1968, Porto Alegre

Por Láudano Sine Nauta Navis

Esses dias estava falando com uma das minhas ex sobre o fato de que sempre fomos muito mais velhos que nossos pais e os amigos deles. De como ser filho de uma geração de destrambelhados acaba obrigando a gente a pelo menos tentar ser responsável mais cedo (até pra poder sair de casa duma vez). É simplesmente impossível encontrar a certa “maturidade” que se esperaria desses baby boomers que dobraram o Cabo da Boa Esperança já há tempos. Envelhecem e vão se infantilizando, parece.

Eu: Não agüento mais cinqüentão e sessentão bancando o adolescente. E me achando “estranho” por dizer que nasci com 70 anos. Mas com alma de 65.

Ex (ortografia, gramática e preguiça corrigidas): A única parte dessa coisa toda que eles entenderam foi o “é proibido proibir”. Só perderam o contexto todo. Enfim… ser velho a vida toda evita várias visitas ao hospital. Eu prefiro meus ossos inteiros também.

Eu (idem): Está todo mundo revoltado porque tenho ensinado ao MEU FILHO que existe certo e errado, herói e bandido, direita libertária e esquerda autoritária e coisa e tal. Todo mundo = Cicrana, Beltrana, Fulana, etc.

Ex: Sério, até a Fulana?! Isso eu não esperava.

Eu: Fulana = mó comunista, hehe. Nah, HUMANISTA.

Ex: Hahahahahahaha. Humanistas = comunistas com vergonha de comer criancinha. No dia em que recebi o email dos humanistas apoiando o Chávez foi o dia em que pedi pra sair da lista.

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Ah, é, Porto Alegre: Tenho passado os últimos meses meio recluso e nem olhado muita coisa na Internet ou na rua, tanto pelo luto quanto por uma certa angústia que ainda me dá de interagir com meus conterrâneos. Essa mania que todos têm de perguntar, ansiosinhos, se não estou tão mais feliz de ter trocado aquele horror paulistano por essa estupenda e formidável cidade de que se orgulham tanto.

Pois eu ainda estou procurando motivos para me orgulhar (nah, nem) dessa magnífica cidade em que é possível passar três semanas inteiras sem ver um único policial em ronda, patrulhando as ruas. Em que todas as calçadas de todas as maiores avenidas têm anos de marcas e cicatrizes de chicletes e humores humanos e nunca viram um jato d’água. Nunca. E nenhuma linha nos jornais sobre isso.

Estou procurando motivos para me orgulhar de uma cidade em que todas as cadeias de farmácias compram um certo remédio de uso contínuo de um mesmo distribuidor e, quando o distribuidor esquece de fazer o pedido, o remédio falta na cidade inteira. Repetindo: medicação de uso contínuo. E nenhuma linha nos jornais sobre isso.

Estou procurando motivos para me orgulhar de uma cidade em que a região equivalente à rua Santa Ifigênia tem exatas 10 lojas de informática. Em que é impossível encontrar tipos absolutamente comuns de lâmpadas e acessórios de iluminação, mesmo nas “melhores casas do ramo”. Mesmo que você queira pagar mais. “Não tem”, “não existe”, “nunca ouvi falar”.

Em que tudo o que é industrializado custa o dobro ou o triplo (ou o múltiplo que der na telha do lojista) do que em outras cidades de mesmo porte. Algumas delas até mais distantes do “centro produtor”. “Uóqui? Cento e cinqüenta e dois reais” (custa trinta e cinco em outra praça que conheço. E nem era o mesmo dessa outra praça, era pior).

Estou procurando o motivo para me orgulhar duma cidade em que o transporte coletivo é caro, inexiste bilhete único, não há metrô (p&$ no c# de quem chama o Trensurb de metrô), regiões inteiras estão incomunicáveis por causa da maneira estúpida com que as linhas de ônibus foram distribuídas e não há um único site - meia-boca que seja - com informações decentes sobre a malha de transportes urbanos.

Estou procurando um motivo para me orgulhar de uma cidade cujas principais vias têm o mesmo asfalto há trinta anos, esburacado, podre, esfarelando (claro, era ótimo em 1978, mas sabe como é o tempo) e que, só agora, começa a ser timidamente recapeado aqui e ali. Onde não há lixeiras (agora há: só no Centro) e todos os aparelhos públicos, sem exceção, estão vandalizados ao ponto da inoperância. Esqueça pontos de parada cobertos e com anúncios luminosos. Esqueça avenidas iluminadas à noite, esqueça abastecimento regular de água potável, nada disso faz parte da cultura e tradições gaúchas. E, sim: Algumas linhas de um press release da estatal fornecedora de água - quando começou a faltar água na casa dos jornalistas, creio.

Estou procurando o motivo para me orgulhar de uma cidade em que a alternativa ao transporte coletivo precário, o bom e velho automóvel particular, é um estorvo ainda maior por conta do trânsito selvagem, as multidões de motoristas que ou dirigem bêbados ou não conhecem as mais comezinhas regras de trânsito, as brigas intermináveis protagonizadas por boçais que, houvesse algum rigor na compra das carteiras de motorista, só estariam habilitados a andar de patins - se tanto. Porto Alegre deve ter um trigésimo da frota daquela outra cidade “infernal” e é capaz de produzir congestionamentos que não vi nos 5 anos de vida por lá.

Mas, aparentemente, todos estão muito contentes com a cidade, estupendamente contentes, magnificamente contentes, menos eu. Você fala com as pessoas e lá estão elas, todas orgulhosas, ufanistas, trique-trique-rolimãs. Devo ter nascido com um parafuso a menos, me dou conta. O que vim fazer aqui? Ensinar meu guri a falar inglês, para que também possa sair - se quiser - um dia.

Vou começar a tirar fotos das coisas que estou dizendo e pendurar por aqui, procês aí de fora não pensarem que estou mentindo ou exagerando. Porto Alegre é DJI MAIS, mesmo. Só visite se não houver alternativa.

PS: Faltou falar de restaurantes, táxis, parques, calçadas, praças, imprensa, entrega de jornais e revistas, etc. Se algum gaúcho nacionalista não me assassinar no meio-tempo, escrevo mais, outro dia.

Veja os preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras.

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7 comentários para “1968, Porto Alegre”

  1. Lets the First Diz:

    Êêêpaaaa! Estou percebendo sinal de vida aí!

    Só um detalhe, fio: não é POA que é assim. É SP que é estranha mesmo. De qualquer maneira, quero deixar aqui registrado que voltei de viagem hoje e fiquei 1 (uma) hora na marginal. Duas pistas só de caminhões queimando óleo, com o escapamento lodo lascado, carroceria sacolejando e carga de 10 metros de altura. Tudo bem que muitos deles não são daqui, masss… Pedágio pra caminhão já! Estou ansiosa pra ouvir reclamações do tipo “eu sou pobre, chega de tanta carga tributária!”
    No mais, continue firme no inglês com o rapazinho. E manda ver nas fotos!

    Bjoca,

    Lets

    (N.E) Lets, vida vegetal qualifica, né? Heh. Uma hora de Marginal? Tá bom, ainda dá pra aturar: Aqui fiquei duas num trecho equivalente à distância do Caçador até o Adolpho Lutz.

  2. Cisco Diz:

    Para ser justo, o site da EPTC (www.eptc.com.br) tem informações sobre todas as linhas de transporte coletiva. Vá lá que é preciso saber decifrar certos elementos do site e que não há integração com um serviço de mapas, mas a informação está lá. Certamente atende ao quesito “meia-boca que seja”.

    Quanto ao Trensurb, quem mora em Porto Alegre devia se acostumar com a idéia de que o Trensurb serve apenas à região metropolitana. Se você mora entre Canoas e São Leopoldo (o que significa, no mínimo, umas 600 mil pessoas) e precisa ir para Porto Alegre (como todo mundo precisa, e muita gente precisa ir todos os dias), o Trensurb é ótimo.

    (NE): Cisco, uma listagem de nomes de ruas não é informação, é coleção. Como faz para chegar do ponto A ao B? Isso não existe. É de algo assim que estou falando: http://200.99.150.164/PlanOperWeb/ . A preguiça me impede de procurar o site equivalente para CUritiba, que pelo tamanho dá pra ser nosso benchmark. Mas tem. Quanto ao ZURBÃO, eu já usei muito pra ir a esses interiores aí e para a A. J. Renner. A passagem ainda está custando duas mariolas e um cigarro Yolanda como era ano passado? :^)

  3. Solon Diz:

    Para ser justo, também, há lixeiras em abundância por toda Porto Alegre, faz coisa de algumas semanas. Laranjas, de metal, no formato daquelas coisinhas de plástico que protegem a surpresa dentro de um Kinder Ovo. Procure e irá encontrá-las.

    De resto, tirando os inevitáveis exageros de alguém que está num lugar que não gosta (com tal “frame of mind” pode-se escrever um texto igualmente vitriólico e verdadeiro sobre qualquer cidade do Brasil, inclusive São Paulo), acho que assino embaixo de tudo.

    (NE): Mania de gaúcho de “ser justo”, hehe. Não vi no Partenon, em algumas ruas de Petrópolis, outras da Bela Vista. O Mojo me disse que o Bom Fim está coberto, mas Bom Fim é centro também, não conta.

  4. Eduardo Diz:

    Uia fio, quanta revolta. Que tu idolatra São Paulo e renega Porto Alegre eu já sabia, mas não sabia que chegava a tal ponto. Tu tá precisando de material elétrico? Deu uma procurada na Av. São Pedro?

    Eu não sou capaz de dizer que não gosto de lá, mas passei mais esse feriado por lá, resolvi fazer alguns passeios básicos: A minha namorada mora em Moema, ali pertinho da Indianópolis, primeiro resolvemos comprar muamba no centro, 25 de março, galeria Pajé e mercado público, a cidade devia estar vazia, mesmo assim levamos 1h pela 23 de maio para chegar, 30min pra achar um estacionamento de R$18 ainda por cima.

    Teatro a noite, R$60 p/ cabeça pra ver um pastelão duma drag queen, esquecer um pouco da vida, R$12 de estacionamento.

    Segundo programa, conhecer o novo shopping Bourbon Pompéia, daquela rede dos gaúchos que tiveram que acentuar o logotipo pra facilitar a pronúncia, como de praxe, ninguém sabe chegar a lugar algum, descobrimos que bastava pegar a Av. Brasil, caía na Heitor Penteado, subia até a Pompéia, 11km no total, 1h40min (o tempo de chegar a Capão)

    Teatro de novo, na Av. Paulista, agora com desconto de 50% já que marchamos no outro dia, R$30 por cabeça, R$15 de estacionamento, fora que se teu carro for muito mais largo que uma Harley Fatboy um desce antes de estacionar, senão as portas não abrem.

    Terceiro programa, domingo na Liberdade, pertinho, bastava pegar a Domingos de Morais, Vergueiro e estávamos lá, milagrosamente chegamos rápido, acho que todos os paulistanos tinham ido à parada gay, porém os japoneses não são gays, é impossível olhar vitrines, passear, é um acotovelamento só, e aquelas mulheres vendendo picolé de melão aos berros.

    Poderia ter feito tudo isso de metrô? Nem sei, não me sinto seguro andando nas ruas da cidade, quando vejo prédios com grades duplas, guaritas e sistemas de identificação por todos os lados.

    (NE): Dudo, o “preço do estacionamento” é outra das coisas de que vou falar. Mas, basicamente, é assim: quer ter carro, tenha também a grana pra enfiá-lo num estacionamento. A rua é pública e foi feita para circular, não para hospedar latas particulares que atrapalham a circulação, inclusive a minha que (ainda) não tenho carro. :^)

  5. Cardoso Diz:

    Única verdade absoluta = a parte sobre motoristas mal-educados.

    O resto é questionável - sobretudo a insinuação de que ENGARRAFAMENTO em São Paulo é FALÁCIA.

    Mas em geral concordo com as reclamaciones.

    :)

    (NE): Não disse que TRÂNSITO em SP é FALÁCIA: Disse que 1) HÁ ALTERNATIVAS, o que inexiste em Porto Alegre e 2) que a frota aqui deve ser 30 vezes menor (mas a cidade é “só” 8 vezes menor) e é capaz de protagonizar eventos semelhantes. Não faz muito levei DUAS HORAS (das 17:45 às 19:45) pra chegar do Bom Fim ao CHOCOLATÃO, num desses dias infernais em que todos dormiram com os pés destapados.

    Quanto ao resto ser questionável, ok, questione à vontade. Mas o fato que não há metilfenidato há quase dois meses na cidade e que só é possível achar em SP é facilmente comprovável em qualquer farmácia. De novo: Medicamento DE USO CONTÍNUO, HEH. :^)

  6. MONZO PANZOLINI Diz:

    “Nem sei, não me sinto seguro andando nas ruas da cidade, quando vejo prédios com grades duplas, guaritas e sistemas de identificação por todos os lados”.

    Aw, me dá um breque. Desculpa, mas isso é FUD PAMPEIRO se imiscuindo na tua percepção de risco. Parar o carro por dois minutos em qualquer ponto de (digamos) Petrópolis ou Menino Deus é umas trinta vezes mais perigoso que andar de metrô em SP, em qualquer linha, a qualquer hora. E andar na rua por lá também é muito, mas muito mais seguro - ou pelo menos é a sensação que se tem. Em Porto Alegre também está tudo gradeado e cercado, mas o clima é muito mais velho oeste.

    (NE): FUD PAMPEIRO = mais uma pra tua coleção de lapidares.

  7. Raquel Diz:

    Ó,

    tô com o seu Monzo Panzolini (que nome mais monzo, meu!) - também me sinto segura em sampa. Ano passado, em Pelotas me deu um frio no estômago: moleque, em plena luz do dia, pronto pro assalto, e havia um componente de agressividade que sinceramente eu não sei explicar.

    Diz aí ô tio, quantas vezes saí tarde da noite do teu apê, que as nossas conversas não acabavam nunca! e peguei metrô pro interior de Papua Nova Ghiné, desci no Carandiru sem problema algum.

    Bueno, no aguardo de: restaurantes, táxis, parques, calçadas, praças, imprensa, entrega de jornais e revistas etc.

    beijocas

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