Arquivo de agosto de 2005
Don Pizzica
23 de agosto de 2005
Uns meses atrás comecei a escrever uma história mais ou menos assim:
“Era como se ela carregasse toda a tristeza de duas gerações nos olhos. A gente olhava para ela, para o azul daqueles olhos, e era isso que aparecia: Um penedo despencando mar a dentro, um pastor assoviando para juntar ovelhas feias e baças, estradinhas poeirentas varadas por caminhões de partida manual, a luz refletindo no mar e no monte Étna, agricultores do interior quase esfarrapados embarcando em Reggio di Calabria numa terceira classe de vapor para fazer a América.
Ela era, milímetro por milímetro, detalhe por detalhe, linda. Assim eu a via, pelo menos: o incomum do azul cinzento dos seus olhos, o cabelo cor de trigo na colheita, o nariz arrebitado e o sorriso que evocava tardes ensolaradas de primavera. Não é preciso dizer que eu era louco por ela.”
E desisti, depois de ler e reler esses dois parágrafos. Era pra ser um conto, creio, e o intuito, mais além de contar uma história, era o de acompanhar o ritmo da canção que dá título ao post. Pelo menos a idéia inicial era essa, mas morreu na tela e no “Arquivo-Salvar”, acompanhado pela batida seqüencial dos dedos sobre a mesa, enquanto as luzes da Grande Garrafa de Guaraná se apagavam na Doutor Arnaldo, avisando que chegara a meia-noite e o dia de trabalho me esperava a partir das seis da manhã.
Hoje, alguns meses depois, reabri o arquivo e fiquei pensando em onde queria chegar com essa história, que tem um cheiro de coisa escrita por um bêbado num estilo imitando Danielle Steel ou algum outro sub-escritor no gênero e não consigo imaginar de qual canto despedaçado do meu cérebro teriam saído essas frases. Mas o fato é que elas ali estavam, encadeadas, apontando para o nada como um velho canhão de cidadela portuguesa do século 16, o bote certeiro de um tigre empalhado ou uma metáfora do presidente Lula.
Antigamente eu produzia papéis assim, eu pensei, agora são esses fantasmas que terminam em algum sub-sub-sub-diretório, esperando algum destino. Quantas palavrosas e ridículas epopéias não foram abortadas da mesma forma por aí?
Essa, talvez, seja a maior vantagem do papel. O ridículo, no papel, não tem futuro. Quando está na tela do monitor, sempre há essa tentação de se reaproveitar o assunto, como alguém que quisesse consertar os braços de uma Vitória de Samotrácia de gesso, dessas que vendem na 25 de Março. E, como dizia aquela peça do Beaumarchais: tout finit par des chansons.
Ah, não tem nada a ver com o assunto, mas ele não acha São Paulo a cidade mais feia do mundo. Um adorável puxa-saco. Conheço uma brasiliense que vai discordar de cada linha do artigo.
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Venha ver, Eugênia
19 de agosto de 2005

Reuters
Eu me lembro que uma vez você me disse, que o dia em que demolissem o viaduto… Que tristeza, você usava luto, arrumava sua mudança e ia embora pro interior… Quero ficar ausente, o que ozóio não vê, o coração não sente.
Queimaram nosso viaduto, viu? :_/
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La Vèspre da la Noça
19 de agosto de 2005Agora sim estouraram a banca, destamparam o panelão de pandora, pegaram macunaíma no matinho.
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Explicação se dá pra porteiro
16 de agosto de 2005A ausência no último mês se deve a uma combinação de várias coisas: mudança de emprego, visitas por causa do dia dos pais, traduções e faltas de tempo em geral.
Mas tem muita coisa boa acontecendo por aí. Finalmente, a década bundona decolou: Quem não viu ainda Sin City (que eu e a alemoa vimos há uns dois meses, em pré-estréia) é um bundão (eu, que sempre tive nojo de HQs do Frank Miller e a qualquer teorização sobre HQs e achava o mexicano este um sujeito muito, mas muito overrated mesmo, rendo minhas homenagens - com os cinco dedos - ao filme).
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