Obrigado, Mr. Jack London
Por Láudano Sine Nauta NavisFoi um finzão de ano movimentado e continua sendo nesse início de novo ano. Tão movimentado que não deu nem pra ligar pra maioria das pessoas de quem eu gosto (e muitas vezes liguei, estava ocupado, não atendeu, etc, e não insisti) e toda essa coisa. Sentar pra escrever email, nem pensar. Sexta-feira, véspera de Natal, embarquei pra Porto Alegre prum bate-e-volta na segunda seguinte, trazendo o Magro pra uns dias de paulistanada. Assim que, se algum de vocês me vir pela rua com um guri de óculos do lado, não, eu não virei pedófilo ou professor do jardim de infância, seu retardado. Sim, é o meu filho e, sim, estamos nos divertindo às pampas in so far.
Pois uma das coisas que ficou combinado, ainda em Porto Alegre, é que o guri leria ou brincaria com seus playmobils nos momentos em que estou traduzindo ou escrevendo. “Ah, eu tenho preguiça de ler esses livros grandes, pai”. Esses dias ele leu - e gostou - um livro sobre Robin Hood que ganhou da minha (amada) tia que me presenteou os primeiros Júlio Verne quando eu tinha a mesma idade que ele. Um livrinho ilustrado, com bem poucas letras por centímetro quadrado, se é que me faço entender. E aí, o impasse, pois em toda a biblioteca da casa, era o único desse gênero (afora os quadrinhos, claro, mas ele não gosta muito de quadrinhos - nem eu).
Na mesma segunda de manhã, ele reparou no action figure do Allan Poe que está na frente dos livros em francês (piadinhas rasteiras, trabalhamos) e eu pensei “um gancho”. Contei pra ele uma versão edulcorada da história do Poe e expliquei que o meu bonequinho do Poe tem um corvo no ombro por causa do poema que, yo, abrimos em seguida pra ler, duma tradução que tenho. Ele acompanhou a leitura perguntando o que eram algumas das palavras que desconhecia e disse um “legal” sem muita ênfase. Abrimos outros livros - ele queria ver o que eu tinha do Kipling, o cara que escreveu o Mowgli - e não ficou muito emocionado com a minha edição de O Homem Que Queria Ser Rei.
Eu tinha comprado pra ele alguns livros pras férias: Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, O Escaravelho do Diabo de Lúcia Machado de Almeida, O Gênio do Crime de João Carlos Marinho e O Chamado Selvagem (da Floresta, nessa edição) de Jack London.
Pois colou. Estamos quase no fim do London e ele está fascinado com a história do Buck e meio chateado (acabou de me contar) que agora ele e os seus companheiros estão nas mãos de três sujeitos muito inexperientes na neve.
Pois estamos, desde que ele chegou, jogando bola, andando de bicicleta, vendo filmes (ele gostou muito do primeiro episódio da série Cosmos, especialmente da parte que narra como um grego descobriu em Alexandria, 200 anos antes de Cristo, que a Terra era redonda e qual era o seu diâmetro), botando o papo em dia, lendo Jack London e descobrindo o porquê de São Paulo ter um bairro inteiro chamado Liberdade. Espero que o guri esteja se divertindo, porque estou me divertindo às pampas.
Um bom ano procêis.
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