Meus heróis não morreram de overdose
Por Láudano Sine Nauta NavisEle nasceu em um buraco da América do Sul, como a maioria de nós, algumas semanas antes da chegada da gripe espanhola, de pai de origem castelhana e mãe índia. Mudou-se com a família para a Europa aos sete anos. Em 1928, descobre o jazz, com Duke Elington e Louis Armstrong e decide tornar-se músico. De 1930 a 1936, adolescente, exerce uma miríade de pequenos ofícios para ajudar no orçamento da família e comprar instrumentos musicais. Apresenta-se em cafés e obtém algum sucesso. Em 1933, ainda imberbe, começa a tocar em cabarés e botecos bas-fond. Em 1935 é contratado por um músico conhecido do lugar. Sem formação musical, toca de ouvido.
Em 1939, em idade para o serviço militar, parte para a guerra, como todos. Fere-se na retirada de Dunquerque. Em 1941, os alemães senhores do país, volta ao seu país adotivo através da Espanha e se instala numa cidade da costa do Mediterrâneo. É contratado por uma grande orquestra americana, em tour pelas regiões não ocupadas pelo 3º Reich, que inicia, em seguida, uma longa tournée pela América do Sul. Chega ao Rio de Janeiro no natal de 1941. Fica no Brasil até o fim da guerra, tocando violão e trompete e cantando para a soldadesca americana estacionada nas bases militares do sub-continente e, nos teatros do país, para a platéia local.
Finda a guerra, volta à Europa e a se apresentar com grande sucesso. Em 1946, monta sua própria orquestra e ganha diversos prêmios na Europa e na América do Norte, onde é conhecido e admirado. Em 1956, vai aos Estados Unidos para uma temporada mais longa e passa duas semanas como convidado especial no programa de televisão de Ed Sullivan. Na volta, em 1957, inicia uma prolífica parceria com um dos mais importantes compositores europeus do período, parceria que resulta em mais de 400 composições, muitas gravadas e regravadas até hoje em diversos idiomas. É um dos primeiros sujeitos a gravar um disco de roquenrol na Europa, em 1957. O ritmo, pouco conhecido no continente naquele então, resultou num registro engraçado com dois ou três clássicos citados em diversos trabalhos contemporâneos.
Em 1961, monta o primeiro programa dedicado à música popular numa televisão européia, que dura até 1965. Em 1962, desconfortável com o mercado fonográfico, funda uma pequena gravadora que dura até meados dos anos 80. Em 1971 assina a trilha sonora de um filme americano conhecido, tendo gravado algumas trilhas sonoras sob encomenda. Em 1968, volta à TV com outro programa. Em 1972 lança uma coleção de discos para crianças que é, para os pequenos do país aquilo que para os brasileiros dos anos 70 foi a série Disquinho. Continua gravando discos de jazz e música popular, regularmente, até 1978, quando, sexágenário, entra em férias de 2 anos, retomando a carreira musical em 1980. Em 1985 lança um disco que leva seu nome e ganha um prêmio como melhor humorista do país.
Em 1988, volta à TV com um programa em horário nobre que dura até 1994. Nova pausa para descanso. Em 2000, em parceria com músicos da nova geração, compõe e grava um disco com uma “allure” bossa nova, que ganha o disco de ouro em duas semanas depois de lançado e é, provavelmente, o melhor disco de jazz da década ainda por findar. Em 2002, octagenário, inicia uma tournée mundial, com apresentações lotadas em grandes salas de Toquio, Nova Iorque, São Paulo, Paris e outras cidades de nota. Nesse mesmo ano, volta pela primeira à sua terra natal, para uma apresentação na capital do país.
A tournée durará até 2007, ano em que ele pretende tirar umas férias. Ao pensar que, mesmo sendo um consumidor de jazz - e música em geral - em doses um pouco maiores que a maioria dos meus conhecidos e convivas, eu só fui conhecer o personagem acima na metade do ano passado me faz pensar que a ignorância (a minha, a minha) tem lá suas vantagens: Quantas histórias dessas eu ainda desconheço? Ah, viver vale a pena, sim. Valeu, guria, essa eu te devo.
Se esse cara cantasse em inglês, seria deus.
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