Arquivo da categoria 'Porto Alegre'

E, na seqüência, uma semana triste

5 de dezembro de 2006

Chegou dezembro de novo e eu nem tinha visto. A nota triste desse início de mês é a morte do Gabriel Pillar, 22 anos, o fundador do Insanus, ontem na madrugada num acidente de carro na Mostardeiro. É impressionante como a maioria dos meus amigos que ainda estão em Porto Alegre de uma maneira ou outra conheciam o guri e há um clima de consternação geral por lá. Não é para menos. Não conhecia o Gabriel pessoalmente e devo ter trocado uns dois emails com ele, mas sem dúvida foi uma grande perda.

Pode-se ver as homenagens dos amigos no próprio Insanus e nos blogs do Cisco, Bruno, Daniel Galera, Tainá, Solon, Mirella e no do Träsel , que foi quem me avisou ainda ontem pela manhã. Provavelmente outros, mas estes são os que tenho no meu newsreader. Para a família e os amigos chegados, minha solidariedade.

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Zoológico é tudo igual

17 de janeiro de 2006

Mas o de São Paulo é diferente. Escrevi uma croniqueta uns tempos atrás sobre o zôo de São Leopoldo que visitei com o guri. Ainda lembro da visita e dos detalhes: o poço das lontras em que uma delas dançava hipnotizando os espectadores, uma aranha monstruosa tentando morder o vidro que a separava do dedão de uma criança menos comportada, o cheiro de primavera rebentando por todos os lados, a fascinação do guri com o trenzeco cacareco que chamam de metrô na minha cidade natal e o violino (que está encostado, esperando uma reforma numa das cordas que se partiu ano passado).

Hoje fomos ao zôo aqui da capitar, eu, ele e a filha de um primo meu que se mudou pra São Paulo ano passado. Linha verde até a Ana Rosa, linha azul até o Jabaquara, ponte ORCA até o zôo. Passeio de criança pobre, como o anterior. Era a primeira vez que a Vitória - a prima segunda ou terceira, vá saber - viajava de metrô e ficou fascinada, principalmente, com o barulho. Estávamos os três de chapéu na tentativa vã de nos protegermos do sol, como ingleses num safari no Quênia. A menina, esperta, já perdeu o hediondo sotaque do Moinhos de Vento de que os pais dela se orgulham como se de uma bandeira. Só usa o sotaque com os pais - como quem usasse sua língua materna apenas no abrigo do lar. “Rico, você compra uma casquinha pra mim?”, com aquela música maravilhosa que só as paulistanas e as brasilienses bem têm no falar. Sentamos os três sob as árvores pra trucidar a casquinha mais cara e mais chinfrim da cidade, cinco mangos por cabeça, só porque seria um crime inafiançável recusar um pedido feito no tom certo. O Magro, assolhado por ver os tigres, os ursos e as águias, ela, os leões, os hipopótamos e os macacos, principalmente esses. Resolvi que veríamos tudo, na mais direta ordem possível, o que nos rendeu umas quatro horas de caminhada através de todas as alamedas, debaixo de sol, apesar das muitas árvores do lugar, cada um com sua garrafinha de água debaixo do braço.

A palavra que me ocorre pra resumir o zôo de São Paulo já foi usada nesse texto, o que não recomendaria sua repetição. A sílaba inicial “chin” e a sílaba final “frim”, pronunciadas com um tom de escárnio - talvez com um bom e hediondo sotaque do Moinhos de Vento - servissem pra descrever corretamente o lugar: Alamedas sujas, bichos tristes, jaulas pequenas. Vimos gente trabalhando esforçada na manutenção do lugar, no cuidado dos bichos, pareciam interessados de verdade no que estavam fazendo (se bem que, recentemente, houve aquele problema dos envenenamentos), mas pareceu, até às crianças, que já conheciam também o outro zôo, que algo não estava ok por ali.

Voltamos pra casa por volta das quatro da tarde. Enquanto preparava um macarrão com almôndegas, deixei os dois vendo as aventuras de Marty, Mellman, Alex e Gloria no Madagascar: “Pai, os bichos do zôo também querem voltar pra Natureza, que nem o Marty?”"Rico, os pingüins de São Paulo não dão tchauzinho”.

Os pingüins de São Paulo não dão tchauzinho vai pro meu caderno de frases.

Depois não sabem porque em todas as festas de família eu sempre vou falar com as crianças e não volto.

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A propósito

29 de março de 2005

Parece que agora virou moda fazer churrasco na sexta-feira santa em Porto Alegre.

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Toca Raul, Paulo Coelho

29 de março de 2005

Quinze dias em outro lugar, daí pra Porto Alegre para o churrasco da Sexta-Feira Santa, mais dois dias com a família, um pileque fenomenal (não sei o porquê, mas Porto Alegre me dá uma bruta vontade de ficar bêbado) e depois voltar pra rotina, decidido a usar menos e menos vírgulas, sempre que possível.

O rescaldo das épocas no liquidificador sempre é bom: bombons de tequila, chocolate Carlos V, alguns sorrisos e boas gargalhadas, olhares não sociológicos.

O título do post é uma referência cifrada a um culto pagão.

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Curtinhas

30 de junho de 2004

Sim, o Zorro está 100% fora de perigo, saiu ontem do CTI e já está, entre outras, discutindo com as enfermeiras (puxou a avó materna) e rindo de histórias bobas, além de me chamar de dorminhoco só porque cochilei (na verdade, depois de três noites sem dormir, apaguei, mesmo) e não acordei quando ele me chamava pra fazer a nebulização. Como dizem na Campanha, se escapou num burro de em pêlo. Obrigado a todos pelas mensagens. Responderei com o atraso calhorda de sempre.

O tempo está maravilhoso em Porto Alegre, desde ontem. Essa cidade é bacaninha quando faz uns dias de primavera assim.

Preciso comprar ou montar um micro decente pra minha mãe, esse pentium 166MMX é lento até pra alternar entre uma página aberta e outra.

Tem uma corruíra a meio metro da minha cabeça, numa samambaia que fica no poço de luz do quarto da minha genitora. Parece que ela, além de não ter migrado, resolveu habitar a casa em definitivo, pois tem seu ninho em dita samambaia e costuma voar pelos aposentos da casa há já uns bons três dias. Ainda não deixou lembraças em cima das camas e dos móveis. Não sei como minha véia reagirá a tal notícia, já que no momento ela se encontra na faculdade, provavelmente apavorada com a aula de lógica. Sim, mamãe está na gloriosa, cursando filosofia.

Tenho de agradecer a Astor Piazzolla por ter resolvido o dilema do nome do romance em que estou metido e por protagonizar a melhor cena do mesmo até agora. Valeu, Nonino.

O sotaque do Moinhos de Vento (o tal sutaaaaqui cantaaaado, néam?) venceu de vez. É simplesmente UMA TORTURA viajar com gaúchos nos últimos tempos. Pegar ônibus, comer numa lanchonete ou pedir informações pra qualquer um com menos de 30 anos, também. Obrigado, RBS. :^/

Ainda não comi no Cavanhas, no Ade ou no Anticuario, nem tomei champã com os amigos. Lo haré.

Como temia, a morte do Brizola continua sendo assunto por aqui. Provavelmente continuará pelos próximos 15 a 20 dias. No interior, por uns três meses.

Os taxistas de Porto Alegre continuam sendo, depois dos do Riiio, os mais escroques, relaxados, mal-educados e filhos-do-pitta da Federação, com as exceções de praxe.

As balconistas e os garçons da cidade também seguem primorosos em sua grossura. Essa madrugada foi impossível convencer a escroque que me atendia na lanchonete do hospital de que sim, eu tinha direito a querer que o MEU sanduíche natural NÃO fosse aquecido no micro-ondas. “Ahn, mas teeeim qu’squentaaaaaá!”. De quebra, aqueceu uma fogaza de queijo (que teimam em chamar de pastel, por aqui), que era pro meu filho, convalescente por problemas respiratórios. Aqueceu até uns 750 graus mais ou menos. Ando com paciência ultimamente.

Achei no Beco dos Livros uma tradução pro italiano do Oblomov, um romance de um russo menos conhecido, adaptado pro cinema pelo Nikita Mikhalkov, ainda sob a URSS.

O Martins Livreiro, disparado, continua sendo o sebo mais escroque da cidade. Preciso conferir o Londres, antes de voltar a São Paulo.

O Massacre de Junho de 1848 é o culpado por mais da metade das coisas de que eu gosto do século 19. A ‘desilusão’ fica por conta de perceber que as Flores do Mal, a começar pelo título, é uma obra quase ‘panfletária’. Pelo menos há, bem claras, uma série de intenções políticas, quando contextualizadas. E descobrir que Victor Hugo era um rematado filho-da-puta e que Les Miserables (que é um livro chato) é uma forma de justificar vinte e cinco mil assassinatos, é algo espantoso. Nunca me canso de me surpreender com minha própria ignorância.

Finalmente li o diário do sujeito em quem Daniel Defoe se inspirou pra escrever seu Robinson Crusoe. Sinceramente? Robinson Crusoe era um chato (desculpe, vô, se você tivesse lido o diário do sujeito, talvez também concordasse) em comparação com a simplicidade desse cara. Algumas das conclusões que ele tirou sobre a solidão absoluta foram bastante próximas das a que cheguei, numa experiência (involuntária) de três meses sem ver gente, numa estância nos anos 90 do milênio passado.

Não há nada mais divertido que mexer com os brios de um sujeito urbano que se orgulhe de ser gaúcho ou de suas raízes gaudérias. Convém estar bem armado, para os casos em que argumentos não funcionem, mas a diversão é farta e gratuita, pois o histrionismo gauchesco tende ao infinito. Não, não tem nada a ver com o fato de agora eu morar em São Paulo. Sempre tirei uma lata de quem acha que esse é o MELHOR ESTADO DO MUNDO. E, desculpem, não dá pra confiar na opinião e nos gostos de gente que come CARNE CRUA, repleta dos vermes e bacilos que só nossa Campanha proporciona e chupa LAVA VERDE FERVENTE e acha isso bom. Junte a isso o fato de que gaúchos comem feijão preto TODOS os dias e fica possível entender quando eu digo que algo deu errado na colonização desse estado. Faça como os turcos ao falarem com um russo: Ao falar com um gaúcho, conserve um machado por perto.

Preciso escrever sobre algumas coisas que ando pensando nas madrugadas no hospital. Não tenho palavras pra agradecer a essa gente que salvou a vida do meu filho como a da totalidade das crianças que estavam no mesmo CTI essa semana. Não sei se em São Paulo as coisas teriam sido assim. Suspeito que não.

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