Talvez

Por Láudano Sine Nauta Navis

Das muitas razões pelas quais, talvez, seja bom viver, uma delas são as coincidências. Aí está você esquerdista, integralista, darwinista, neocon (p* no c* dos neocons) ou simplesmente um sujeito sem maiores partidos, vivendo sua vidinha, pagando o condomínio, a luz, a água em dia (ou, se você for integralista, quase sempre deixando os mesmos para seus pais pagarem), e uma criança, cuja mãe entra em licença por este motivo, nasce em algum lugar distante.

Procuram alguém para substituí-la e escalam a você, que de uma sexta-feira até a outra quarta, entre a notícia e compra de passagens e o desembarque, está numa grande cidade a dez horas de vôo de distância de sua casa, instalado num hotel simples numa região turística, quase um Jardins ou Ipanema, uma Cidade Baixa, talvez. Você conhece o idioma do lugar, talvez genericamente, e é capaz de se locomover moto proprio, onde quer que queira. Decide tomar um café - você, pelo menos, considera-se civilizado à moda antiga e despreza gente que se entupa de comida rápida em lanchonetes que fedem a detergente, seja de quais partidos forem - num dos muitos cafés ao ar livre da cidade e conhece, talvez por acidente, duas sino-canadenses do Quebec, perdidas com o idioma. Oferece-se como intérprete, troca impressões sobre o lugar onde estão, falam amenidades e bobagens engraçadas até que alguém, talvez de outra mesa o confunde (pela barba, talvez) com um sujeito mais ou menos conhecido no país, um escritor da nova geração, para ser mais preciso.

Elucidado o equívoco, você se apresenta também como escritor (vanitas vanitatis), o que vale um “que coincidência”, prontamente respondido com um sorriso sincero de sua parte. A mi me encantan las coincidencias. As pessoas que o confundiram com o outro escritor sentam-se à sua mesa e em minutos, você passa de um sujeito só num café a um escritor estrangeiro com quatro novos amigos, dois do país e duas estrangeiras. Combinam um passeio com as canadenses, estudantes de arqueologia, que precisam ir ao hotel e você sai com os dois novos amigos, uma publicitária e um “periodista” para conhecer outros bares e outros lugares da cidade.

Quando sentam num café animado, no bairro boêmio, alguém cumprimenta seu amigo periodista e toma lugar na mesa. Em segundos você descobre que esse alguém é um dos roteiristas de um dos filmes que você mais gostou nos últimos tempos. Começam a falar de literatura, das coincidências, de cinema e tecnologia, recomendam-lhe uma série de escritores locais (que você toma nota, para verificar depois) da nova geração. Mostram-se conhecedores da cultura de seu país (muito mais que você da deles) e lhe pedem recomendações de novos escritores, pois, veja só, todos na mesa também lêem em português e têm curiosidade sobre o país de onde você vem. Você recomenda alguns dos jovens que crê são os mais representativos da atual safra de escritores do país, além de outros autores que julga bacanas.

Concordam que, talvez, Emir Kusturica e Julio Medem sejam os melhores cineastas vivos, lamentam a dificuldade de intercâmbio de bens culturais entre os dois países e outras amenidades. Você bebe até duas esquinas antes da indelicadeza e volta pro hotel, com a sensação de que talvez esteja dentro de um liquidificador nos últimos dias e que isso é bom. Talvez.

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