Eu odeio o frio
Por Láudano Sine Nauta NavisChegamos na cidadezinha como dois náufragos, moídos pelas doze horas de viagem. Ela não gostava de dirigir, eu só gostava de dirigir na estrada, hoje nem isso. Deixamos o carro em frente a um bar, descemos. Ela tinha um sedan francês de quatro portas, o que não era comum naquela época, as fábricas francesas só vieram muito tempo depois para o país. Apanhei os sobretudos e meu chapéu do banco de trás, depois que esticamos as pernas. Ela sorriu e me pediu para não esquecer o cachimbo, enquanto vestia o casaco. Fomos para a beira da praia.
Ela estava num jeans azul, não sei qual marca, isso não me interessa, de tênis e, por cima de uma burma vermelha, outro blusão mais grosso, mas vermelho no mesmo tom, e o sobretudo marrom claro. Pus a manta escocesa por volta da garganta, retirei do bolso interno do casaco e abri a caixinha que carregava ao lado da petaca e comecei a preencher o cachimbo com o fumo que ela me presenteara. “É da sua marca preferida”. Lembrava o cheiro de chocolate quente ao ser queimado. Ela gostava do cheiro, mas raramente fumava. “Você é o último sujeito que sabe fumar cachimbo sem parecer um maconheiro”, ela disse. Eu ri, sem jeito.
Por que tínhamos ido parar ali, eu me perguntava. A areia da praia começou a entrar nos meus sapatos. Incômodo. Não gosto muito de praia. O céu de chumbo e a ventania constante sugeriria uma tempestade próxima a algum desavisado, mas era o céu de quase sempre naquelas bandas em maio, quase inverno, cidade deserta. “Fala mais da sua namorada uruguaia”, ela disse, enquanto abria os braços como uma criança brincando com o vento. “Ela era bonita. Não tenho nada mais pra falar. Eu estava bêbado ontem, lembrei dela não sei porquê”. Ela parou, olhando pro mar e me dando as costas. “Não há nada mais bonito no mundo que esse mar quando o céu está assim”, ela disse. Era verdade. O mar, mesmo agitadíssimo, tinha a cor prateada, cintilante, de peixe recém pescado. “Talvez na Noruega”, eu disse. “Na Noruega os fiordes impedem o vento de deixar o mar dessa cor”. “Mais ao sul, talvez, então” eu disse. “Mais ao sul o mar não está assim, misturado com o rio. É o rio que dá essa cor ao mar”, ela disse. “As uruguaias não ficam com brasileiros. Eu venho aqui desde criança e sei disso. Por isso te perguntei.”, ela continuou, virando-se pra mim. “Eu não sou brasileiro”, eu disse. “Nunca fui porra nenhuma. Gaúcho, brasileiro, paulista, carioca. Porra nenhuma.” Com muito custo, consegui acender o cachimbo. Ela pegou na minha mão e continuamos a caminhada. Era a primeira mulher que tinha as mãos mais quentes que as minhas num dia frio. “Quantos graus deve estar?”, perguntei, meio sem assunto ou pensando em outra coisa. “Uns seis, sete. Com o vento, um, dois. Mas em Montevidéu deve estar mais quente.”, ela respondeu. “Era nessa praia que você veraneava?”, eu disse e ela respondeu que sim com um meneio. Eu nunca tinha perguntado nada sobre seu passado, nem ela jamais tinha dito qualquer coisa ou perguntado sobre o meu.
“Ontem você disse que não gostava de mulheres de olhos azuis, mas só tinha sido feliz com elas”, ela disse, virando-se e me interrompendo a passagem. Abaixou-se e desamarrou os tênis, descalçou-os e às meias de lã, o sobretudo arrastando na areia. “Você vai molhar os pés?”, perguntei, incrédulo. Ela dobrou a barra das calças até a altura dos joelhos e me puxou pela mão até a linha do mar, deixando o par de tênis para trás, no meio da areia. Continuamos caminhando, ela dentro da linha d’água, cada passada dos pés branquíssimos impressa e rapidamente apagada pelo vaivém da água, eu, um pouco afastado, sobre a faixa sólida da areia molhada. Andamos mais uns quinze minutos assim e voltamos ao lugar onde ela deixara os tênis. Apanhou-os, voltamos ao carro, eu alcancei-lhe uma toalha do porta-luvas. Ela limpou as pernas salpicadas de areia e voltou a calçar os pés. “Estou com fome”, ela disse.
Atravessamos a avenida em direção ao boteco em frente. Cumprimentamos o dono do bar e pedimos dois croissants recheados e uma jarra de tannat. “Antes, dois cognacs, Manolo”, ela pediu. Tiramos os sobretudos em silêncio e sentamos em frente à janela alta que dava para o mar. Fiquei reparando a decoração do lugar, como sempre faço. Motivos marítmos, sextantes, astrolábios, um timão de carvalho e um peixe espada empalhado num canto. Ela olhava para o mar, através da janela. Seu rosto, sempre branco, estava vermelho por causa do aquecimento recém ligado. Em volta dos olhos azuis cinzentos, uma aura rosada. “Agora você parece uma das holandesinhas do Vermeer, com esse nariz vermelho emoldurado pelo blusão”, eu disse amistosamente. Ela devolveu um sorriso que era um misto de agradecimento e timidez. “É muito injusto que você não goste de frio”, ela disse, por fim. “Podíamos ter ido a Colónia. Tenho uns amigos lá, também. E uma amiga que faz o melhor madrileño do mundo”, eu disse. “Depois de resolvermos o assunto, vamos lá também”, ela disse. “Não vamos conseguir resolver isso aqui”, eu disse. “Manolo, põe um tango pra mim”, ela pediu ao barman. Manolo foi até o fundo do bar - creio que era sua casa, também - e voltou com um vinil, que depositou delicadamente na vitrola e o som de uma versão instrumental de Ví Luz Y Subí preencheu suave o espaço. Ela abriu um sorriso quase infantil. “É minha preferida, Manolo sabe”. E era isso: a alternância entre a tristeza do dia de chumbo, o olhar de luto e, em seguida, o riso infantil, o rosto corado de criança saudável, de anjo barroco, era isso o que eu amava nela. “O sorriso mais bonito do mundo catalisado pela música mais triste do mundo”, eu disse. “É muito injusto que você não ame o frio, você devia. Ninguém mais no mundo devia tanto quanto você”, ela disse, terminando o conhaque de um gole. Terminei também o meu de um gole. “Sou incapaz de amar alguém que não me ame também. E o frio não gosta de mim”, eu disse com um tom empolado e zombeteiro. Tirei a petaca do bolso interno do sobretudo, desenrosquei a tampa e me servi de rum. Ofereci um pouco a ela, não quis. “E você? Amava a uruguaia?”, ela retorquiu, ignorando meu tom. “Sim.”, eu disse, quase sério.
“Se voltarmos para Porto Alegre, você vai me explicar essa história direito”, ela disse. “Como vamos fazer com teu marido? Quando descobrirem, estamos ferrados”, eu disse. Manolo, ao longe, não parecia interessado em nossa conversa, dois outros clientes acabavam de chegar. “Depois falamos sobre isso”, ela disse, ao olhar para os recém chegados e segurando minha mão. “Mas, se você quiser, pode passar uns meses na minha casa no Chubut”. “Nem pensar. Eu volto pra Porto Alegre ou pra São Paulo. No máximo, passo uns meses em Colónia, na casa dessa amiga argentina. Está muito frio. Inverno no Chubut, nem pensar”, eu disse, resoluto. “Nós não podemos ficar nem aqui, nem no Brasil. E eu não vou ficar meses sem ver você. Fora de questão”, ela disse. “Já pensou numa ilha na Polinésia?”, eu disse sem pensar. Ela devolveu um sorriso triste. “Viveremos como reis. Os nativos se prostarão e te tratarão como uma rainha. Morreremos de alguma misteriosa desinteria provocada por fungos de coco e carne de porco”, continuei. “Ou podemos comprar um junco na baía de Hong Kong e…”, mas não prossegui. Na beira da praia, um grupo de estudantes voltando das aulas chamou nossa atenção. Guarda-pós brancos e gravatinhas azuis imitando borboletas e os rostos felizes de crianças saindo da escola. “Liberdade”, eu disse, pensativo. Ficamos em silêncio observando as crianças passarem. “Eu vou pro Chubut com você, enterramos ele lá”, ela disse, por fim. “Não vamos conseguir passar mais uma alfândega com ele. Além do mais, eu odeio frio”, eu disse. “É muito injusto”, ela disse e segurou mais firme minha mão.
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