vinte anos desde a visita do imperador até finalizarem a fonte e acredito que em 1847 D. Pedro I nem mais vivesse.
Na verdade, pouco ou nada sei da História de qualquer coisa ou lugar. Memória sempre foi o meu ponto fraco desde os primeiros anos de escola. Odeio ler. Odeio ter de lembrar das coisas. Odeio. Sempre fui um aluno medíocre até na faculdade e minhas melhores notas, se é que alguma se salientou, eram sempre em matemática e em desenho. Odiava especialmente as aulas de Língua Portuguesa, esse idioma estrangeiro que nos ensinam na escola desde a mais tenra idade. Me formei, penso, por sorte. Acho que as únicas datas que guardei até hoje foram as do dia em que saí de casa e a da fonte que está gravada na pedra pra quem quiser ver no centro de uma pracinha na minha cidade natal. É engraçado, mas quando falam do Brasil Império, as únicas coisas que me vêm à cabeça são a Marquesa de Santos, de quem li a biografia na adolescência, e a fonte da minha rua. Na verdade, pra mim o passado e a História não fazem a menor diferença ou sentido e por isso estranho os sonhos que venho tendo. Pra mim, o passado morreu. Saber dele é tão inútil quanto chorar um morto, não traz nada de volta.
Meus problemas começaram quando fui a São Paulo para um curso que a firma em que trabalho exigiu dos funcionários mais graduados do meu setor. Sou engenheiro de materiais em uma petroquímica exportadora de Triunfo. Me formei na Universidade Federal e trabalho em petroquímicas desde que saí dos bancos escolares há alguns anos.
O curso durou duas semanas e consistia duma salada de conceitos de administração, preceitos motivacionais, técnicas de gestão direcionada a resultados e fórmulas para tornar os colaboradores (nós, empregados, nos tornamos colaboradores em um toque de mágica) empreendedores ainda mais dedicados ao sucesso e às metas da nossa empresa. As duas semanas mais maçantes da minha vida, pra falar a verdade. Odeio São Paulo. Odeio cada circunstância daquela cidade. A gente, a fumaça, a pressa, o trânsito, a noite, as mulheres feias que por falta de comparação se pensam muito bonitas, odeio o mau-humor das pessoas, que é um mau-humor diferente do dos sulistas, é um mau-humor interesseiro, odeio os viadutos, odeio as Marginais, odeio os aeroportos - sempre cheios de picaretas dispostos a passar a perna nos recém-chegados - odeio os taxistas conversadores e falsamente simpáticos, odeio o Ibirapuera, odeio os Museus e os centros comerciais. Mas, sobretudo, odeio a comida. Em nenhuma outra cidade grande do mundo se come tão mal quanto em São Paulo. Almoçar, em São Paulo, é um exercício de paciência. No Brooklin Novo e no Morumbi, onde eu tinha aulas e onde estava hospedado, respectivamente, não pude encontrar nem com reza um restaurante tranqüilo com comida honesta, simples e com cheiro de comida. Andei por toda a avenida Berrini e adjacências buscando algum restaurante decente em vão. Comi durante duas semanas em um buffet por quilo com os colegas do curso no almoço e à noite encomendava uma pizza à pizzaria que o hotel indicava aos clientes. Emagreci quatro quilos nesse período. Quando voltei para meu trabalho e me perguntaram como tinha sido a viagem eu disse - é ótima pra quem quer perder uns quilinhos - gracejo que ficou popular no meu setor. Ah, o Pedro ficou sem comer nada, nada em São Paulo, brincavam meus colegas. Ficou na mão, o pobre, diziam os mais atrevidos. As pessoas têm uma antipatia natural por mim, coisa que eu não me esforço em melhorar. A opinião dos outros me importa muito pouco.
Foi na segunda noite no hotel que começaram meus problemas. Eu tinha feito uma boa viagem, tinha me acomodado, assistido à primeira aula e já entrevia o tédio das restantes quando deitei, dispensando os cobertores que haviam posto ao pé do leito. Devia estar fazendo quinze graus e segundo tinham me dito no curso esse era todo o inverno deles. Ridículo. Pensei se algum dos meus colegas paulistanos sobreviveria a uma hora em Mendoza no inverno, onde eu tinha trabalhado por dois anos. Nem ao inverno de Florianópolis, provavelmente. Tomei um banho frio antes de dormir, pensando nisso. O hotel chegava ao exagero de ter caldeiras elétricas para aquecer a água. Essa cidade é um grande desperdício de energia, pensei. Apaguei as luzes do quarto e não demorei a conciliar o sono.
Acordei pela manhã com a certeza de ter sonhado. Eu nunca, nunca lembro dos meus sonhos, se é que eu sonho. Meu sono sempre é profundo. Sonhar é perder o melhor do sono. Quem sonha se ilude que está dormindo, quem sonha não descansa: Sonhar é perigoso, em certo sentido. Desde aquele dia descobri também que odeio sonhar. Faltam poucos anos para eu completar quarenta e toda a minha vida até aquela noite era perfeita: eu fazia meu trabalho, que me realiza plenamente, tenho certeza, eu tinha meus amigos, eu tinha minhas namoradas. Não sou casado. Odeio casamento. Saí de casa por que não queria viver uma vidinha como a dos meus pais. Nunca encontrei uma mulher que me inspirasse confiança a ponto de me casar com ela, de ter filhos, família e não me causar problemas e constrangimentos.
Pulei da cama e pedi à portaria que me mandassem uma térmica com café passado. Ainda não tinha amanhecido. Odeio o café de São Paulo, espesso, forte demais e fedorento como quase tudo por lá. Sou muito olfativo, provável herança dos tempos de cidadão de vilarejo, em que os cheiros das coisas nos dizem se elas estão estragadas, boas ou apenas aceitáveis. Por esse rígido critério, tenho encontrado poucas mulheres aceitáveis no mundo. A brisa que subia a ladeira do beco recendendo a pântano e pedra molhada desde a fonte até a minha casa vale mais que a maioria dos cheiros das mulheres que conheci. O cheiro das asas das gigantescas borboletas azuis que invadem as casas da minha cidade no início de fevereiro também. Cheiram a flores e guardado, uma combinação exótica e agradável que eu não cansava de experimentar. Quantas borboletas daquelas não terei capturado apenas para sentir seu cheiro peculiar? Quantas vezes não fiquei comparando o azul ciano de suas asas maiores que as minhas mãos de menino com o azul cristalino do céu sem poluição? Foi pensando nas borboletas azuis que abri a porta para o rapaz da copa. Estranhamente, ele me parecia conhecido. Trouxera um café da manhã completo em uma mesinha com rodas, em lugar do simples café preto que eu pedira. Resolvi aceitar o engano e fazer o desjejum no quarto. Ele colocou a mesinha perto de minha mesa e se afastou, sem me olhar ou esperar gorjeta.
O café viera em um bule de prata reluzente e no momento em que abri a tampa para ver o seu aspecto, o vapor e o aroma violentos do líquido invadiram minhas narinas. Fechei os olhos e pude ver nitidamente minha mãe servindo o café para mim e papai numa manhã fria de algum abril. Fechei rapidamente a tampa e abri os olhos. A mesa do café era simples e bonita, enfeitada com uma pequena guirlanda de flores campestres amarradas com uma fita a um feixe de caninhos de casca de canela. Tomei as flores para verificar se não eram plásticas. Eram verdadeiras e, sim, perfumadas. Fechei os olhos novamente e desta vez pude ver uma cena que identifiquei como do sonho que tivera à noite. Uma mulher de feições muito delicadas, como as dos quadros de um pintor austríaco ou australiano de que tenho algumas reproduções e de quem nunca recordo o nome - se não me engano Gustav Kafka, Gustav Mahler ou Gustav Klimton - algo assim (minha memória é péssima, já disse), uma mulher delicada vinha em minha direção com um maço de flores em uma das mãos e me estendia, sorrindo, a mão livre para que eu a pegasse e fôssemos passear. Por alguma razão eu recusei aquele toque. Ela simplesmente me deu as costas, mas antes de se ir, disse que voltaria. Enquanto se afastava pelo campo com passos lentos - sim, no sonho estávamos em uma campina aberta, que dava num arvoredo costeando um riacho - eu reparava em seu vestido rendado e suspenso em alguma espécie de armação, pois era muito largo. Os cabelos estavam arranjados em grandes cachos que caíam até a metade das costas e eram de uns fios tão finos que o pouco sol que batia neles refletia e se espalhava em centenas de pequenos raios. Abri os olhos novamente e me sobressaltei. A porta do quarto estava aberta e uma criança - talvez um vizinho no hotel - me observava. Quem é você, perguntei. Sou teu pai, filho, disse o menino, com um tom de gracejo na voz. Eu sorri, o guri tinha me pregado uma boa. Procurei alguma coisa na mesinha pra oferecer ao garoto e achei um sonho, semelhante aos que minha mãe fazia. Quando levantei os olhos para lhe mostrar o doce, ele tinha sumido. Teria se assustado?
Me vesti e fui para o curso me sentindo estranho. Desci até a portaria do hotel e cumprimentei a moça da recepção com familiaridade. Ela sorriu largamente, mostrando todo o branco dos dentes. Achei a moça bonita sorrindo. Enfim. No táxi, antes de cruzarmos a ponte do Morumbi, o taxista comentou alguma notícia que o rádio vomitava cansadamente. Eu assenti e concordei, sem saber bem com o quê concordava. De repente, me peguei reparando em coisas que, de ordinário, não reparo - as plantas no trajeto, as pessoas nas calçadas, as lojas do bairro, os semáforos negros em cada cruzamento. O dia era de um azul inusitado para o que eu conhecia de São Paulo, sempre cinzenta e enfumaçada. Nunca tinha reparado que em alguns lugares há pessoas caminhando nas ruas da cidade. Além do aeroporto, sempre cheio de gente, nunca tinha reparado que há pessoas em São Paulo.
À noite voltei a sonhar. Acordei no meio da madrugada banhado no meu suor e com um pouco de febre. Puta que o pariu, pensei, fiquei doente nesta cidade de merda. Liguei para a portaria e pedi que mandassem um termômetro para medir minha temperatura. Dez minutos depois bateram à porta e eu atendi. O mesmo menino da manhã me estendeu um termômetro eletrônico e me olhou de cima a baixo. Tu vais te resfriar se dormires destapado, filho, ele disse, antes que eu pudesse agradecer. Eu olhei fixamente para o garoto. Ele vestia um uniforme escolar bastante em desuso, semelhante aos uniformes de internos de um liceu militar. Teria oito ou dez anos, no máximo. Você trabalha aqui, rapaz, perguntei. Sim, filho, ele disse, desde que mamãe morreu, há dois anos. Coloquei o termômetro sob o braço, sem desviar o olhar da criança. E se eu estiver doente, menino, perguntei, o que faço? Peça a Santo Antônio que te proteja, meu filho, sempre funciona, ele disse. Se ao menos tua mãe estivesse aqui, completou. Fiquei em silêncio por instantes. O alarme do aparelho desviou minha atenção do garoto e consultei o visor do aparato. Trinta e cinco ponto oito. Nenhuma febre. O menino sumira de novo. Saí do quarto para o corredor do andar e ainda o pude ver entrando no elevador. Nenhuma febre. O telefone do quarto tocou em seguida. Sim, estou bem, foi apenas um mal-estar noturno, eu respondi. Talvez um pesadelo. Nenhuma febre, sim, talvez um pesadelo. Fui até a janela do quarto. O hotel, defronte à marginal Pinheiros, oferecia uma imensa vista desde o Brooklin até quase o Centro Velho de São Paulo, com seu paredão de prédios lado a lado, limitados pela larga avenida. Meu quarto era no décimo primeiro andar, do lado de cá do paredão. Lá embaixo, na avenida, os carros não paravam de circular. Três da manhã. A noite estava estrelada e límpida, o que me pareceu inverossímil. Abri as vidraças para sentir o cheiro da noite e um perfume de flores do campo e rocio invadiu o aposento, empurrados por uma brisa gelada e envolvente.
Não consegui dormir até a manhã, quando bateram na porta. Sim? Seu café, doutor, disse uma voz conhecida. Era o rapaz da copa. Quem é o menino que me trouxe o termômetro à noite, perguntei. Não sei, doutor, nunca vejo o pessoal da noite, disse o rapaz, sem me olhar. O senhor está doente, perguntou. Não, pensei que estava com febre, só isso, eu disse. Ah, o ar da cidade sempre faz mal aos estrangeiros, ele disse. Eu sou tão brasileiro quanto você, eu disse. Ele sorriu e deu as costas sem esperar a gorjeta, novamente.
Os dias em São Paulo começaram a se repetir nessa rotina: eu dormia às dez da noite, acordava às três banhado em suor e pela manhã o rapaz trazia meu café no carrinho sem nunca esperar a gorjeta. Aos poucos, comecei a recordar os sonhos que ia tendo. Todas as noites a mulher do vestido rodado aparecia oferecendo a mão para um passeio que eu sempre recusava. Uma noite perguntei seu nome. Domitila, senhor, ela disse. Domitila. De dia, cruzei algumas vezes ainda pelo menino que me trouxera o termômetro pelos corredores do hotel, mas sem lhe falar.
Duas noites antes de sair de São Paulo, aceitei o convite da mulher no sonho e lhe dei a mão. Pedro, ela me disse, não deixa nunca que te façam abdicar. Não se preocupe, menina, eu jamais abdicarei, eu disse. Eu jamais voltarei a qualquer lugar, não se preocupe. Pedro, me beija, ela disse. Acordei abraçado ao travesseiro, com febre de novo. Preciso de mulher, pensei.
Pela manhã o rapaz da copa bateu à porta e assim que atendi, empurrou mecanicamente o carrinho até a mesa do quarto. Preciso de uma acompanhante para essa noite, eu disse a ele antes que saísse. Peguei alguns trocados da carteira e dei-lhe, dizendo seja discreto e me arrume o telefone ou um encontro com uma profissional. O senhor tem alguma preferência, Dom Pedro, disse o rapaz, me olhando fixamente nos olhos pela primeira vez. Uma japonesa ou oriental, bonita, mas não muito cara, eu disse. De onde eu conheceria esse rapaz? Eu sei o telefone de uma japonesinha que vem sempre aqui, atender os estrangeiros, senhor. Diga a ela que eu quero mulher para a noite toda, eu disse. Ela é mulher pra vida toda, Dom Pedro, o rapaz disse sorrindo, mas pra vida toda é mais caro.
À noite, após a janta, o telefone tocou. Aqui é o Bonifácio, da copa, senhor. O senhor vai querer mesmo a moça pra essa noite, ele perguntou. Sim, eu disse. Ela vai estar aí em uma hora, Dom Pedro. Enquanto aguardava a moça, peguei da mesinha uma Folha de São Paulo para passar o tempo. No Museu do Ipiranga iniciava uma exposição temática sobre a indumentária do Primeiro Império. Não pude deixar de me espantar ao constatar a semelhança do vestido da mulher do meu sonho com o da foto estampada no jornal, mas nenhuma legenda informava quem teria sido a dona da roupa. No corpo do texto, que li por curiosidade, apenas amenidades insossas, nenhuma referência ao vestido. Odeio jornais, pensei. Sempre cheios de notícias repetidas com personagens diversos. Na página seguinte, ainda sobre a exposição, uma das fotos trazia um uniforme e tinha uma legenda que dizia: Primeiro uniforme do Colégio Militar do Rio de Janeiro.
Quando bateram à porta eu tinha certeza de que era ela. Terminei algumas anotações que tomava em um bloco e fui atender. Ela estava em seu vestido de gala. Só a tinha visto assim, tão bonita, em alguma outra ocasião muito importante. Era uma oriental o que o senhor queria, pois não, Dom Pedro, ela disse. Não, eu esperava por você, só isso. E você continua linda, como num sonho.
Seria deselegante de minha parte narrar o que se passou a seguir, um cavaleiro não deve ter boa memória para certas coisas. Sei que, horas depois, despertei ao seu lado e fiquei longos minutos observando seu dormir e delineando a suavidade de suas formas com a ponta dos dedos desde os ombros até a pelve, repetindo o passeio várias vezes, até que me cansei e me ergui, em direção à escrivaninha.
Tomei da pena e um maço de papéis enquanto me concentrava. Escrevi, mecanicamente, uma longa carta que começou assim: “Desde que pus meus olhos na tua formosura, quis ser todo e sempre teu. Queres, divina augusta, o meu pensamento? São para ti esses versos, meu amor.”
Finalizei a carta, pus meu timbre com o sinete que papai me dera. Fui ao banheiro lavar o rosto. Enquanto a água escorria da torneira, escutei o rumor de sua partida. Eu tinha certeza de que ela só sairia se eu não estivesse. Retornei ao quarto, encontrando a cama vazia e uma carta sobre o travesseiro. Abri o envelope com cuidado, reconhecendo a caligrafia, e comecei a ler:
“Senhor, eu parto essa madrugada…”
Mais não pude. Fechei a carta e guardei-a no envelope. Pela manhã, entreguei a carta à Bonifácio, com a recomendação de que ele a guardasse em meu arquivo. Ela não volta mais, Pedro, ele perguntou. Não, Bonifácio, não mais.
Estou em casa sentado na varanda da minha cobertura, observando o sol se pôr no Guaíba. Já faz alguns meses que voltei de São Paulo e não consigo mais dormir bem desde então. Emagreci dezoito quilos e não tenho tido vontade de fazer mais nada. Mesmo assim, ninguém parece ter notado minha perturbação, nem meus colegas nem meus amigos. Não sinto mais fome e isso não me incomoda. Dentro de algumas horas será noite e eu preciso dormir, mas fico pensando em por que os homens têm de dormir. Tudo é inútil. Amanhã é dia de trabalho e eu tenho de estar descansado, penso. Sei que não conseguirei pregar os olhos a noite toda, mas não consigo pensar em nada melhor. O único pensamento em que me ocupo é de como a vida é inútil.
Mamãe e papai estão na sala de visitas, tomando chá com biscoitos em xícaras de louça da boêmia e conversando animados. Parecem alheios ao meu drama, como fantasmas. Um pensamento me assalta, dizendo que o fantasma sou eu. Mamãe olha para onde estou como se visse através de mim. Sim, eu sou o fantasma. O tempo que resta me parece pesado e lento, agora. Estou envelhecendo e ficando invisível, transparente, incorpóreo. Domitila, desde que voltei pra cá, casou-se de novo e teve mais filhos com um tal Rafael, um pobre diabo que promovi a brigadeiro em algum acesso de insanidade. Não quero mais sonhar com ela. Não consigo mais me concentrar em minhas planilhas de cálculo. Bonifácio toma conta de meu filho no Rio de Janeiro e tenho certeza de que desempenhará bem a tarefa. Parece que a carestia finalmente terminou depois deste plano econômico. Dom Miguel não é mais um empecilho. Não vou mais às festas da corte. Agora até os chineses vão à lua. Meu trabalho não me dá mais prazer. Adormeço e sonho mais uma vez com Domitila.
Rivera, Uruguay, outubro de 1997.
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