Ela comia lixo
Por Láudano Sine Nauta NavisQuando voltamos do Rio, minha irmã no colo da mãe, meu pai com a barba por fazer a meses, em algum dia dos anos 70, a casa da minha avó parecia pequena, pequena. Nos acomodamos num sofá-cama que rangia e era desconfortável, de couro ou corvim azul, feio à beça, meio triste. Chegamos exatamente no meio do inverno, deixando pra trás o calor da casinha carioca suburbana - zona norte - para cair no nem tão rigoroso inverno de Porto Alegre, que eu ainda não conhecera, pois deixáramos a cidade rumo a São Paulo em algum maio antes do meu primeiro aniversário.
Minhas primeiras lembranças são todas anteriores a estas de Porto Alegre e são todas ensolaradas, um dia numa ladeira carioca, um pátio com dois cachorros enormes que, descubro nas fotos quadradas e descoloridas, eram apenas dois cachorros medianos, um gato que eu carregava desajeitadamente pelos canteiros de minha mãe, uma praia com pedras enormes, uma linda roda de capoeira, cheia de gente sinceramente feliz, meu pai dizendo pra eu pedalar com mais força o jipe de aço e pedais na ladeirinha da garagem de casa, e são todas de São Paulo, Rio ou do interior do Paraná. Esses dias me dei conta de que não esqueci ainda dessas cenas por serem as únicas lembranças que me restam do meu pai.
Porto Alegre era um lugar onde dormíamos num sofá azul, e também um lugar chuvoso, frio, pequeno, devo ter pensado, se é que eu pensava aos 4 anos de idade. O primeiro dia de sol em Porto Alegre que guardo na memória foi justamente um em que ralei os dois joelhos no paralelepípedo do Monumento dos Açorianos, a primeira coisa que achei bonita na cidade. Ia puxado pela mão por alguém que estava com pressa de voltar pra casa e se safar do sol forte e teria, talvez, cinco anos, mas ainda não estava na escola. Sempre moramos no Centro Velho.
Foi nesse dia, com os dois joelhos sangrando, que a vi pela primeira vez. Ela estava do outro lado da Perimetral, no lago dos Açorianos, tomando banho, rodeada de uns dez cachorros magros e sarnentos. Atravessamos a avenida, talvez por acidente, num ponto em que era inevitável cruzar próximo a ela e à sua matilha. Eu perguntei quem ela era e porque estava tomando banho no lago, acho. “Ela é louca, guri, cuidado”. Não sei se eu pensava naquela época, repito, mas me pareceu fascinante que ela, que talvez tivesse a mesma idade de minha avó naquela época, estivesse ali, tomando banho no lago de águas verde musgo, nua, alheia a tudo, rodeada de cachorros, fedendo mesmo à distância. “O que é louca, Bernardete?”. “É uma mulher velha que toma banho nua num lago” - minha prima respondeu.
Fui crescendo e ela continuou sendo a louca do bairro por vários e vários anos. Alguém, um tempo depois, me disse: “Ela não morre, ela é velha, velha, está aqui há duzentos anos”. “Ela come lixo”. “Ela faz sujeiras com os cachorros”. “Se ela te morder, tu vai ter de tomar 23 injeções no umbigo”. Ela comia lixo e berrava com as pessoas de que não gostasse. Um dia, como os urubus ou os amigos de infância, sumiu sem deixar rastro. Mas eu sei que ela está viva, comendo lixo e fazendo sujeira com os cachorros. Seja lá o que isso signifique.
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