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Eu odeio o frio

27 de abril de 2006

Chegamos na cidadezinha como dois náufragos, moídos pelas doze horas de viagem. Ela não gostava de dirigir, eu só gostava de dirigir na estrada, hoje nem isso. Deixamos o carro em frente a um bar, descemos. Ela tinha um sedan francês de quatro portas, o que não era comum naquela época, as fábricas francesas só vieram muito tempo depois para o país. Apanhei os sobretudos e meu chapéu do banco de trás, depois que esticamos as pernas. Ela sorriu e me pediu para não esquecer o cachimbo, enquanto vestia o casaco. Fomos para a beira da praia.

Ela estava num jeans azul, não sei qual marca, isso não me interessa, de tênis e, por cima de uma burma vermelha, outro blusão mais grosso, mas vermelho no mesmo tom, e o sobretudo marrom claro. Pus a manta escocesa por volta da garganta, retirei do bolso interno do casaco e abri a caixinha que carregava ao lado da petaca e comecei a preencher o cachimbo com o fumo que ela me presenteara. “É da sua marca preferida”. Lembrava o cheiro de chocolate quente ao ser queimado. Ela gostava do cheiro, mas raramente fumava. “Você é o último sujeito que sabe fumar cachimbo sem parecer um maconheiro”, ela disse. Eu ri, sem jeito.

Por que tínhamos ido parar ali, eu me perguntava. A areia da praia começou a entrar nos meus sapatos. Incômodo. Não gosto muito de praia. O céu de chumbo e a ventania constante sugeriria uma tempestade próxima a algum desavisado, mas era o céu de quase sempre naquelas bandas em maio, quase inverno, cidade deserta. “Fala mais da sua namorada uruguaia”, ela disse, enquanto abria os braços como uma criança brincando com o vento. “Ela era bonita. Não tenho nada mais pra falar. Eu estava bêbado ontem, lembrei dela não sei porquê”. Ela parou, olhando pro mar e me dando as costas. “Não há nada mais bonito no mundo que esse mar quando o céu está assim”, ela disse. Era verdade. O mar, mesmo agitadíssimo, tinha a cor prateada, cintilante, de peixe recém pescado. “Talvez na Noruega”, eu disse. “Na Noruega os fiordes impedem o vento de deixar o mar dessa cor”. “Mais ao sul, talvez, então” eu disse. “Mais ao sul o mar não está assim, misturado com o rio. É o rio que dá essa cor ao mar”, ela disse. “As uruguaias não ficam com brasileiros. Eu venho aqui desde criança e sei disso. Por isso te perguntei.”, ela continuou, virando-se pra mim. “Eu não sou brasileiro”, eu disse. “Nunca fui porra nenhuma. Gaúcho, brasileiro, paulista, carioca. Porra nenhuma.” Com muito custo, consegui acender o cachimbo. Ela pegou na minha mão e continuamos a caminhada. Era a primeira mulher que tinha as mãos mais quentes que as minhas num dia frio. “Quantos graus deve estar?”, perguntei, meio sem assunto ou pensando em outra coisa. “Uns seis, sete. Com o vento, um, dois. Mas em Montevidéu deve estar mais quente.”, ela respondeu. “Era nessa praia que você veraneava?”, eu disse e ela respondeu que sim com um meneio. Eu nunca tinha perguntado nada sobre seu passado, nem ela jamais tinha dito qualquer coisa ou perguntado sobre o meu.

“Ontem você disse que não gostava de mulheres de olhos azuis, mas só tinha sido feliz com elas”, ela disse, virando-se e me interrompendo a passagem. Abaixou-se e desamarrou os tênis, descalçou-os e às meias de lã, o sobretudo arrastando na areia. “Você vai molhar os pés?”, perguntei, incrédulo. Ela dobrou a barra das calças até a altura dos joelhos e me puxou pela mão até a linha do mar, deixando o par de tênis para trás, no meio da areia. Continuamos caminhando, ela dentro da linha d’água, cada passada dos pés branquíssimos impressa e rapidamente apagada pelo vaivém da água, eu, um pouco afastado, sobre a faixa sólida da areia molhada. Andamos mais uns quinze minutos assim e voltamos ao lugar onde ela deixara os tênis. Apanhou-os, voltamos ao carro, eu alcancei-lhe uma toalha do porta-luvas. Ela limpou as pernas salpicadas de areia e voltou a calçar os pés. “Estou com fome”, ela disse.

Atravessamos a avenida em direção ao boteco em frente. Cumprimentamos o dono do bar e pedimos dois croissants recheados e uma jarra de tannat. “Antes, dois cognacs, Manolo”, ela pediu. Tiramos os sobretudos em silêncio e sentamos em frente à janela alta que dava para o mar. Fiquei reparando a decoração do lugar, como sempre faço. Motivos marítmos, sextantes, astrolábios, um timão de carvalho e um peixe espada empalhado num canto. Ela olhava para o mar, através da janela. Seu rosto, sempre branco, estava vermelho por causa do aquecimento recém ligado. Em volta dos olhos azuis cinzentos, uma aura rosada. “Agora você parece uma das holandesinhas do Vermeer, com esse nariz vermelho emoldurado pelo blusão”, eu disse amistosamente. Ela devolveu um sorriso que era um misto de agradecimento e timidez. “É muito injusto que você não goste de frio”, ela disse, por fim. “Podíamos ter ido a Colónia. Tenho uns amigos lá, também. E uma amiga que faz o melhor madrileño do mundo”, eu disse. “Depois de resolvermos o assunto, vamos lá também”, ela disse. “Não vamos conseguir resolver isso aqui”, eu disse. “Manolo, põe um tango pra mim”, ela pediu ao barman. Manolo foi até o fundo do bar - creio que era sua casa, também - e voltou com um vinil, que depositou delicadamente na vitrola e o som de uma versão instrumental de Ví Luz Y Subí preencheu suave o espaço. Ela abriu um sorriso quase infantil. “É minha preferida, Manolo sabe”. E era isso: a alternância entre a tristeza do dia de chumbo, o olhar de luto e, em seguida, o riso infantil, o rosto corado de criança saudável, de anjo barroco, era isso o que eu amava nela. “O sorriso mais bonito do mundo catalisado pela música mais triste do mundo”, eu disse. “É muito injusto que você não ame o frio, você devia. Ninguém mais no mundo devia tanto quanto você”, ela disse, terminando o conhaque de um gole. Terminei também o meu de um gole. “Sou incapaz de amar alguém que não me ame também. E o frio não gosta de mim”, eu disse com um tom empolado e zombeteiro. Tirei a petaca do bolso interno do sobretudo, desenrosquei a tampa e me servi de rum. Ofereci um pouco a ela, não quis. “E você? Amava a uruguaia?”, ela retorquiu, ignorando meu tom. “Sim.”, eu disse, quase sério.

“Se voltarmos para Porto Alegre, você vai me explicar essa história direito”, ela disse. “Como vamos fazer com teu marido? Quando descobrirem, estamos ferrados”, eu disse. Manolo, ao longe, não parecia interessado em nossa conversa, dois outros clientes acabavam de chegar. “Depois falamos sobre isso”, ela disse, ao olhar para os recém chegados e segurando minha mão. “Mas, se você quiser, pode passar uns meses na minha casa no Chubut”. “Nem pensar. Eu volto pra Porto Alegre ou pra São Paulo. No máximo, passo uns meses em Colónia, na casa dessa amiga argentina. Está muito frio. Inverno no Chubut, nem pensar”, eu disse, resoluto. “Nós não podemos ficar nem aqui, nem no Brasil. E eu não vou ficar meses sem ver você. Fora de questão”, ela disse. “Já pensou numa ilha na Polinésia?”, eu disse sem pensar. Ela devolveu um sorriso triste. “Viveremos como reis. Os nativos se prostarão e te tratarão como uma rainha. Morreremos de alguma misteriosa desinteria provocada por fungos de coco e carne de porco”, continuei. “Ou podemos comprar um junco na baía de Hong Kong e…”, mas não prossegui. Na beira da praia, um grupo de estudantes voltando das aulas chamou nossa atenção. Guarda-pós brancos e gravatinhas azuis imitando borboletas e os rostos felizes de crianças saindo da escola. “Liberdade”, eu disse, pensativo. Ficamos em silêncio observando as crianças passarem. “Eu vou pro Chubut com você, enterramos ele lá”, ela disse, por fim. “Não vamos conseguir passar mais uma alfândega com ele. Além do mais, eu odeio frio”, eu disse. “É muito injusto”, ela disse e segurou mais firme minha mão.

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Qué te puedo decir?

30 de janeiro de 2005

“Qué te puedo decir?” - ela me perguntava, enrolada no lençol, sobre a cama. Eu fumava, já sentado perto da escrivaninha, ainda sem me vestir.

“Qué te puedo decir?” - insistiu, talvez exigindo uma resposta, mesmo sabendo que a resposta seria nenhuma.

“Nada, não diga nada” - eu disse por fim. Fiquei olhando os rolos de fumaça do cigarro e pensei que aquilo era uma cena de romance policial barato.

“Que te puedo decir” - ela repetiu, com uma voz quase extinta. Olhei para ela, já não olhava pra mim, para nada. Fiquei espiando seu perfil de nariz arrebitado e sobrancelhas grossas e duvidando de que alguma vez ela tivesse estado ali, comigo. “Ela é triste demais, é isso”, eu disse alto.

“Qué pasa?” - ela disse, acordando do transe.

“Nada eu estava em outro lugar, pensando em outras coisas”.

“Yo también. Pero te quiero. Mucho. Más que a nadie en toda mi vida.”

Ainda tomamos um banho juntos, deixei-a em casa. Nunca mais nos vimos.

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Ela comia lixo

7 de dezembro de 2004

Quando voltamos do Rio, minha irmã no colo da mãe, meu pai com a barba por fazer a meses, em algum dia dos anos 70, a casa da minha avó parecia pequena, pequena. Nos acomodamos num sofá-cama que rangia e era desconfortável, de couro ou corvim azul, feio à beça, meio triste. Chegamos exatamente no meio do inverno, deixando pra trás o calor da casinha carioca suburbana - zona norte - para cair no nem tão rigoroso inverno de Porto Alegre, que eu ainda não conhecera, pois deixáramos a cidade rumo a São Paulo em algum maio antes do meu primeiro aniversário.

Minhas primeiras lembranças são todas anteriores a estas de Porto Alegre e são todas ensolaradas, um dia numa ladeira carioca, um pátio com dois cachorros enormes que, descubro nas fotos quadradas e descoloridas, eram apenas dois cachorros medianos, um gato que eu carregava desajeitadamente pelos canteiros de minha mãe, uma praia com pedras enormes, uma linda roda de capoeira, cheia de gente sinceramente feliz, meu pai dizendo pra eu pedalar com mais força o jipe de aço e pedais na ladeirinha da garagem de casa, e são todas de São Paulo, Rio ou do interior do Paraná. Esses dias me dei conta de que não esqueci ainda dessas cenas por serem as únicas lembranças que me restam do meu pai.

Porto Alegre era um lugar onde dormíamos num sofá azul, e também um lugar chuvoso, frio, pequeno, devo ter pensado, se é que eu pensava aos 4 anos de idade. O primeiro dia de sol em Porto Alegre que guardo na memória foi justamente um em que ralei os dois joelhos no paralelepípedo do Monumento dos Açorianos, a primeira coisa que achei bonita na cidade. Ia puxado pela mão por alguém que estava com pressa de voltar pra casa e se safar do sol forte e teria, talvez, cinco anos, mas ainda não estava na escola. Sempre moramos no Centro Velho.

Foi nesse dia, com os dois joelhos sangrando, que a vi pela primeira vez. Ela estava do outro lado da Perimetral, no lago dos Açorianos, tomando banho, rodeada de uns dez cachorros magros e sarnentos. Atravessamos a avenida, talvez por acidente, num ponto em que era inevitável cruzar próximo a ela e à sua matilha. Eu perguntei quem ela era e porque estava tomando banho no lago, acho. “Ela é louca, guri, cuidado”. Não sei se eu pensava naquela época, repito, mas me pareceu fascinante que ela, que talvez tivesse a mesma idade de minha avó naquela época, estivesse ali, tomando banho no lago de águas verde musgo, nua, alheia a tudo, rodeada de cachorros, fedendo mesmo à distância. “O que é louca, Bernardete?”. “É uma mulher velha que toma banho nua num lago” - minha prima respondeu.

Fui crescendo e ela continuou sendo a louca do bairro por vários e vários anos. Alguém, um tempo depois, me disse: “Ela não morre, ela é velha, velha, está aqui há duzentos anos”. “Ela come lixo”. “Ela faz sujeiras com os cachorros”. “Se ela te morder, tu vai ter de tomar 23 injeções no umbigo”. Ela comia lixo e berrava com as pessoas de que não gostasse. Um dia, como os urubus ou os amigos de infância, sumiu sem deixar rastro. Mas eu sei que ela está viva, comendo lixo e fazendo sujeira com os cachorros. Seja lá o que isso signifique.

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Analgésicos

10 de março de 2004

Há ocasiões em que se sente uma dor qualquer - um pé quebrado, uma fissura de perônio, a coluna reclamando pela má postura acumulada anos a fio, por alguma doença - e, talvez pela gravidade da situação, é uma dor mais aguda e menos suportável. Vai-se ao médico e ele geralmente receita algum composto à base de codeína. Um analgésico qualquer. Alívio.

Durante o ano 2000 tomei por uma temporada uma das muitas marcas de codeína disponíveis no mercado, receitada pela médica que me tratava, a quem procurei depois de constatar que até dar colo pro meu filho de dois anos era uma atividade dolorida e quase insuportável. Quase não conseguia caminhar, tornozelos inchados, da largura das coxas. Imagino que eu estivesse com um aspecto de hidrante: vermelho, cabeçudo e tornozelos gordos. Humor de chimpazé enjaulado, sorriso sincero de puta gozando, tolerância de guarda de campo de concentração completavam o quadro. Um hidrante com humor de chimpanzé enjaulado e tolerante como um guardinha de Treblinka.

Um pouco antes de procurar ajuda médica, passei três dias com febre acima dos 40 graus, sozinho em casa, as mesmas dores, algumas alucinações e pouca, pouca comida (lembro, de, febril, pedir um X-português do Cavanhas e deve ter sido tudo o que eu comi nesse fim-de-semana, até a segunda-feira), por que a febre e eu tínhamos decidido que, se era pra morrer, ia ser ali e pronto, no meu quarto, de preferência dormindo.

Foram três meses de sadio e apaixonado convívio com a codeína. As dores só voltavam quando o efeito da dose dupla de codeína estava passando, meus pés foram desinchando paulatinamente, o hidrante voltou a ter o aspecto de letra éle de sempre. Durante três meses tive sonhos ótimos (um dos efeitos colaterais é o de mal-estar no sono, o que não aconteceu comigo), que envolviam, quase sempre, grandes viagens em veleiros de três mastros, enormes cavalgadas em estepes ao lado de gente como Miguel Strogoff ou algum personagem de Karl May, diálogos sobre a situação da Gália Cisalpina com algum procônsul confiável, expedições de São Paulo a Potosí no século 17, essas coisas com que todo mundo sonha. Tanto que, ao final do ano, por novembro, eu já estava bem e o adeus à codeína se deu uma semana depois de eu não precisar mais dela para sua função original.

Era nisso que eu pensava hoje, no metrô de volta pra casa, vendo algumas das caras tristes que passavam pela porta à minha frente, a cada estação, e se sentavam ou acomodavam onde podiam durante os quinze minutos entre a Armênia e o Paraíso. A sucessão de caras tristes e fodidas nos trens paulistanos, especialmente os que vem da periferia, às vezes é insuportável pra gente mais sensível, o que não é o meu caso, geralmente. É claro que pensei no artigo do Soares Silva ou nos rumos que a vida tem tomado pra maioria das pessoas, é claro que sei que um em cada cinco adultos como eu na cidade está sem ter como pagar suas contas no final do mês, é claro que sei que a cidade é feia e brutal, principalmente pra quem anda a pé, é claro que sei que quinze minutos sem um livro - uma fila de banco, um metrô, um trem lotado, de pé - são insuportáveis como uma semana num presídio e é por isso que sempre levo um pra esses lugares. Claro que é mais agradável se entregar à codeína de um livro que encarar as caras feias, lombrosianas, fodidas e tristes da maioria dos sujeitos e sujeitas que estão no mesmo trem vindo da periferia com você. É inevitável pensar no chatíssimo filme do Wim Wenders e imaginar o que cada um pensa, o que cada um planeja, seus destinos, essas coisas, pensar que, em muitos casos você jamais vai voltar a cruzar por algumas daquelas pessoas ou, eventualmente alguma delas vai ser sua vizinha de rua algum dia, bobagens assim. Em seguida pensei que os livros eram a minha codeína pros dias de chuva, pras tardes tristes e intermináveis da infância (se houver inferno, ele deve ser algum lugar em que você tem oito anos de idade, é sempre inverno, é proibido de fazer quase tudo e o tempo demora muito pra passar), e pros dias em que o mundo parece turvo, embotado, embaçado, idiota. Quase todos os dias. “Livroterapia”, pensei, sem pontos de exclamação, depois que entraram umas senhoras gordas. “Não, não dá pra escrever sobre uma idéia idiota dessas”. Não, não dá.

Pensei também num sujeito duns vinte anos, mancando, pé torto, magro, preto, pedindo no semáforo da Lima e Silva com Perimetral, naquele ano 2000. Não confio muito (ou confio demais, vá saber) na minha habilidade de reconhecer sinais paralingüísticos nos outros, mas acho que ainda não vi outro sujeito com maior expressão de dor. Talvez fosse um atributo do pedir, talvez fosse pelo hábito, mas ele também tinha uma expressão de humilhação e ressentimento, além da de dor, que não lembro de ter visto em outro sujeito. Durante uns dez segundos ele e eu nos olhamos, cada um com a sua dor, eu dentro do carro, ele, fodido e pedindo, a chuva fina do inverno caindo desde há horas, sete da noite.

O farol abriu, alguém buzinou atrás. Com um dos pés inchados soltei devagar a embreagem enquanto acelerava com o outro pé inchado e o carro avançou lentamente para a esquerda, em direção à Ponte de Pedra. Naquela noite, nenhum livro serviria de alívio a qualquer um dos dois, pensei. “Estação Paraíso, acesso à linha 2, Verde”, anunciou o alto-falante.

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Domitila

21 de outubro de 2003

Quando saí de casa há vários anos a única certeza que eu tinha era a de que eu precisava sair de lá e fazer algo de minha vida. A vida interiorana me oprimia de tal forma que assim que pude deixei pai e mãe e fui para Porto Alegre. Minha cidade foi uma das primeiras a ser fundada no estado pelos casais açorianos, mas nunca deixou de ser um vilarejo com não mais de trinta mil almas e, mesmo sendo distante da capital pouco mais de oitenta quilômetros, jamais perdeu a caipirice natural de um vilarejo de agricultores. Nasci em um casarão na esquina de um beco de calçamento antiqüíssimo, que tinha sido mandado calçar por ocasião da visita de D. Pedro I na época de alguma guerra contra o Uruguai. O beco da Fonte despenca por uma ladeira íngreme até uma praça com uma fonte pública ao centro, no pé da colina. A fonte, de 1847, tinha sido mandada construir pelo mesmo Pedro, que aprovara o frescor da nascente, suas propriedades, sua pureza, essas coisas que os visitantes polidos dizem pra fazer feliz a gente dos vilarejos. De qualquer forma levaram vinte anos desde a visita do imperador até finalizarem a fonte e acredito que em 1847 D. Pedro I nem mais vivesse.

Na verdade, pouco ou nada sei da História de qualquer coisa ou lugar. Memória sempre foi o meu ponto fraco desde os primeiros anos de escola. Odeio ler. Odeio ter de lembrar das coisas. Odeio. Sempre fui um aluno medíocre até na faculdade e minhas melhores notas, se é que alguma se salientou, eram sempre em matemática e em desenho. Odiava especialmente as aulas de Língua Portuguesa, esse idioma estrangeiro que nos ensinam na escola desde a mais tenra idade. Me formei, penso, por sorte. Acho que as únicas datas que guardei até hoje foram as do dia em que saí de casa e a da fonte que está gravada na pedra pra quem quiser ver no centro de uma pracinha na minha cidade natal. É engraçado, mas quando falam do Brasil Império, as únicas coisas que me vêm à cabeça são a Marquesa de Santos, de quem li a biografia na adolescência, e a fonte da minha rua. Na verdade, pra mim o passado e a História não fazem a menor diferença ou sentido e por isso estranho os sonhos que venho tendo. Pra mim, o passado morreu. Saber dele é tão inútil quanto chorar um morto, não traz nada de volta.

Meus problemas começaram quando fui a São Paulo para um curso que a firma em que trabalho exigiu dos funcionários mais graduados do meu setor. Sou engenheiro de materiais em uma petroquímica exportadora de Triunfo. Me formei na Universidade Federal e trabalho em petroquímicas desde que saí dos bancos escolares há alguns anos.

O curso durou duas semanas e consistia duma salada de conceitos de administração, preceitos motivacionais, técnicas de gestão direcionada a resultados e fórmulas para tornar os colaboradores (nós, empregados, nos tornamos colaboradores em um toque de mágica) empreendedores ainda mais dedicados ao sucesso e às metas da nossa empresa. As duas semanas mais maçantes da minha vida, pra falar a verdade. Odeio São Paulo. Odeio cada circunstância daquela cidade. A gente, a fumaça, a pressa, o trânsito, a noite, as mulheres feias que por falta de comparação se pensam muito bonitas, odeio o mau-humor das pessoas, que é um mau-humor diferente do dos sulistas, é um mau-humor interesseiro, odeio os viadutos, odeio as Marginais, odeio os aeroportos - sempre cheios de picaretas dispostos a passar a perna nos recém-chegados - odeio os taxistas conversadores e falsamente simpáticos, odeio o Ibirapuera, odeio os Museus e os centros comerciais. Mas, sobretudo, odeio a comida. Em nenhuma outra cidade grande do mundo se come tão mal quanto em São Paulo. Almoçar, em São Paulo, é um exercício de paciência. No Brooklin Novo e no Morumbi, onde eu tinha aulas e onde estava hospedado, respectivamente, não pude encontrar nem com reza um restaurante tranqüilo com comida honesta, simples e com cheiro de comida. Andei por toda a avenida Berrini e adjacências buscando algum restaurante decente em vão. Comi durante duas semanas em um buffet por quilo com os colegas do curso no almoço e à noite encomendava uma pizza à pizzaria que o hotel indicava aos clientes. Emagreci quatro quilos nesse período. Quando voltei para meu trabalho e me perguntaram como tinha sido a viagem eu disse - é ótima pra quem quer perder uns quilinhos - gracejo que ficou popular no meu setor. Ah, o Pedro ficou sem comer nada, nada em São Paulo, brincavam meus colegas. Ficou na mão, o pobre, diziam os mais atrevidos. As pessoas têm uma antipatia natural por mim, coisa que eu não me esforço em melhorar. A opinião dos outros me importa muito pouco.

Foi na segunda noite no hotel que começaram meus problemas. Eu tinha feito uma boa viagem, tinha me acomodado, assistido à primeira aula e já entrevia o tédio das restantes quando deitei, dispensando os cobertores que haviam posto ao pé do leito. Devia estar fazendo quinze graus e segundo tinham me dito no curso esse era todo o inverno deles. Ridículo. Pensei se algum dos meus colegas paulistanos sobreviveria a uma hora em Mendoza no inverno, onde eu tinha trabalhado por dois anos. Nem ao inverno de Florianópolis, provavelmente. Tomei um banho frio antes de dormir, pensando nisso. O hotel chegava ao exagero de ter caldeiras elétricas para aquecer a água. Essa cidade é um grande desperdício de energia, pensei. Apaguei as luzes do quarto e não demorei a conciliar o sono.

Acordei pela manhã com a certeza de ter sonhado. Eu nunca, nunca lembro dos meus sonhos, se é que eu sonho. Meu sono sempre é profundo. Sonhar é perder o melhor do sono. Quem sonha se ilude que está dormindo, quem sonha não descansa: Sonhar é perigoso, em certo sentido. Desde aquele dia descobri também que odeio sonhar. Faltam poucos anos para eu completar quarenta e toda a minha vida até aquela noite era perfeita: eu fazia meu trabalho, que me realiza plenamente, tenho certeza, eu tinha meus amigos, eu tinha minhas namoradas. Não sou casado. Odeio casamento. Saí de casa por que não queria viver uma vidinha como a dos meus pais. Nunca encontrei uma mulher que me inspirasse confiança a ponto de me casar com ela, de ter filhos, família e não me causar problemas e constrangimentos.

Pulei da cama e pedi à portaria que me mandassem uma térmica com café passado. Ainda não tinha amanhecido. Odeio o café de São Paulo, espesso, forte demais e fedorento como quase tudo por lá. Sou muito olfativo, provável herança dos tempos de cidadão de vilarejo, em que os cheiros das coisas nos dizem se elas estão estragadas, boas ou apenas aceitáveis. Por esse rígido critério, tenho encontrado poucas mulheres aceitáveis no mundo. A brisa que subia a ladeira do beco recendendo a pântano e pedra molhada desde a fonte até a minha casa vale mais que a maioria dos cheiros das mulheres que conheci. O cheiro das asas das gigantescas borboletas azuis que invadem as casas da minha cidade no início de fevereiro também. Cheiram a flores e guardado, uma combinação exótica e agradável que eu não cansava de experimentar. Quantas borboletas daquelas não terei capturado apenas para sentir seu cheiro peculiar? Quantas vezes não fiquei comparando o azul ciano de suas asas maiores que as minhas mãos de menino com o azul cristalino do céu sem poluição? Foi pensando nas borboletas azuis que abri a porta para o rapaz da copa. Estranhamente, ele me parecia conhecido. Trouxera um café da manhã completo em uma mesinha com rodas, em lugar do simples café preto que eu pedira. Resolvi aceitar o engano e fazer o desjejum no quarto. Ele colocou a mesinha perto de minha mesa e se afastou, sem me olhar ou esperar gorjeta.

O café viera em um bule de prata reluzente e no momento em que abri a tampa para ver o seu aspecto, o vapor e o aroma violentos do líquido invadiram minhas narinas. Fechei os olhos e pude ver nitidamente minha mãe servindo o café para mim e papai numa manhã fria de algum abril. Fechei rapidamente a tampa e abri os olhos. A mesa do café era simples e bonita, enfeitada com uma pequena guirlanda de flores campestres amarradas com uma fita a um feixe de caninhos de casca de canela. Tomei as flores para verificar se não eram plásticas. Eram verdadeiras e, sim, perfumadas. Fechei os olhos novamente e desta vez pude ver uma cena que identifiquei como do sonho que tivera à noite. Uma mulher de feições muito delicadas, como as dos quadros de um pintor austríaco ou australiano de que tenho algumas reproduções e de quem nunca recordo o nome - se não me engano Gustav Kafka, Gustav Mahler ou Gustav Klimton - algo assim (minha memória é péssima, já disse), uma mulher delicada vinha em minha direção com um maço de flores em uma das mãos e me estendia, sorrindo, a mão livre para que eu a pegasse e fôssemos passear. Por alguma razão eu recusei aquele toque. Ela simplesmente me deu as costas, mas antes de se ir, disse que voltaria. Enquanto se afastava pelo campo com passos lentos - sim, no sonho estávamos em uma campina aberta, que dava num arvoredo costeando um riacho - eu reparava em seu vestido rendado e suspenso em alguma espécie de armação, pois era muito largo. Os cabelos estavam arranjados em grandes cachos que caíam até a metade das costas e eram de uns fios tão finos que o pouco sol que batia neles refletia e se espalhava em centenas de pequenos raios. Abri os olhos novamente e me sobressaltei. A porta do quarto estava aberta e uma criança - talvez um vizinho no hotel - me observava. Quem é você, perguntei. Sou teu pai, filho, disse o menino, com um tom de gracejo na voz. Eu sorri, o guri tinha me pregado uma boa. Procurei alguma coisa na mesinha pra oferecer ao garoto e achei um sonho, semelhante aos que minha mãe fazia. Quando levantei os olhos para lhe mostrar o doce, ele tinha sumido. Teria se assustado?

Me vesti e fui para o curso me sentindo estranho. Desci até a portaria do hotel e cumprimentei a moça da recepção com familiaridade. Ela sorriu largamente, mostrando todo o branco dos dentes. Achei a moça bonita sorrindo. Enfim. No táxi, antes de cruzarmos a ponte do Morumbi, o taxista comentou alguma notícia que o rádio vomitava cansadamente. Eu assenti e concordei, sem saber bem com o quê concordava. De repente, me peguei reparando em coisas que, de ordinário, não reparo - as plantas no trajeto, as pessoas nas calçadas, as lojas do bairro, os semáforos negros em cada cruzamento. O dia era de um azul inusitado para o que eu conhecia de São Paulo, sempre cinzenta e enfumaçada. Nunca tinha reparado que em alguns lugares há pessoas caminhando nas ruas da cidade. Além do aeroporto, sempre cheio de gente, nunca tinha reparado que há pessoas em São Paulo.

À noite voltei a sonhar. Acordei no meio da madrugada banhado no meu suor e com um pouco de febre. Puta que o pariu, pensei, fiquei doente nesta cidade de merda. Liguei para a portaria e pedi que mandassem um termômetro para medir minha temperatura. Dez minutos depois bateram à porta e eu atendi. O mesmo menino da manhã me estendeu um termômetro eletrônico e me olhou de cima a baixo. Tu vais te resfriar se dormires destapado, filho, ele disse, antes que eu pudesse agradecer. Eu olhei fixamente para o garoto. Ele vestia um uniforme escolar bastante em desuso, semelhante aos uniformes de internos de um liceu militar. Teria oito ou dez anos, no máximo. Você trabalha aqui, rapaz, perguntei. Sim, filho, ele disse, desde que mamãe morreu, há dois anos. Coloquei o termômetro sob o braço, sem desviar o olhar da criança. E se eu estiver doente, menino, perguntei, o que faço? Peça a Santo Antônio que te proteja, meu filho, sempre funciona, ele disse. Se ao menos tua mãe estivesse aqui, completou. Fiquei em silêncio por instantes. O alarme do aparelho desviou minha atenção do garoto e consultei o visor do aparato. Trinta e cinco ponto oito. Nenhuma febre. O menino sumira de novo. Saí do quarto para o corredor do andar e ainda o pude ver entrando no elevador. Nenhuma febre. O telefone do quarto tocou em seguida. Sim, estou bem, foi apenas um mal-estar noturno, eu respondi. Talvez um pesadelo. Nenhuma febre, sim, talvez um pesadelo. Fui até a janela do quarto. O hotel, defronte à marginal Pinheiros, oferecia uma imensa vista desde o Brooklin até quase o Centro Velho de São Paulo, com seu paredão de prédios lado a lado, limitados pela larga avenida. Meu quarto era no décimo primeiro andar, do lado de cá do paredão. Lá embaixo, na avenida, os carros não paravam de circular. Três da manhã. A noite estava estrelada e límpida, o que me pareceu inverossímil. Abri as vidraças para sentir o cheiro da noite e um perfume de flores do campo e rocio invadiu o aposento, empurrados por uma brisa gelada e envolvente.

Não consegui dormir até a manhã, quando bateram na porta. Sim? Seu café, doutor, disse uma voz conhecida. Era o rapaz da copa. Quem é o menino que me trouxe o termômetro à noite, perguntei. Não sei, doutor, nunca vejo o pessoal da noite, disse o rapaz, sem me olhar. O senhor está doente, perguntou. Não, pensei que estava com febre, só isso, eu disse. Ah, o ar da cidade sempre faz mal aos estrangeiros, ele disse. Eu sou tão brasileiro quanto você, eu disse. Ele sorriu e deu as costas sem esperar a gorjeta, novamente.

Os dias em São Paulo começaram a se repetir nessa rotina: eu dormia às dez da noite, acordava às três banhado em suor e pela manhã o rapaz trazia meu café no carrinho sem nunca esperar a gorjeta. Aos poucos, comecei a recordar os sonhos que ia tendo. Todas as noites a mulher do vestido rodado aparecia oferecendo a mão para um passeio que eu sempre recusava. Uma noite perguntei seu nome. Domitila, senhor, ela disse. Domitila. De dia, cruzei algumas vezes ainda pelo menino que me trouxera o termômetro pelos corredores do hotel, mas sem lhe falar.

Duas noites antes de sair de São Paulo, aceitei o convite da mulher no sonho e lhe dei a mão. Pedro, ela me disse, não deixa nunca que te façam abdicar. Não se preocupe, menina, eu jamais abdicarei, eu disse. Eu jamais voltarei a qualquer lugar, não se preocupe. Pedro, me beija, ela disse. Acordei abraçado ao travesseiro, com febre de novo. Preciso de mulher, pensei.

Pela manhã o rapaz da copa bateu à porta e assim que atendi, empurrou mecanicamente o carrinho até a mesa do quarto. Preciso de uma acompanhante para essa noite, eu disse a ele antes que saísse. Peguei alguns trocados da carteira e dei-lhe, dizendo seja discreto e me arrume o telefone ou um encontro com uma profissional. O senhor tem alguma preferência, Dom Pedro, disse o rapaz, me olhando fixamente nos olhos pela primeira vez. Uma japonesa ou oriental, bonita, mas não muito cara, eu disse. De onde eu conheceria esse rapaz? Eu sei o telefone de uma japonesinha que vem sempre aqui, atender os estrangeiros, senhor. Diga a ela que eu quero mulher para a noite toda, eu disse. Ela é mulher pra vida toda, Dom Pedro, o rapaz disse sorrindo, mas pra vida toda é mais caro.

À noite, após a janta, o telefone tocou. Aqui é o Bonifácio, da copa, senhor. O senhor vai querer mesmo a moça pra essa noite, ele perguntou. Sim, eu disse. Ela vai estar aí em uma hora, Dom Pedro. Enquanto aguardava a moça, peguei da mesinha uma Folha de São Paulo para passar o tempo. No Museu do Ipiranga iniciava uma exposição temática sobre a indumentária do Primeiro Império. Não pude deixar de me espantar ao constatar a semelhança do vestido da mulher do meu sonho com o da foto estampada no jornal, mas nenhuma legenda informava quem teria sido a dona da roupa. No corpo do texto, que li por curiosidade, apenas amenidades insossas, nenhuma referência ao vestido. Odeio jornais, pensei. Sempre cheios de notícias repetidas com personagens diversos. Na página seguinte, ainda sobre a exposição, uma das fotos trazia um uniforme e tinha uma legenda que dizia: Primeiro uniforme do Colégio Militar do Rio de Janeiro.

Quando bateram à porta eu tinha certeza de que era ela. Terminei algumas anotações que tomava em um bloco e fui atender. Ela estava em seu vestido de gala. Só a tinha visto assim, tão bonita, em alguma outra ocasião muito importante. Era uma oriental o que o senhor queria, pois não, Dom Pedro, ela disse. Não, eu esperava por você, só isso. E você continua linda, como num sonho.

Seria deselegante de minha parte narrar o que se passou a seguir, um cavaleiro não deve ter boa memória para certas coisas. Sei que, horas depois, despertei ao seu lado e fiquei longos minutos observando seu dormir e delineando a suavidade de suas formas com a ponta dos dedos desde os ombros até a pelve, repetindo o passeio várias vezes, até que me cansei e me ergui, em direção à escrivaninha.

Tomei da pena e um maço de papéis enquanto me concentrava. Escrevi, mecanicamente, uma longa carta que começou assim: “Desde que pus meus olhos na tua formosura, quis ser todo e sempre teu. Queres, divina augusta, o meu pensamento? São para ti esses versos, meu amor.”

Finalizei a carta, pus meu timbre com o sinete que papai me dera. Fui ao banheiro lavar o rosto. Enquanto a água escorria da torneira, escutei o rumor de sua partida. Eu tinha certeza de que ela só sairia se eu não estivesse. Retornei ao quarto, encontrando a cama vazia e uma carta sobre o travesseiro. Abri o envelope com cuidado, reconhecendo a caligrafia, e comecei a ler:

“Senhor, eu parto essa madrugada…”

Mais não pude. Fechei a carta e guardei-a no envelope. Pela manhã, entreguei a carta à Bonifácio, com a recomendação de que ele a guardasse em meu arquivo. Ela não volta mais, Pedro, ele perguntou. Não, Bonifácio, não mais.

Estou em casa sentado na varanda da minha cobertura, observando o sol se pôr no Guaíba. Já faz alguns meses que voltei de São Paulo e não consigo mais dormir bem desde então. Emagreci dezoito quilos e não tenho tido vontade de fazer mais nada. Mesmo assim, ninguém parece ter notado minha perturbação, nem meus colegas nem meus amigos. Não sinto mais fome e isso não me incomoda. Dentro de algumas horas será noite e eu preciso dormir, mas fico pensando em por que os homens têm de dormir. Tudo é inútil. Amanhã é dia de trabalho e eu tenho de estar descansado, penso. Sei que não conseguirei pregar os olhos a noite toda, mas não consigo pensar em nada melhor. O único pensamento em que me ocupo é de como a vida é inútil.

Mamãe e papai estão na sala de visitas, tomando chá com biscoitos em xícaras de louça da boêmia e conversando animados. Parecem alheios ao meu drama, como fantasmas. Um pensamento me assalta, dizendo que o fantasma sou eu. Mamãe olha para onde estou como se visse através de mim. Sim, eu sou o fantasma. O tempo que resta me parece pesado e lento, agora. Estou envelhecendo e ficando invisível, transparente, incorpóreo. Domitila, desde que voltei pra cá, casou-se de novo e teve mais filhos com um tal Rafael, um pobre diabo que promovi a brigadeiro em algum acesso de insanidade. Não quero mais sonhar com ela. Não consigo mais me concentrar em minhas planilhas de cálculo. Bonifácio toma conta de meu filho no Rio de Janeiro e tenho certeza de que desempenhará bem a tarefa. Parece que a carestia finalmente terminou depois deste plano econômico. Dom Miguel não é mais um empecilho. Não vou mais às festas da corte. Agora até os chineses vão à lua. Meu trabalho não me dá mais prazer. Adormeço e sonho mais uma vez com Domitila.

Rivera, Uruguay, outubro de 1997.

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