Arquivo de agosto de 2004

Si dejo elegir a mis pies

31 de agosto de 2004

Éramos todos recém-chegados naquele agosto. Eu, ela e o guri. Na verdade, eu e ela voltávamos, o guri é que ia estrear na cidade. Ele veio num aviãozinho, de Rivera, no Uruguay, ainda na barriga, até o Salgado Filho. Foi um agosto quente, muito quente, e comentávamos que o guri ia ter sorte, pois nasceria num ano em que o inverno resolvera ser amigo dos locais. Começou no sábado, 29: estávamos no zôo com minha sobrinha e minha mãe, quando ela pôs a mão sobre o macacão de grávida. No rosto, um muxoxo que eu ainda não conhecera nela. Começou, pensei.

Depois foram três visitas ao hospital, até que na segunda, 31, um dia estupendo começando lá fora, fomos para a sala de parto. Não havia dilatação suficiente, o guri começava a sofrer, decidiram por uma cesariana. Dei a autorização para a cirurgia e, ainda pela manhã, o guri, empapado de sangue e muco, começava a berrar. As pernas minúsculas ainda dentro do corpo da mãe, e ele berrando. Na mesa de operação ao lado, outro bebê também começava a berrar a plenos pulmões. Fábrica de bebês, pensei. As paredes verdes, as roupas verdes que todos - mesmo eu - vestiam, os sorrisos nervosos e mecânicos dos sujeitos que estavam trabalhando na cena. Senti um engulho estranho, um aperto no estômago, uma certa vertigem, enquanto livravam o guri do sangue e do muco e traziam-no até nós, as paredes e as roupas verdes pulsando.

Ele parara de chorar e com os dois olhos azuis baços, como o dos gatos recém-nascidos, nos olhou, talvez espantado, no colo da enfermeira. Oi, cara, eu e ela dissemos pra ele. Ou outra coisa assim. Eu tenho certeza que sim, mesmo que todos os cientistas do mundo digam que não, ele esboçou um sorriso, olhando bem no fundo dos olhos da mãe. Ele parecia um feijão branco, meio curvado daquele jeito, no braço da enfermeira que o esticava pra que o víssemos de perto pela primeira vez. Foi o primeiro apelido do magro. Feijãozinho. Não pegou. Feliz aniversário, guri.

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Medos

18 de agosto de 2004

Essas coisas me dão algum medo com relação ao povo Open Source.

“I am a dictator, but it’s the right kind of dictatorship. I can’t really do anything that screws people over. The benevolence is built in. I can’t be nasty. If my baser instincts took hold, they wouldn’t trust me, and they wouldn’t work with me anymore. I’m not so much a leader, I’m more of a shepherd.”

Programe, sósia, programe.

Valeu, Ariel.

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Esquinas

17 de agosto de 2004

E lá estava eu, com minha empáfia e minha ignorância decidindo para qual das três opções (retroceder, jamais, etc) seguiria na esquina. Atravessar a rua à direita, seguir adiante ou dobrar na calçada à esquerda? Tinha embaixo do braço um volume de Napoleón Ponce de León, uma pasta de couro surrada e uns trocados no bolso. Enquanto pensava nos três meses de férias que a esquadra de Magalhães tirou no meio do Atlântico, esperando pelos ventos que os levassem até o Sul e dali às Molucas, tive um daqueles momentos que os romances imputam aos que estão morrendo: o tal filminho em que passa toda a vida do sujeito, em alguns segundos. Vi um amanhecer escaldante da primeira infância no Rio de Janeiro, vi as pedras na beira da praia em Paquetá, vi meu pai empunhando orgulhoso algo que creio fosse uma cuia de chimarrão, vi um pátio cimentado numa ladeira duma cidadezinha no interior do Paraná, vi um gato verde (cinza sujo, quase esverdeado) e um cachorro enorme, preto e com cara de imbecil, vi um trenzinho alemão e uma maquete de prédio em construção em nossa casa em Moema, vi o sorriso de uma menina num café da Usina do Gazômetro.

Vi uma anêmona no fundo do mar, balançando compassada, vi uma tarde de primavera na Dieciocho de Julio e, depois, outra de inverno, vi meu avô cuidadosamente apertando algum ferro delicado na morsa pequena, vi minha mãe com uma saia que caía graciosa até uns dois dedos abaixo do joelho, vi uma partida de pebolim pela perspectiva de quem o está jogando, vi patos recém nascidos pulando de um cinamomo atingido por um raio, vi centenas de lambaris presos, batendo-se entre a grama devido a um vazamento de açude depois uma semana de chuva na cabeça, vi um nascimento e outro e outro.

O sinal abriu, segui em frente, automático. Parei na padaria do lado oposto: “Uma taça de café madrilenho, por favor”. “Como?” “Um carioca grande, por favor, com um croissant recheado”.

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Assim se lincha um homem

14 de agosto de 2004

A notícia é velha, mas, com certeza, pouca gente leu. Lembro do espanto e certa comoção que causou no RS o caso. À época, como hoje, todos no estado sabíamos que a maneira mais fácil de lavar ou evadir dinheiro, etc, é por Santana do Livramento, colada à uruguaia Rivera e sua avenidinha 33 Orientales, e depositar tudo numa agência do Caja Obrera ou do Galícia. Um milhão de dólares enviados de uma só vez a uma casa de câmbio na minúscula Livramento provocaria comentários, etc, mas, enfim, estava na revista, deu na TV: Em resumo, era ‘verdade’.

O comentário de um conhecido meu sobre o fato foi: ‘Brasília estraga as pessoas’, pois até então jamais se desconfiara da probidade do Ibsen Pinheiro, apesar de ele provocar uma certa antipatia na maioria dos seus concidadãos. Devem ter sido dez anos difíceis pro cara. Até hoje não tinha visto um jornalista admitir publicamente um erro de tal monta.

O preço? Cerca de 100 mil reais (30 mil dólares) que custaria a reimpressão de todas as um milhão e duzentas mil capas da revista já rodada. Esse era o preço do linchamento para a revista Veja.

É triste.

- Houve um momento, no meio de todo aquele furacão, em que eu tomei uma decisão: convenci-me que a melhor coisa que podia fazer por mim seria não morrer. Eu não poderia simplesmente ter um enfarte e morrer; dar um tiro na cabeça ou sucumbir a um câncer, se ele fosse diagnosticado em meu corpo. Tomei a decisão política de não morrer para ver até onde iria tudo aquilo, até onde eu resistiria e como seria o meu restabelecimento pessoal e público.

(…) A confissão desse processo de regresso a um estado de paz interior consigo mesmo foi feita por Ibsen em uma conversa que tivemos, na sala de seu apartamento em Porto Alegre, no ano de 2000. Estávamos ali eu, ele e sua mulher, Laila, companheira dos melhores dias e dos mais torturantes momentos. Olhei em volta, mirei alguns pratos de louça dourada sobre uma cômoda, uma almofada de crochê sobre uma cadeira de balanço, três ou quatro bibelôs dentro de uma cristaleira espartanamente arrumada. ‘Meu Deus’, pensei em silêncio. ‘Este apartamento está decorado à semelhança da casa de meus avós, de meus pais. Um dia eu fui capaz de escrever que esse homem, que essa mulher tinham se tornado milionários - e olha aqui: são plácidos avós, marcados pela vida, mas ainda sólidos.’ Não revelei, na hora, aquela sensação que me provocava desconforto, mas passei a me perguntar como poderia fazer um gesto que tentasse reparar as injustiças que, involuntariamente, mas cúmplice, ajudei a perpetrar. Meu maior patrimônio é a credibilidade de que gozo como jornalista profissional e, de alguns anos para cá, como consultor de comunicação. Escrever este relato, absolutamente fiel a tudo o que vivi, foi a melhor maneira que encontrei de repor a verdade - a verdade que testemunhei.”

A história completa está aqui. Leiam, leiam.

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Terra

11 de agosto de 2004

Quem terá sido o sábio do marketing que bolou a nova campanha do Email Protegido do Terra? Parabéns a ele, a campanha é muito boa. Ela funciona assim: Você, assinante, tenta entrar no seu email pelo webmail. Recebe uma tela muito semelhante à de login do webmail, com um contrato abaixo. Como todo mundo, você não lê todo o negócio que é comprido e cheio de artigos como uma constituição brasileira (deve ser uma mudança de regras de segurança ou alguma outra baboseira sobre comportamento em emails, foda-se - você, ananá, pensa).

Ao clicar ok, você recebe a maravilhosa notícia de que assinou o Email Protegido Terra e estará contribuindo com R$ 7,90 a mais com o bem estar do Terra e de seus funcionários.

Ok, você pensa, ok, boa essa, muito boa essa. Caí. Vamos lá cancelar.

Você acessa a central do assinante, procura acima e abaixo e não há a opção de cancelar o serviço recém-contratado. Já meio desconfortável você pensa: Onde está o zero oitocentos do Terra? O número que você tem - você é assinante dos serviços da empresa há mais de oito anos e foi funcionário da mesma antes de a Telefônica a ter comprado - e descobre que esse zero oitocentos não é mais válido. Ok, vamos procurar no site do Terra. Não há uma página no mesmo indicando qual o número, ou está escondida o suficiente a ponto de manter a informação secreta a todos. São 23:45 da noite. Você procura no google e encontra o número no site da Abusar, aquela associação de usuários de banda larga que presta um monte de serviços para ananás como eu e você.

Liga para o zero oitocentos, enfrenta algumas URAs (aquelas vozes automáticas que dizem pra escolher um número ou outro, dependendo da área com que quer falar) e, ao falar com um ser humano, funcionário terceirizado do suporte, descobre que, mesmo em roaming - sua conta é de Porto Alegre, sua cobrança em débito automático é feita num banco de Porto Alegre - não pode ser atendido pela pessoa do suporte - sempre muito atenciosa e mecânica, seguidora de processos - pois para São Paulo há um número específico de atendimento, número não zero oitocentos, ou toll free, no jargão das gentes corporativas.

Você pede para ser direcionado para o número, o atendente não pode fazer isso, etc (você sabe que pode, você trabalhou em suporte para call centers, você conhece telecom como se fosse uma segunda natureza sua, mas isso não importa, você é um cliente nesse momento, como a sua mãe - enfermeira no Mãe de Deus, que só usa o micro pra jogar paciência e falar com você no netmeeting - se ela estivesse na mesma situação - e esteve, ela também assinante dos serviços da mesma empresa, tentando cancelar o mesmo - inútil - serviço).

Você liga para o número paulistano do suporte. Enfrenta a URA e seus menus e descobre, ao final de 3 minutos e cinqüenta e dois segundos (cuidadosamente cronometrados) que o atendimento ao seu tipo de demanda se dá das 8:00 às 20:30, nesse número.

Resultado: Você decide cancelar sua conta de email, de acesso e tudo o mais, na primeira hora da manhã seguinte, mesmo sabendo o transtorno que esse tipo de decisão ocasiona.

Decide mandar uma carta registrada ao seu banco cancelando o débito automático e pedir pelos métodos indicados pela empresa o cancelamento unilateral de sua conta, registrando publicamente a reclamação, para que não lhe venham infernizar a vida pelos caminhos conhecidos dos setores de fidelização. Você torce que funcione e calcula o quanto de incomodação jurídica pode vir a ter se realmente não realizarem seu desligamento dos serviços ainda essa semana e decide que vale a pena se incomodar, mesmo que seja por apenas R$ 7,90 mensais.

Você se sente consternado por viver num país em que, mesmo que até as catracas do prédinho da João Manoel saibam que esse tipo de prática é imbecil e destinada apenas a faturar umas migalhas a mais no final do mês, causando mal-estar entre os tais “clientes fidelizados”, outros idiotas de marketing em outras empresas - e na citada - persistirão nela. E ninguém será demitido ou processado pelo ministério público por isso (talvez os reclamantes, claro, por ‘denegrirem’ a imagem das empresas citadas).

Update: Depois de muito trabalho e cliques em links minúsculos, através de - contadas - oito telas - descobri que há como cancelar online, mas o cancelamento implica na perda das quatro contas de email adicionais que, até então, estavam incluídas no meu pacote de R$19,90 mensais. Beleza, por essa grana mensal (R$ 28,00, que passam a me cobrar) eu posso manter um domínio próprio, com bastantes mais contas de email que as oferecidas pelo plano do Terra. E num datacenter em que o Symetrix funcione. Lo haré.

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