De Antequera Partió El Moro
Assim começa um dos romances espanhóis do século XV que tenho escutado ultimamente. Conta a história de um ancião de cento e vinte anos que viaja de Antequera a outra cidade na Espanha para avisar ao califa do cerco da cidade. Cerca-se de todos os cuidados, viaja com apenas um pajem, pede a vênia e clemência do califa - “Yo te las diré, buen rey, si tú me otorgas la vida” - para relatar os acontecimentos. Na medida em que o velho vai contando sua história, vai-se percebendo que, não apenas a cidade está perdida, mas que sua reconquista será, virtualmente, impossível. Assim mesmo, os mouros reúnem um exército de oitenta mil de infantaria e cinco mil cavaleiros (segundo o romance) em socorro da cidade sitiada. Antequera, uma cidadezinha desimportante no sul da Espanha, entre Málaga e Granada, torna-se, por causa de um romance transmitido por tradição oral, uma das principais referências quando o assunto é a reconquista cristã da península Ibérica.
O interessante neste romance, é a perspectiva da narrativa: São mouros contando a história de sua derrota frente aos espanhóis, o que, de certa forma, os devolve à esfera da humanidade no olhar do público da narrativa, o populacho castelhano que os vence.
“Escritas iban con sangre, más (sic) no por falta de tinta. “, diz o narrador, logo no início da história, referindo-se às cartas que o ancião porta e essa frase me tem ecoado na cabeça dia e noite.
Parece que está faltando, nessa história do Lula, um mouro de cento e vinte anos que diga pro califa que - bem - Antequera já foi pro vinagre, vossa excelência.
Vista aérea de Antequera, se alguém ainda se interessar.
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