Esses dias estava falando com uma das minhas ex sobre o fato de que sempre fomos muito mais velhos que nossos pais e os amigos deles. De como ser filho de uma geração de destrambelhados acaba obrigando a gente a pelo menos tentar ser responsável mais cedo (até pra poder sair de casa duma vez). É simplesmente impossível encontrar a certa “maturidade” que se esperaria desses baby boomers que dobraram o Cabo da Boa Esperança já há tempos. Envelhecem e vão se infantilizando, parece.
Eu: Não agüento mais cinqüentão e sessentão bancando o adolescente. E me achando “estranho” por dizer que nasci com 70 anos. Mas com alma de 65.
Ex (ortografia, gramática e preguiça corrigidas): A única parte dessa coisa toda que eles entenderam foi o “é proibido proibir”. Só perderam o contexto todo. Enfim… ser velho a vida toda evita várias visitas ao hospital. Eu prefiro meus ossos inteiros também.
Eu (idem): Está todo mundo revoltado porque tenho ensinado ao MEU FILHO que existe certo e errado, herói e bandido, direita libertária e esquerda autoritária e coisa e tal. Todo mundo = Cicrana, Beltrana, Fulana, etc.
Ex: Sério, até a Fulana?! Isso eu não esperava.
Eu: Fulana = mó comunista, hehe. Nah, HUMANISTA.
Ex: Hahahahahahaha. Humanistas = comunistas com vergonha de comer criancinha. No dia em que recebi o email dos humanistas apoiando o Chávez foi o dia em que pedi pra sair da lista.
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Ah, é, Porto Alegre: Tenho passado os últimos meses meio recluso e nem olhado muita coisa na Internet ou na rua, tanto pelo luto quanto por uma certa angústia que ainda me dá de interagir com meus conterrâneos. Essa mania que todos têm de perguntar, ansiosinhos, se não estou tão mais feliz de ter trocado aquele horror paulistano por essa estupenda e formidável cidade de que se orgulham tanto.
Pois eu ainda estou procurando motivos para me orgulhar (nah, nem) dessa magnífica cidade em que é possível passar três semanas inteiras sem ver um único policial em ronda, patrulhando as ruas. Em que todas as calçadas de todas as maiores avenidas têm anos de marcas e cicatrizes de chicletes e humores humanos e nunca viram um jato d’água. Nunca. E nenhuma linha nos jornais sobre isso.
Estou procurando motivos para me orgulhar de uma cidade em que todas as cadeias de farmácias compram um certo remédio de uso contínuo de um mesmo distribuidor e, quando o distribuidor esquece de fazer o pedido, o remédio falta na cidade inteira. Repetindo: medicação de uso contínuo. E nenhuma linha nos jornais sobre isso.
Estou procurando motivos para me orgulhar de uma cidade em que a região equivalente à rua Santa Ifigênia tem exatas 10 lojas de informática. Em que é impossível encontrar tipos absolutamente comuns de lâmpadas e acessórios de iluminação, mesmo nas “melhores casas do ramo”. Mesmo que você queira pagar mais. “Não tem”, “não existe”, “nunca ouvi falar”.
Em que tudo o que é industrializado custa o dobro ou o triplo (ou o múltiplo que der na telha do lojista) do que em outras cidades de mesmo porte. Algumas delas até mais distantes do “centro produtor”. “Uóqui? Cento e cinqüenta e dois reais” (custa trinta e cinco em outra praça que conheço. E nem era o mesmo dessa outra praça, era pior).
Estou procurando o motivo para me orgulhar duma cidade em que o transporte coletivo é caro, inexiste bilhete único, não há metrô (p&$ no c# de quem chama o Trensurb de metrô), regiões inteiras estão incomunicáveis por causa da maneira estúpida com que as linhas de ônibus foram distribuídas e não há um único site - meia-boca que seja - com informações decentes sobre a malha de transportes urbanos.
Estou procurando um motivo para me orgulhar de uma cidade cujas principais vias têm o mesmo asfalto há trinta anos, esburacado, podre, esfarelando (claro, era ótimo em 1978, mas sabe como é o tempo) e que, só agora, começa a ser timidamente recapeado aqui e ali. Onde não há lixeiras (agora há: só no Centro) e todos os aparelhos públicos, sem exceção, estão vandalizados ao ponto da inoperância. Esqueça pontos de parada cobertos e com anúncios luminosos. Esqueça avenidas iluminadas à noite, esqueça abastecimento regular de água potável, nada disso faz parte da cultura e tradições gaúchas. E, sim: Algumas linhas de um press release da estatal fornecedora de água - quando começou a faltar água na casa dos jornalistas, creio.
Estou procurando o motivo para me orgulhar de uma cidade em que a alternativa ao transporte coletivo precário, o bom e velho automóvel particular, é um estorvo ainda maior por conta do trânsito selvagem, as multidões de motoristas que ou dirigem bêbados ou não conhecem as mais comezinhas regras de trânsito, as brigas intermináveis protagonizadas por boçais que, houvesse algum rigor na compra das carteiras de motorista, só estariam habilitados a andar de patins - se tanto. Porto Alegre deve ter um trigésimo da frota daquela outra cidade “infernal” e é capaz de produzir congestionamentos que não vi nos 5 anos de vida por lá.
Mas, aparentemente, todos estão muito contentes com a cidade, estupendamente contentes, magnificamente contentes, menos eu. Você fala com as pessoas e lá estão elas, todas orgulhosas, ufanistas, trique-trique-rolimãs. Devo ter nascido com um parafuso a menos, me dou conta. O que vim fazer aqui? Ensinar meu guri a falar inglês, para que também possa sair - se quiser - um dia.
Vou começar a tirar fotos das coisas que estou dizendo e pendurar por aqui, procês aí de fora não pensarem que estou mentindo ou exagerando. Porto Alegre é DJI MAIS, mesmo. Só visite se não houver alternativa.
PS: Faltou falar de restaurantes, táxis, parques, calçadas, praças, imprensa, entrega de jornais e revistas, etc. Se algum gaúcho nacionalista não me assassinar no meio-tempo, escrevo mais, outro dia.
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