Ainda Israel

Alexandre Rodrigues:

“1 - O governo de Israel jamais poderá se rebaixar às práticas do Hamas ou do Hezbolah. Concordo com a política de assassinatos seletivos, mas não com o bombardeio aleatório, em que para matar uma pessoa se explode um prédio com dezenas dentro. Isso é a prática-padrão e o equivalente de um carro-bomba ou um homem-bomba.

2 - Só para fazer um equivalente: aqui no Brasil, dentro das favelas, existe uma gigantesca tolerância (e isso eu constatei vivendo perto de uma favela no Rio) com o tráfico. Os pais também costumam fazer vista grossa ou mesmo estimulam que os filhos entrem para as quadrilhas. Pois dado o fato que estas quadrilhas fazem o que fazem, o equivalente interno nosso ao que Israel faz seria bombardear as favelas. Nos dois casos eu acho que o estado não deve agir como um bando de delinqüentes.

3 - Tu diz que o governo deve defender seus cidadãos. É vero, mas até o início dos bombardeios no Líbano se tratava de um conflito entre militares israelenses e terroristas. É preciso fazer uma distinção clara de ataques a militares e ataques a civis. Foi Israel que levou a guerra primeiro aos civis e depois foi surpreendido com o arsenal do Hezbolah (não se conhece o quanto Israel sabia sobre o arsenal do Hezbolah. Pode ter sido planejado um ataque pequeno, mas aí os libaneses responderam e a coisa degringolou). Não estou justificando o que faz o Hezbolah, só citando os fatos cronologicamente.

3- O mesmo argumento de que um governo deve proteger seus cidadãos deveria valer para o brasil cobrar de Israel explicações sobre o porquê do número de mortos brasileiros nessa guerra (sete) ser equivalente à metade das baixas Israelenses (quinze) no início da semana. a existência de tantos brasileiros mortos é indício claro de que os ataques estão sendo a esmo. ou então tem uma gigantesca célula terrorista.

4 - Meu quarto porém vem do jeito que os judeus que conheço lidam com a questão. Sendo casado com uma judia, tendo estudado hebraico e hospedado um Israelense aqui em casa, convivo com alguns. Sempre percebi nas conversas com eles a postura de achar que tudo se justifica. Mas não se justifica. Se Israel está usando armas químicas em gaza, como vem sendo denunciado (saiu uma matéria na aol, mas preciso ler mais para ter mais informação sobre isso), não pode. Israel não é Saddam. Não pode ser. É uma democracia. Democracias foram inventadas para ser diferentes da barbárie. Mas e quando um estado democrático se comporta como um bárbaro?

E, pior, no caso dos colegas de hebraico, brasileiros, que jamais tiveram pessoalmente qualquer problemas com árabes (e que com eles talvez conviam por aqui), grassa publicamente, sem nenhuma reprimenda que seja, um indesculpável racismo. Um dos motivos de eu ter abandonado o curso foi justamente o choque que isso me causou.

No mais, perfeito. Eu odeio discordar, sabe? Mas essa é uma questão que incrivelmente sempre consegue se tornar mais complexa a cada vez.

Abraço.”

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Resposta de Rico Ferrari:

“Oi, Alexandre,

Aos teus pontos:

1 - Concordo. Mas você também deve ter lido que Israel atirou panfletos para a população civil, avisando para se manter afastado de terroristas, etc. Isso foi relatado inclusive por uma das brasileiras que estava no Líbano, há poucos dias. Não lembro de outra ocasião em que isso tenha acontecido numa guerra. Nem o eixo nem aliados, nem sul-coreanos nem norte-coreanos, ninguém tem o costume de fazer isso. É certo que isso também faz parte do esforço de relações públicas de Israel, mas é inusitado de qualquer forma.

2 - Sobre as favelas do Rio - e o paralelo talvez não seja próprio, mas vá lá :^)

Cara, um pai que é leniente com um filho quadrilheiro, desculpe, é um mau pai. Assim, sem mais. Note que eu não tenho qualquer problema moral com as drogas em si: Sem lei, não há civilização. Posso discordar de alguma lei - discordo da proibição das drogas - mas, para isso, para mudar uma lei, há um caminho (que é longo, eu sei) dentro da legalidade. Só a legalidade é capaz de proteger o mais fraco. Sendo leniente com a ilegalidade (nesse caso, o tráfico), um pai está sendo um mau pai, além de criminoso, por omissão.

Onde acho que há uma certa impropriedade na comparação é que os traficantes dos morros do Rio não estão dispostos a terminar com a sociedade ao seu redor, como é o caso do Hesbolá e do Hamas em relação a Israel. É óbvio que eles são criminosos - é o que diz a lei - mesmo que eu creia que, moralmente, não se trata de um crime. Mas moral, costumes, opiniões, cada indivíduo ou grupo tem os seus. Sociedade é, num plano ideal, a tentativa de harmonizar - sob o império da lei - o conjunto das opiniões, costumes, visões morais dos grupos e indivíduos que vivam sob algum denominador comum (nação, estado de direito, condomínio residencial, etc).

Não creio que Israel esteja desrespeitando leis, mesmo que, pessoalmente, eu considere imoral qualquer tipo de bombardeio a uma localidade cheia de civis. Por outro lado, se os civis dão abrigo a terroristas - que são criminosos, como você mesmo há de concordar - estão sendo lenientes e cúmplices por omissão. Se eu abrir a garagem da minha casa para que um veículo lança-foguetes se esconda, estou sendo cúmplice e sei, tacitamente, a quais conseqüências eu e minha família estaremos expostos. Se eu der abrigo a um bando de traficantes (um deles meu filho, suponhamos) armados, também sei a que riscos estou exposto. Israel não está sendo terrorista. Está em guerra contra o Líbano.

3 - Eu tenho muitos amigos palestinos e libaneses, assim como alguns amigos judeus, todos eles moderados, todos eles que moram ou têm cidadania brasileira ou brasileiros natos. É óbvio que nenhum deles, no calor dos acontecimentos - afora o Bruno, o Sahid e mais um ou outro - têm tido serenidade nessa questão. Qualquer ato de violência polariza as opiniões - e talvez seja isso que eu também tenha feito de uma maneira mais ou menos desordenada no post em questão - tomar um partido - de maneira mais ou menos irreconciliável.

Há uns 4 anos atrás, nesse texto, eu reclamava e demonizava Israel por não devolver as terras dos palestinos e desocupar o Líbano, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Israel parece que ouviu meus argumentos (para fazer uma citação atravessada daquele artigo engraçado do Diogo Mainardi) e desocupou as terras dos caras. O que aconteceu depois disso?

Quanto à atuação do governo brasileiro: é lamentável. Os americanos evacuaram seus cidadãos com um NAVIO. Onde estava a marinha brasileira nessa hora? Provavelmente pescando traíras ou jogando biriba. Qualquer brasileiro que já tenha precisado do Itamaraty no exterior sabe que é mais fácil ser atendido na embaixada Argentina que na missão brasileira.

Deveríamos ter feito algum tipo de protesto oficial? Talvez. Mudaria algo? Ou só porque somos - covardemente - neutros e lenientes por questões econômicas e de parolagem ideológica - com todas as ditaduras árabes e todos os movimentos terroristas deveríamos protestar com veemência pelo fato de que - talvez, e estou dizendo talvez - um cidadão brasileiro de origem libanesa morto nesta guerra talvez estivesse envolvido com o terrorismo?

Não vejo qualquer tipo de horror, indignação ou veemência na condenação por parte do governo brasileiro às mortes de cidadãos brasileiros em atentados do Hamas e do Hesbolá. Nunca vi, na verdade, qualquer tipo de condenação, nem por parte do governo, nem por parte da esquerda, nem por parte da direita, nem pela igreja católica, nem pelo terreiro da Mãe Iná. Nenhum grêmio estudantil entregou qualquer abaixo-assinado a representantes dos dois movimentos que já estiveram diversas vezes no país. E é só olhar nos arquivos dos jornais para encontrar os nomes de brasileiros em férias ou estudando que morreram em atentados. Foram poucos, sim, mas são cidadãos brasileiros, como os que estão morrendo no Líbano agora. Ou brasileiros de profissão Israelita não são brasileiros?

4 - Bom, sobre o quarto ponto, eu pediria para você ver os vídeos com atenção, pois parece que você não os viu. Posso mandar alguns outros para você, se você quiser. E peça pra algum amigo libanês ou que fale o dialeto árabe da região para confirmar a tradução, se duvidar do que está sendo dito. Eu pedi.

O fato é que, na cabeça dum sujeito que more em Israel ou tenha parentes lá e que conheça essa face - retratada nesses vídeos - dos tais movimentos islâmicos (face essa que aqui no Brasil é bastante desconhecida) para esse sujeito, defender o Hamas e o Hesbolá é, obviamente, ser anti-judeu, anti-semita (o que é paradoxal, sabendo que os árabes também são semitas) ou leniente com o terrorismo. Ambos os grupos pregam para suas platéias o extermínio, à la Shoah, dos judeus. Eles não querem negociar. Para eles, a Jihad durará mil anos. Eles dizem isso. Está aí. Mesmo que, para a mídia externa, vendam uma face mais plácida e humana: “cuidamos de hospitais, montamos escolas, cuidamos da infra-estrutura”. Posso até achar isso louvável, mas, desculpe, isso é função do estado constituído, não de um grupo armado. E que tipo de escola é gerida por eles? Ah, é, é aquela que ensina que “Nossa pátria será devolvida através da Jihad” (primeira cena do vídeo em questão). É fácil perceber que não há muita negociação possível com quem diz que só descansará quando o último Israelita for chutado Mediterrâneo a fora ou morto.

Hoje em dia não me espantaria de ver algum grupo defendendo os sacrifícios rituais dos Astecas e dos Maias como “uma forma legítima de expressão de suas culturas”. [ironia] Claro, a gente tem de respeitar as diferenças culturais, mesmo que elas venham a resultar no extermínio de outras pessoas [/ironia].

Entendo sua indignação, mas não creio que nada do que Israel esteja fazendo seja ilegal. E, desculpe, também não compro a versão Le Monde Diplomatique de uso de armas químicas.

Mas tem alguns Israelenses que concordam com você.

Esse é o maravilhoso de se viver num estado democrático, não? Se esse cara publicasse esse negócio com sinal inverso, na faixa de Gaza, ele provavelmente seria assassinado e arrastado pelas ruas como infiel e traidor.

Um abraço,

Rico Ferrari.

PS: posso publicar o diálogo no blog?”

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Alexandre:

“Claro que pode postar, só me deixa fazer uma tréplica.

Eu acho que no caso das favelas e dos civis no Líbano há uma forte semelhança no seguinte ponto: você não tem opção senão deixar entrar o cara do Hezbolah e guardar o lança-foguetes. Não há como. O cara te conhece, sabe quem é você. Deve haver uma boa parcela que faz isso por gosto, mas deve ser grande a quantidade de gente que não tem opção.

Eu morei perto de favela no rio. Um belo dia tocaram lá em casa e eram dois traficantes exigindo que o meu pai botasse eles no carro e levasse em outra favela porque tinham ficado presos naquela em um tiroteio. Fui obrigado a ver meus pais saírem com eles (minha mãe quis ir junto por medo que meu pai fosse morto para levarem o carro). O meu pai teve que dirigir em meio a uma quadrilha rival, com os caras escondidos no banco de trás, e depois entrar numa outra favela à noite. Se tivesse dado o azar de encontrar a polícia no caminho, teria sido um desses danos colaterais.

Aí entra a figura do estado. Nos dois casos o estado existe para mostrar que, como sociedade, é superior a um bando de delinquentes. Quando se rebaixa ao nível dos delinqüentes, o estado falhou.

Como disse o Pedro Dória naquele belíssimo post dele no nomínimo, a Convenção de Genebra é filha do holocausto. Foi feita para que não se repetisse o que os judeus sofreram na segunda guerra. Quando o estado judeu a viola, está dizendo que, afinal de contas, esse sofrimento era só parte da guerra. A frase do Olmet sobre a morte de civis nada mais é do que um argumento muito usado no julgamento de Nuremberg: guerra é guerra e numa guerra acontecem coisas terríveis.

Mas tanto o julgamento de Nuremberg quanto a Convenção de Genebra se sustentam na mesma idéia: não é assim.

Desde a guerra do Kosovo meio que se tornou padrão essa coisa de atirar panfletos à população. Tem alguma guerra dos anos 80 em que isso também aconteceu, mas não me lembro qual. No Afeganistão, em 2001, tenho certeza que aconteceu.

Você tem razão quando fala da leniência brasileira. Sabedor de que o Brasil tem a maior colônia estrangeira no Líbano (certamente efeito da multidão de refugiados de guerra que veio para cá nos anos 80 e voltou nos últimos anos), teria que ser mais rápido, embora se deva dar a eles o desconto de que nos primeiros dias isso parecia um combate destinado a ser curto.

Achei absurdo quando o Brasil, no governo Fernando Henrique, não se manifestou sobre a morte do brasileiro em um atentado em Jerusalém. O Brasil tem que retaliar de alguma forma (de preferência financeiramente, congelando bens do estado estrangeiro e estabelecendo indenizações generosas e imediatas para os familiares das vítimas) qualquer morte de brasileiro onde se possa apontar um governo como responsável, no caso a OLP naquele atentado de 2002, agora o governo de Israel.

Há um ponto que eu não toquei antes. A comparação com o Rio Grande do Sul e Tordesilhas deve ter uma ressalva importante: no caso dos palestinos expulsos de suas terras em 1948, boa parte deles ainda está viva ou estão seus filhos. Não se trata de um tratado esquecido de séculos atrás, de letra morta, mas de uma invasão militar cujas vítimas ainda estão vivas. E, pior, eu, só por ser casado com uma judia, tenho mais direitos políticos em Israel do que essa gente. Não faz sentido.

Mas Israel não é o único vilão nessa história. Todos são. Os países árabes fazem questão de manter os palestinos segregados nesses campos para que não se integrem às sociedades e, vivendo de maneira miserável, possam ser exibidos como arma política contra Israel.

Meu temor é que no final de tudo (se é que vai haver um final), como no livro do Orwell, vá ser impossível dizer quem era bicho e quem era humano.

Um adendo: também não vejo ilegalidade no que israel está fazendo, embora seus dirigentes possam perfeitamente ser denunciados em um tribunal de direitos humanos mais tarde. provavelmente vão.

como sou um seguidor de thomas hobbes e maquiavel, entendo que um estado deve fazer o necessário para se defender.

A minha crítica é ao bombardeio pelo bombardeio, como vem ocorrendo. O Líbano tem uma grande área católica, onde Israel sabe não haver ninguém e nem armas do Hezbolah. Só para lembrar, os massacres de Sabra e Chatila foram cometidos por cristãos, não por israel. O papel de Israel foi fechar os campos e não deixar nenhuma vítima fugir enquanto os massacres aconteciam lá dentro.

Mas Israel vem bombardeando pesadamente essas aldeias assim mesmo. Por que? Porque você aumenta os ódios dos cristão pelos muçulmanos e quando as bombas pararem, os cristãos vão à forra.

É esse tipo de tática que não faz o menor sentido para se ganhar uma guerra. Até porque os massacres não vão ocorrer durante a guerra, mas depois dela.

Abraço.”

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Rico Ferrari:

“Eu estava justamente comentando com a minha mulher que o sujeito que ia dar mais trabalho para responder era um que já havia se proclamado Hobbesiano e nem gaúcho é (já que a “carta aberta” era para eles). E que o mundo estava de pernas pro ar quando até os hobbesianos viram peaceniks. :^)

Bom, eu continuo afirmando que Israel não está se comportando como um delinqüente, mas em guerra, dentro do que prevê a Convenção de Genebra. E, como disse lá no post, não são bonitas as guerras.

Comparar um bombardeio a um alvo militar - e comprar a versão de que existem, mesmo, armas com precisão cirúrgica - ao que aconteceu com os judeus (e ciganos e partisans e polacos, etc) nos campos de concentração é forçar muito a mão. E, se uma casa de família é usada como plataforma para lançamento de foguetes, ela é um alvo militar. Enfim.

Eu cresci ouvindo a história de um parente direto meu que foi morto em 1942 num bombardeio a Nápoles. Avô do meu avô. Ele era já velho na ocasião e financiava os partisans, apesar de não ser comunista. A bomba que matou esse parente foi aliada. Dano colateral. Nunca ouvi meu avô ou meu bisavô recriminarem ou culparem os aliados por esse dano colateral que lhes tinha custado tão caro. Afinal, era a guerra e assim são as guerras.

Tem uma coisa interessante sobre a linguagem usada nessa guerra pela imprensa: Ela varia muito quando é usada para descrever o que aconteceu a um lado e a outro. Dá uma olhada aqui pra ver do que estou falando.

Abraço.”

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