Assim se lincha um homem

Por Láudano Sine Nauta Navis

A notícia é velha, mas, com certeza, pouca gente leu. Lembro do espanto e certa comoção que causou no RS o caso. À época, como hoje, todos no estado sabíamos que a maneira mais fácil de lavar ou evadir dinheiro, etc, é por Santana do Livramento, colada à uruguaia Rivera e sua avenidinha 33 Orientales, e depositar tudo numa agência do Caja Obrera ou do Galícia. Um milhão de dólares enviados de uma só vez a uma casa de câmbio na minúscula Livramento provocaria comentários, etc, mas, enfim, estava na revista, deu na TV: Em resumo, era ‘verdade’.

O comentário de um conhecido meu sobre o fato foi: ‘Brasília estraga as pessoas’, pois até então jamais se desconfiara da probidade do Ibsen Pinheiro, apesar de ele provocar uma certa antipatia na maioria dos seus concidadãos. Devem ter sido dez anos difíceis pro cara. Até hoje não tinha visto um jornalista admitir publicamente um erro de tal monta.

O preço? Cerca de 100 mil reais (30 mil dólares) que custaria a reimpressão de todas as um milhão e duzentas mil capas da revista já rodada. Esse era o preço do linchamento para a revista Veja.

É triste.

- Houve um momento, no meio de todo aquele furacão, em que eu tomei uma decisão: convenci-me que a melhor coisa que podia fazer por mim seria não morrer. Eu não poderia simplesmente ter um enfarte e morrer; dar um tiro na cabeça ou sucumbir a um câncer, se ele fosse diagnosticado em meu corpo. Tomei a decisão política de não morrer para ver até onde iria tudo aquilo, até onde eu resistiria e como seria o meu restabelecimento pessoal e público.

(…) A confissão desse processo de regresso a um estado de paz interior consigo mesmo foi feita por Ibsen em uma conversa que tivemos, na sala de seu apartamento em Porto Alegre, no ano de 2000. Estávamos ali eu, ele e sua mulher, Laila, companheira dos melhores dias e dos mais torturantes momentos. Olhei em volta, mirei alguns pratos de louça dourada sobre uma cômoda, uma almofada de crochê sobre uma cadeira de balanço, três ou quatro bibelôs dentro de uma cristaleira espartanamente arrumada. ‘Meu Deus’, pensei em silêncio. ‘Este apartamento está decorado à semelhança da casa de meus avós, de meus pais. Um dia eu fui capaz de escrever que esse homem, que essa mulher tinham se tornado milionários - e olha aqui: são plácidos avós, marcados pela vida, mas ainda sólidos.’ Não revelei, na hora, aquela sensação que me provocava desconforto, mas passei a me perguntar como poderia fazer um gesto que tentasse reparar as injustiças que, involuntariamente, mas cúmplice, ajudei a perpetrar. Meu maior patrimônio é a credibilidade de que gozo como jornalista profissional e, de alguns anos para cá, como consultor de comunicação. Escrever este relato, absolutamente fiel a tudo o que vivi, foi a melhor maneira que encontrei de repor a verdade - a verdade que testemunhei.”

A história completa está aqui. Leiam, leiam.

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