Anteontem José Paulo Kupfer, talvez indignado com os excelentes artigos de Reinaldo Azevedo sobre a carga tributária e o papel da oposição no país, escreveu este artigo no Nomínimo e recebeu um comentário no blog Martelada, do Träsel.
Não sou economista, mas conheço número de economistas suficiente para saber que em uma reunião entre três deles você ouvirá três opiniões distintas e, geralmente, conflitantes. Talvez por isso não haja grande razão para considerar Ciência um ramo do conhecimento em que nunca se chegará a qualquer senso comum sobre quase qualquer assunto. Mas é bonito de se ver o que está escrito lá por Kupfer, e vai entre aspas abaixo:
“A economia se presta a manipulações dos mais variados quilates, menos pela dificuldade de entender seus fenômenos do que pelo fato de que muitos de seus conceitos não são intuitivos.”
Começa, de certa forma, corroborando o que disse acima: nem os economistas são capazes de chegar a um denominador comum sobre qualquer assunto. Muito menos economia. Mais adiante, diz:
“[...]O mesmo problema ocorre com o conceito de carga tributária. Este também não é intuitivo, e o fato de não sê-lo faz a festa dos ignorantes ou, mais grave, dos de má-fé.[...]“
Como bom economista, a razão sempre está do seu lado, e qualquer um que creia que 30% ou 38% do PIB de carga tributária - dependendo do critério que se use - é um acinte para o cidadão de um Estado que devolve pouquíssimo em serviços só pode ser um ignorante, um idiota ou um mal-intencionado. Ou os três, de preferência.
“[...]Muito simples, mas também muito fácil também de distorcer e atender a interesses nem sempre claros[...]“
Que interesses seriam esses, os tais “nem sempre claros”? A frase parece uma dessas pérolas vindas dos obscuros compartimentos cerebrais da esquerda boazinha que vê conspiração e interesses escusos em tudo que signifique menos participação do Leviatã estatal - que tanto amam - na vida cotidiana do cidadão. Pois eu digo quais são os interesses, se nenhum economista “mais bem informado” resolver fazê-lo:
Induzir crescimento econômico? Diminuir o cipoal burocrático que atravanca tudo no país? Retirar um pouco do poder do Estado para que as pessoas possam, num ambiente de liberdade econômica, criar oportunidades e empregos? Esses “interesses escusos” não parecem bastante bons per se?
Por fim, o artigo senta a lenha em todo mundo que paga imposto no Bananão:
“[...] Agora, imagine um corte drástico e linear nos impostos diretos e progressivos sobre a renda individual. Isso, num primeiro momento, aliviaria a vida de todos os que ganham o suficiente para não serem isentos de recolhimento do imposto de renda. Mas, é lógico, favoreceria proporcionalmente mais quem ganha mais. O resultado seria um colapso econômico, com estímulo à produção de bens supérfluos e a falência definitiva de serviços públicos tipo segurança, controle ambiental, pesquisas etc.[...]“
É preciso conceituar o que é um bem essencial e o que é um bem supérfluo aqui: um computador é supérfluo? Se você usá-lo apenas para ler blogs ou colunistas online e jogar paciência spider, sim. Ele não é um bem de capital, não reproduz capital, não dá dinheiro. É só um bem de consumo, dos mais rastaqüeras inclusive. Um telefone é um bem supérfluo? Sim, se você usá-lo apenas para conversar com a avó doente em Anta Gorda ou o seu psicólogo fanho em Brás de Pina. Um telefone celular é um bem supérfluo? Sim, a menos que você seja um cirurgião atarefadíssimo, celulares sempre são supérfluos. Bebidas alcoólicas são supérfluas? Não, é óbvio, qualquer civilização avançada e digna do nome permite o consumo responsável de bebidas alcoólicas. Mas, para certo tipo de economista, tudo que não seja pirão, fubá e macaxeira é supérfluo.
Brincadeiras à parte, o que o colunista omitiu (lembra de que ele falava de interesses nem sempre claros?) é o fato de que, por trás do consumo de qualquer “bem supérfluo”, esconde-se, geralmente, uma enorme cadeia produtiva que dá emprego a milhares de pessoas (eu tu, ele, nós, vós, eles), movimenta a tal roda da economia e proporciona os meios para que os indivíduos atinjam a tal felicidade material. E não é preciso ler nenhum teólogo neoliberal para saber disso: Mesmo um economista comunista como Leo Hubberman diz o mesmo.
Esses dias estava falando com um amigo economista radicado nos EUA que publicou um artigo sobre o nível de investimento chinês e o risco de quebradeira que corre o país dos chinas-pau, principalmente por causa do sistema bancário nebulosíssimo da People’s Republic of China. Ele se horrorizou com a informação de que há muitos anos o nível de investimento brasileiro não passa de 5% do PIB, sendo otimista (para números exatos, pergunte ao seu economista sem viés favorito). Outro amigo meu diz há anos, insistentemente, que os gaúchos sofrem de autismo social e político. Eu creio que o mal, infelizmente, se alastrou pelo resto do país. Mas - você pergunta - quais seriam os sintomas desse tal autismo, meu caro Rico Ferrari? Um bastante claro seria crer que o Rio de Janeiro é uma cidade turística e Nova Iorque não, por exemplo.
No caso do artigo analisado talvez a doença seja outra.
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