Zoológico é tudo igual

Mas o de São Paulo é diferente. Escrevi uma croniqueta uns tempos atrás sobre o zôo de São Leopoldo que visitei com o guri. Ainda lembro da visita e dos detalhes: o poço das lontras em que uma delas dançava hipnotizando os espectadores, uma aranha monstruosa tentando morder o vidro que a separava do dedão de uma criança menos comportada, o cheiro de primavera rebentando por todos os lados, a fascinação do guri com o trenzeco cacareco que chamam de metrô na minha cidade natal e o violino (que está encostado, esperando uma reforma numa das cordas que se partiu ano passado).

Hoje fomos ao zôo aqui da capitar, eu, ele e a filha de um primo meu que se mudou pra São Paulo ano passado. Linha verde até a Ana Rosa, linha azul até o Jabaquara, ponte ORCA até o zôo. Passeio de criança pobre, como o anterior. Era a primeira vez que a Vitória - a prima segunda ou terceira, vá saber - viajava de metrô e ficou fascinada, principalmente, com o barulho. Estávamos os três de chapéu na tentativa vã de nos protegermos do sol, como ingleses num safari no Quênia. A menina, esperta, já perdeu o hediondo sotaque do Moinhos de Vento de que os pais dela se orgulham como se de uma bandeira. Só usa o sotaque com os pais - como quem usasse sua língua materna apenas no abrigo do lar. “Rico, você compra uma casquinha pra mim?”, com aquela música maravilhosa que só as paulistanas e as brasilienses bem têm no falar. Sentamos os três sob as árvores pra trucidar a casquinha mais cara e mais chinfrim da cidade, cinco mangos por cabeça, só porque seria um crime inafiançável recusar um pedido feito no tom certo. O Magro, assolhado por ver os tigres, os ursos e as águias, ela, os leões, os hipopótamos e os macacos, principalmente esses. Resolvi que veríamos tudo, na mais direta ordem possível, o que nos rendeu umas quatro horas de caminhada através de todas as alamedas, debaixo de sol, apesar das muitas árvores do lugar, cada um com sua garrafinha de água debaixo do braço.

A palavra que me ocorre pra resumir o zôo de São Paulo já foi usada nesse texto, o que não recomendaria sua repetição. A sílaba inicial “chin” e a sílaba final “frim”, pronunciadas com um tom de escárnio - talvez com um bom e hediondo sotaque do Moinhos de Vento - servissem pra descrever corretamente o lugar: Alamedas sujas, bichos tristes, jaulas pequenas. Vimos gente trabalhando esforçada na manutenção do lugar, no cuidado dos bichos, pareciam interessados de verdade no que estavam fazendo (se bem que, recentemente, houve aquele problema dos envenenamentos), mas pareceu, até às crianças, que já conheciam também o outro zôo, que algo não estava ok por ali.

Voltamos pra casa por volta das quatro da tarde. Enquanto preparava um macarrão com almôndegas, deixei os dois vendo as aventuras de Marty, Mellman, Alex e Gloria no Madagascar: “Pai, os bichos do zôo também querem voltar pra Natureza, que nem o Marty?”"Rico, os pingüins de São Paulo não dão tchauzinho”.

Os pingüins de São Paulo não dão tchauzinho vai pro meu caderno de frases.

Depois não sabem porque em todas as festas de família eu sempre vou falar com as crianças e não volto.

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