Analgésicos
Há ocasiões em que se sente uma dor qualquer - um pé quebrado, uma fissura de perônio, a coluna reclamando pela má postura acumulada anos a fio, por alguma doença - e, talvez pela gravidade da situação, é uma dor mais aguda e menos suportável. Vai-se ao médico e ele geralmente receita algum composto à base de codeína. Um analgésico qualquer. Alívio.
Durante o ano 2000 tomei por uma temporada uma das muitas marcas de codeína disponíveis no mercado, receitada pela médica que me tratava, a quem procurei depois de constatar que até dar colo pro meu filho de dois anos era uma atividade dolorida e quase insuportável. Quase não conseguia caminhar, tornozelos inchados, da largura das coxas. Imagino que eu estivesse com um aspecto de hidrante: vermelho, cabeçudo e tornozelos gordos. Humor de chimpazé enjaulado, sorriso sincero de puta gozando, tolerância de guarda de campo de concentração completavam o quadro. Um hidrante com humor de chimpanzé enjaulado e tolerante como um guardinha de Treblinka.
Um pouco antes de procurar ajuda médica, passei três dias com febre acima dos 40 graus, sozinho em casa, as mesmas dores, algumas alucinações e pouca, pouca comida (lembro, de, febril, pedir um X-português do Cavanhas e deve ter sido tudo o que eu comi nesse fim-de-semana, até a segunda-feira), por que a febre e eu tínhamos decidido que, se era pra morrer, ia ser ali e pronto, no meu quarto, de preferência dormindo.
Foram três meses de sadio e apaixonado convívio com a codeína. As dores só voltavam quando o efeito da dose dupla de codeína estava passando, meus pés foram desinchando paulatinamente, o hidrante voltou a ter o aspecto de letra éle de sempre. Durante três meses tive sonhos ótimos (um dos efeitos colaterais é o de mal-estar no sono, o que não aconteceu comigo), que envolviam, quase sempre, grandes viagens em veleiros de três mastros, enormes cavalgadas em estepes ao lado de gente como Miguel Strogoff ou algum personagem de Karl May, diálogos sobre a situação da Gália Cisalpina com algum procônsul confiável, expedições de São Paulo a Potosí no século 17, essas coisas com que todo mundo sonha. Tanto que, ao final do ano, por novembro, eu já estava bem e o adeus à codeína se deu uma semana depois de eu não precisar mais dela para sua função original.
Era nisso que eu pensava hoje, no metrô de volta pra casa, vendo algumas das caras tristes que passavam pela porta à minha frente, a cada estação, e se sentavam ou acomodavam onde podiam durante os quinze minutos entre a Armênia e o Paraíso. A sucessão de caras tristes e fodidas nos trens paulistanos, especialmente os que vem da periferia, às vezes é insuportável pra gente mais sensível, o que não é o meu caso, geralmente. É claro que pensei no artigo do Soares Silva ou nos rumos que a vida tem tomado pra maioria das pessoas, é claro que sei que um em cada cinco adultos como eu na cidade está sem ter como pagar suas contas no final do mês, é claro que sei que a cidade é feia e brutal, principalmente pra quem anda a pé, é claro que sei que quinze minutos sem um livro - uma fila de banco, um metrô, um trem lotado, de pé - são insuportáveis como uma semana num presídio e é por isso que sempre levo um pra esses lugares. Claro que é mais agradável se entregar à codeína de um livro que encarar as caras feias, lombrosianas, fodidas e tristes da maioria dos sujeitos e sujeitas que estão no mesmo trem vindo da periferia com você. É inevitável pensar no chatíssimo filme do Wim Wenders e imaginar o que cada um pensa, o que cada um planeja, seus destinos, essas coisas, pensar que, em muitos casos você jamais vai voltar a cruzar por algumas daquelas pessoas ou, eventualmente alguma delas vai ser sua vizinha de rua algum dia, bobagens assim. Em seguida pensei que os livros eram a minha codeína pros dias de chuva, pras tardes tristes e intermináveis da infância (se houver inferno, ele deve ser algum lugar em que você tem oito anos de idade, é sempre inverno, é proibido de fazer quase tudo e o tempo demora muito pra passar), e pros dias em que o mundo parece turvo, embotado, embaçado, idiota. Quase todos os dias. “Livroterapia”, pensei, sem pontos de exclamação, depois que entraram umas senhoras gordas. “Não, não dá pra escrever sobre uma idéia idiota dessas”. Não, não dá.
Pensei também num sujeito duns vinte anos, mancando, pé torto, magro, preto, pedindo no semáforo da Lima e Silva com Perimetral, naquele ano 2000. Não confio muito (ou confio demais, vá saber) na minha habilidade de reconhecer sinais paralingüísticos nos outros, mas acho que ainda não vi outro sujeito com maior expressão de dor. Talvez fosse um atributo do pedir, talvez fosse pelo hábito, mas ele também tinha uma expressão de humilhação e ressentimento, além da de dor, que não lembro de ter visto em outro sujeito. Durante uns dez segundos ele e eu nos olhamos, cada um com a sua dor, eu dentro do carro, ele, fodido e pedindo, a chuva fina do inverno caindo desde há horas, sete da noite.
O farol abriu, alguém buzinou atrás. Com um dos pés inchados soltei devagar a embreagem enquanto acelerava com o outro pé inchado e o carro avançou lentamente para a esquerda, em direção à Ponte de Pedra. Naquela noite, nenhum livro serviria de alívio a qualquer um dos dois, pensei. “Estação Paraíso, acesso à linha 2, Verde”, anunciou o alto-falante.
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