Sim, o Zorro está 100% fora de perigo, saiu ontem do CTI e já está, entre outras, discutindo com as enfermeiras (puxou a avó materna) e rindo de histórias bobas, além de me chamar de dorminhoco só porque cochilei (na verdade, depois de três noites sem dormir, apaguei, mesmo) e não acordei quando ele me chamava pra fazer a nebulização. Como dizem na Campanha, se escapou num burro de em pêlo. Obrigado a todos pelas mensagens. Responderei com o atraso calhorda de sempre.
O tempo está maravilhoso em Porto Alegre, desde ontem. Essa cidade é bacaninha quando faz uns dias de primavera assim.
Preciso comprar ou montar um micro decente pra minha mãe, esse pentium 166MMX é lento até pra alternar entre uma página aberta e outra.
Tem uma corruíra a meio metro da minha cabeça, numa samambaia que fica no poço de luz do quarto da minha genitora. Parece que ela, além de não ter migrado, resolveu habitar a casa em definitivo, pois tem seu ninho em dita samambaia e costuma voar pelos aposentos da casa há já uns bons três dias. Ainda não deixou lembraças em cima das camas e dos móveis. Não sei como minha véia reagirá a tal notícia, já que no momento ela se encontra na faculdade, provavelmente apavorada com a aula de lógica. Sim, mamãe está na gloriosa, cursando filosofia.
Tenho de agradecer a Astor Piazzolla por ter resolvido o dilema do nome do romance em que estou metido e por protagonizar a melhor cena do mesmo até agora. Valeu, Nonino.
O sotaque do Moinhos de Vento (o tal sutaaaaqui cantaaaado, néam?) venceu de vez. É simplesmente UMA TORTURA viajar com gaúchos nos últimos tempos. Pegar ônibus, comer numa lanchonete ou pedir informações pra qualquer um com menos de 30 anos, também. Obrigado, RBS. :^/
Ainda não comi no Cavanhas, no Ade ou no Anticuario, nem tomei champã com os amigos. Lo haré.
Como temia, a morte do Brizola continua sendo assunto por aqui. Provavelmente continuará pelos próximos 15 a 20 dias. No interior, por uns três meses.
Os taxistas de Porto Alegre continuam sendo, depois dos do Riiio, os mais escroques, relaxados, mal-educados e filhos-do-pitta da Federação, com as exceções de praxe.
As balconistas e os garçons da cidade também seguem primorosos em sua grossura. Essa madrugada foi impossível convencer a escroque que me atendia na lanchonete do hospital de que sim, eu tinha direito a querer que o MEU sanduíche natural NÃO fosse aquecido no micro-ondas. “Ahn, mas teeeim qu’squentaaaaaá!”. De quebra, aqueceu uma fogaza de queijo (que teimam em chamar de pastel, por aqui), que era pro meu filho, convalescente por problemas respiratórios. Aqueceu até uns 750 graus mais ou menos. Ando com paciência ultimamente.
Achei no Beco dos Livros uma tradução pro italiano do Oblomov, um romance de um russo menos conhecido, adaptado pro cinema pelo Nikita Mikhalkov, ainda sob a URSS.
O Martins Livreiro, disparado, continua sendo o sebo mais escroque da cidade. Preciso conferir o Londres, antes de voltar a São Paulo.
O Massacre de Junho de 1848 é o culpado por mais da metade das coisas de que eu gosto do século 19. A ‘desilusão’ fica por conta de perceber que as Flores do Mal, a começar pelo título, é uma obra quase ‘panfletária’. Pelo menos há, bem claras, uma série de intenções políticas, quando contextualizadas. E descobrir que Victor Hugo era um rematado filho-da-puta e que Les Miserables (que é um livro chato) é uma forma de justificar vinte e cinco mil assassinatos, é algo espantoso. Nunca me canso de me surpreender com minha própria ignorância.
Finalmente li o diário do sujeito em quem Daniel Defoe se inspirou pra escrever seu Robinson Crusoe. Sinceramente? Robinson Crusoe era um chato (desculpe, vô, se você tivesse lido o diário do sujeito, talvez também concordasse) em comparação com a simplicidade desse cara. Algumas das conclusões que ele tirou sobre a solidão absoluta foram bastante próximas das a que cheguei, numa experiência (involuntária) de três meses sem ver gente, numa estância nos anos 90 do milênio passado.
Não há nada mais divertido que mexer com os brios de um sujeito urbano que se orgulhe de ser gaúcho ou de suas raízes gaudérias. Convém estar bem armado, para os casos em que argumentos não funcionem, mas a diversão é farta e gratuita, pois o histrionismo gauchesco tende ao infinito. Não, não tem nada a ver com o fato de agora eu morar em São Paulo. Sempre tirei uma lata de quem acha que esse é o MELHOR ESTADO DO MUNDO. E, desculpem, não dá pra confiar na opinião e nos gostos de gente que come CARNE CRUA, repleta dos vermes e bacilos que só nossa Campanha proporciona e chupa LAVA VERDE FERVENTE e acha isso bom. Junte a isso o fato de que gaúchos comem feijão preto TODOS os dias e fica possível entender quando eu digo que algo deu errado na colonização desse estado. Faça como os turcos ao falarem com um russo: Ao falar com um gaúcho, conserve um machado por perto.
Preciso escrever sobre algumas coisas que ando pensando nas madrugadas no hospital. Não tenho palavras pra agradecer a essa gente que salvou a vida do meu filho como a da totalidade das crianças que estavam no mesmo CTI essa semana. Não sei se em São Paulo as coisas teriam sido assim. Suspeito que não.
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