Arquivo de dezembro de 2004

Last word

23 de dezembro de 2004

“There is nothing more disenchanting to man than to be shown the springs and mechanism of any art. All our arts and occupations lie wholly on the surface; it is on the surface that we perceive their beauty, fitness, and significance; and to pry below is to be appalled by their emptiness and shocked by the coarseness of the strings and pulleys.”

Este “querido diário” está de férias até algum dia em janeiro de 2005. Foi um ano excelente, que começou em 2003, em alguma tarde ensolarada em Santo André. Espero que tenha sido assim pra maioria de vocês, etc. Bebam bastante champã por mim e digam coisas engraçadas e simpáticas pras pessoas de que gostem, afinal, essa é uma época tão imensamente chata pra quem não tem crianças pequenas que não custa ser bacaninha com os seus entes queridos, etc, mesmo aquele parente xarope que sempre constrange todo mundo.

Estarei em Porto Alegre até a manhã do dia 26 e mais ou menos incomunicável. Anyways, deixe seu recado no “mande seu desaforo” ali em cima ou pro endereço novo. Do 26 ao 2 de janeiro, espero estar em algum lugar em que internet só chega via satélite e ninguém dá muita bola pra essas coisas de “comunicação”.

O entre-aspas acima é um livrinho de um dos meus heróis que não morreu de overdose, a série que está avançando a duras penas no HD desta máquina de que me despeço ao apertar o botão “publish post” que só quem tem blog no blogger conhece.

Para os aficcionados do precioso que me virem online lá, eu estou, mas compartilhando só com gente da minha lista. Minhas máquinas nunca desligam, mesmo quando falta energia elétrica. Croyez-moi.

Até janeiro.

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Silêncio

18 de dezembro de 2004

Dias de silêncio por aqui e nem é porque a vida esteja me entretendo mais que este diário ou coisa que o valha. Talvez uma pura falta de assunto, mas não faltam assuntos de que se falar ou nenhum deles tem lá essa importância. Hoje foi um dia especialmente estranho, pensando bem, mas se aproximam as férias e mais uma viagem, dessas mais convencionais, no Natal para Porto Alegre e já no dia 26 pra outros lados, com minha mãe e o magro.

Hoje revi uma das pessoas que mais admiro nessa cidade e que, enfim, não vejo muito por essas coisas da vida, como as de chegar quase sempre depois das oito em casa, moído, sem muito saco pra nada que não seja ler, falar com algum amigo pelo computador, batucar qualquer bobagem perdida nos muitos projetos inacabados. Perdi outro prazo na vida e passei em outro concurso disputado, tudo hoje. Tenho notícias de amigos distantes que também estão bem e conseguindo o que querem, parece que a vida vai rolando num remanso. Como disse noutro post, algum tempo atrás, é a hora de aproveitar a paisagem. Mudei de email, em definitivo, quem tinha meu antigo, terráqueo, não se surpreenda de receber um “usuário desconhecido” como resposta. Tenho uns três ou quatro posts inacabados nos rascunhos do blogger e uma preguiça imensa de os concluir. Até porque, de certa forma, são inúteis e gratuitamente “polêmicos” e talvez ofendam algumas das pessoas de que gosto, por nada mais do que a vontade de dizer que acho muitas das coisas que tenho lido por aí idiotas ou pífias. Escritas por gente que admiro ou admirei alguma vez - não a acima referida. Enfim. Berrar sozinho é uma característica dos cretinos que eu não estou mais disposto a abraçar. Por enquanto.

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Ela comia lixo

7 de dezembro de 2004

Quando voltamos do Rio, minha irmã no colo da mãe, meu pai com a barba por fazer a meses, em algum dia dos anos 70, a casa da minha avó parecia pequena, pequena. Nos acomodamos num sofá-cama que rangia e era desconfortável, de couro ou corvim azul, feio à beça, meio triste. Chegamos exatamente no meio do inverno, deixando pra trás o calor da casinha carioca suburbana - zona norte - para cair no nem tão rigoroso inverno de Porto Alegre, que eu ainda não conhecera, pois deixáramos a cidade rumo a São Paulo em algum maio antes do meu primeiro aniversário.

Minhas primeiras lembranças são todas anteriores a estas de Porto Alegre e são todas ensolaradas, um dia numa ladeira carioca, um pátio com dois cachorros enormes que, descubro nas fotos quadradas e descoloridas, eram apenas dois cachorros medianos, um gato que eu carregava desajeitadamente pelos canteiros de minha mãe, uma praia com pedras enormes, uma linda roda de capoeira, cheia de gente sinceramente feliz, meu pai dizendo pra eu pedalar com mais força o jipe de aço e pedais na ladeirinha da garagem de casa, e são todas de São Paulo, Rio ou do interior do Paraná. Esses dias me dei conta de que não esqueci ainda dessas cenas por serem as únicas lembranças que me restam do meu pai.

Porto Alegre era um lugar onde dormíamos num sofá azul, e também um lugar chuvoso, frio, pequeno, devo ter pensado, se é que eu pensava aos 4 anos de idade. O primeiro dia de sol em Porto Alegre que guardo na memória foi justamente um em que ralei os dois joelhos no paralelepípedo do Monumento dos Açorianos, a primeira coisa que achei bonita na cidade. Ia puxado pela mão por alguém que estava com pressa de voltar pra casa e se safar do sol forte e teria, talvez, cinco anos, mas ainda não estava na escola. Sempre moramos no Centro Velho.

Foi nesse dia, com os dois joelhos sangrando, que a vi pela primeira vez. Ela estava do outro lado da Perimetral, no lago dos Açorianos, tomando banho, rodeada de uns dez cachorros magros e sarnentos. Atravessamos a avenida, talvez por acidente, num ponto em que era inevitável cruzar próximo a ela e à sua matilha. Eu perguntei quem ela era e porque estava tomando banho no lago, acho. “Ela é louca, guri, cuidado”. Não sei se eu pensava naquela época, repito, mas me pareceu fascinante que ela, que talvez tivesse a mesma idade de minha avó naquela época, estivesse ali, tomando banho no lago de águas verde musgo, nua, alheia a tudo, rodeada de cachorros, fedendo mesmo à distância. “O que é louca, Bernardete?”. “É uma mulher velha que toma banho nua num lago” - minha prima respondeu.

Fui crescendo e ela continuou sendo a louca do bairro por vários e vários anos. Alguém, um tempo depois, me disse: “Ela não morre, ela é velha, velha, está aqui há duzentos anos”. “Ela come lixo”. “Ela faz sujeiras com os cachorros”. “Se ela te morder, tu vai ter de tomar 23 injeções no umbigo”. Ela comia lixo e berrava com as pessoas de que não gostasse. Um dia, como os urubus ou os amigos de infância, sumiu sem deixar rastro. Mas eu sei que ela está viva, comendo lixo e fazendo sujeira com os cachorros. Seja lá o que isso signifique.

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