Don Pizzica
Por Láudano Sine Nauta Navis
Uns meses atrás comecei a escrever uma história mais ou menos assim:
“Era como se ela carregasse toda a tristeza de duas gerações nos olhos. A gente olhava para ela, para o azul daqueles olhos, e era isso que aparecia: Um penedo despencando mar a dentro, um pastor assoviando para juntar ovelhas feias e baças, estradinhas poeirentas varadas por caminhões de partida manual, a luz refletindo no mar e no monte Étna, agricultores do interior quase esfarrapados embarcando em Reggio di Calabria numa terceira classe de vapor para fazer a América.
Ela era, milímetro por milímetro, detalhe por detalhe, linda. Assim eu a via, pelo menos: o incomum do azul cinzento dos seus olhos, o cabelo cor de trigo na colheita, o nariz arrebitado e o sorriso que evocava tardes ensolaradas de primavera. Não é preciso dizer que eu era louco por ela.”
E desisti, depois de ler e reler esses dois parágrafos. Era pra ser um conto, creio, e o intuito, mais além de contar uma história, era o de acompanhar o ritmo da canção que dá título ao post. Pelo menos a idéia inicial era essa, mas morreu na tela e no “Arquivo-Salvar”, acompanhado pela batida seqüencial dos dedos sobre a mesa, enquanto as luzes da Grande Garrafa de Guaraná se apagavam na Doutor Arnaldo, avisando que chegara a meia-noite e o dia de trabalho me esperava a partir das seis da manhã.
Hoje, alguns meses depois, reabri o arquivo e fiquei pensando em onde queria chegar com essa história, que tem um cheiro de coisa escrita por um bêbado num estilo imitando Danielle Steel ou algum outro sub-escritor no gênero e não consigo imaginar de qual canto despedaçado do meu cérebro teriam saído essas frases. Mas o fato é que elas ali estavam, encadeadas, apontando para o nada como um velho canhão de cidadela portuguesa do século 16, o bote certeiro de um tigre empalhado ou uma metáfora do presidente Lula.
Antigamente eu produzia papéis assim, eu pensei, agora são esses fantasmas que terminam em algum sub-sub-sub-diretório, esperando algum destino. Quantas palavrosas e ridículas epopéias não foram abortadas da mesma forma por aí?
Essa, talvez, seja a maior vantagem do papel. O ridículo, no papel, não tem futuro. Quando está na tela do monitor, sempre há essa tentação de se reaproveitar o assunto, como alguém que quisesse consertar os braços de uma Vitória de Samotrácia de gesso, dessas que vendem na 25 de Março. E, como dizia aquela peça do Beaumarchais: tout finit par des chansons.
Ah, não tem nada a ver com o assunto, mas ele não acha São Paulo a cidade mais feia do mundo. Um adorável puxa-saco. Conheço uma brasiliense que vai discordar de cada linha do artigo.
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