Hit the road, Jack

Ontem revi com a Alemoa o “Um estranho no ninho” com Jack Nicholson - ganhador de um oscar pela atuação - e dirigido por Milos Forman, filme que alguma vez, muitos anos atrás, tinha me fascinado. É uma história quase banal, pra dizer a verdade, revista, assim, uns dezesseis anos depois. Pra quem não viu e não vai ver, trata da trajetória de um sujeito que, pra escapar da prisão rural e do trabalho forçado, ao qual foi condenado por ter “feito mal” a uma menina de quinze anos, finge-se (ou é julgado) louco e vai para um hospício. Enfim, imagine por você mesmo a seqüência. Algumas cenas quase geniais aqui e ali, alguns diálogos surpreendentes e ponto. Talvez tenha causado furor nos anos 70, quando foi lançado, e, com certeza, causou algum desconforto no moleque de dezesseis anos que eu era quando o vi pela primeira vez em alguma reprise na TV ou numa sessão do Bristol ou do Clube de Cinema em Porto Alegre. Não mais.

Outro filme que revi há poucos dias foi “A Balada do Soldado“, dirigido por Grigori Chukhraj, do qual já falei em algum post em 2001 ou 2002. Esse, pelo contrário, foi de novo uma grata surpresa. Alguns dos detalhes que me tinham escapado aos dezesseis anos afloraram com a brutalidade do reconhecimento da própria ignorância. A história é uma espécie de mescla da Odisséia de Homero com O Beijo de Tchecov, e repleta de citações à grande literatura russa, coisa que nenhum moleque semi-alfabetizado dos anos 80, como eu, era capaz de supor, além de contar um drama que agradaria da minha avó (ó, há uma grande história de amor se desenrolando), ao meu avô (uma história de bravura, coragem e solidariedade), à minha mãe (um melodrama) ou a mim (é na Rússia! é na Segunda Guerra! ). Ou a qualquer um, como uma grande obra de arte deve ser, mesmo que ainda seja bastante discutível considerar um celulóide “arte”.

É engraçado pensar que alguns anos depois de ter visto A Balada do Soldado me apaixonei perdida, inexorável e desesperadamente por uma menina que era - meu deus - era igual à Shura do filme: o mesmo sorriso, os mesmos olhos, o mesmo modo de falar, a mesma alegria nos gestos simples como ao beber água numa bica, limpar um prato de paella com pão ou erguer uma taça de vinho. Ei, você, eu sabia que te conhecia de algum lugar.

Comecei falando de filmes e, só pra variar, termino fazendo meias confissões. E, já que a divagação não vai ceder, me rendo. Vou terminar isto agradecendo àquele moleque triste que passava as tardes lendo na oficina do Vítor Hugo, seu tio, esperando o próximo cliente, por ele ter escolhido ver A Balada do Soldado e não algum filme de terror. Agradecer a ele ter escolhido Montaigne, Schopenhauer, Borges e Simenon e não Tolkien ou mitologias empulhadoras. Ele, que foi perdidamente apaixonado pela Cristiane Torloni, pela Cybill Shepard, pela Elizabeth Taylor, pela Zhanna Prokhorenko e viveu belas histórias de amor com todas elas, apesar de ser tímido, acanhado, quase canhestro mesmo, e vivia brigando contra os próprios medos. Ele, que era chato, pedante, péssimo poeta e se achava um pequeno gênio incompreendido e que foi capaz de reconhecer a própria insignificância quando leu certas coisas que transcendiam em muito o que ele conhecia da vida. Como no conto O Outro de Borges, não sei se poderíamos ser amigos, mas resta essa remota simpatia, como se ele fosse um irmão muito mais novo de quem se releva algumas idiotias.

Talvez eu quisesse dizer pra ele, se houvesse uma oportunidade para tal, que um dia a tristeza passa, mesmo que a timidez (que não passa de um medo fundado numa vaidade profunda e incurável) continue, não porque coisas tristes deixem de acontecer, mas porque vamos aprendendo algumas coisas aqui e ali que vão fazendo com que só doam - de verdade - as tristezas que não podem ser verbalizadas, as agonias para as quais não conhecemos palavras, as faltas que palavras não podem suprir.

Não tenho pena daquele guri, apesar de saber que muitas vezes ele tem pena de si mesmo. Sei que ele fará um monte de bobagens, sei que ele escreverá como um louco muitas páginas inúteis, conhecerá uma miríade de mulheres, aprenderá alguns idiomas, fará algumas boas amizades e lerá alguns livros decentes.

E sei que, intuitivamente, já mais velho, em algum dia dos anos 90, ele traçaria mirabolantes planos para ir pra São Paulo e se estabelecer por lá, viajar muito, e, talvez, até morar em outro país. Sei que ele queria ver a Grande Arte, que ele era capaz de se emocionar - talvez por motivos errados - com uma série de coisas que também me tocam, sei que ele decidiu viver a vida com e pelos livros, uma decisão idiota como qualquer outra, como ser médico, engenheiro ou dono de uma empresa, e sei que ele queria escrever um grande romance ou grande poema em homenagem à sua cidade natal e às mulheres que o criaram e o fizeram conhecer grande parte do que há de bonito e maravilhoso no mundo.

Se eu pudesse voltar àquele dia chuvoso, no final da sessão do filme, diria àquele guri desengonçado e imberbe que grande parte do planejado já havia dado certo, mas faltava muito, muito, pois, claro, sempre falta. E que ele ainda aprenderia a dirigir, a comer com palitos chineses, teria filhos e voaria de avião pelo menos três vezes por ano, a partir de 1996. Coisas que, tenho certeza, ele jamais pensara em fazer, até então. E que ele, dezesseis anos depois, não gostaria de “Um Estranho no Ninho” e estaria agradavelmente apaixonado por Lucía, personagem de um filme de um diretor basco que por aquela altura, dezesseis anos atrás, ainda era um médico em Bilbao.

Ou, por outra, não diria nada: adiantar uma surpresa é sempre desagradável.

Shura
Shura e a bica

Lucía
Lucía y el faro

Compare Preços de: games, PS2, PS3, Nintendo, Wii, iPod, Livro no Buscapé.

Leave a comment

Your comment