Arquivo de fevereiro de 2004

Chat Noir, Chatte Blanche

29 de fevereiro de 2004

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De nuevo la pereza

28 de fevereiro de 2004

Eu devia estar atualizando isso aqui, mas a preguiça tem impedido. Mas não posso deixar de comentar sobre o livro da Cynthia Fleury, que foi resenhado por “aquele antro de peessedebistas” como o Ruy Goiaba define a Primeira Leitura. E a única observação útil que eu retirei da reinvenção do Renascimento, proposto pela filósofa, é a de que ela é bonita pacas e altamente carcável. E que há uma geração de mulheres bonitas - e com algo a dizer - finalmente:

“Estamos, como muitos apreciam relembrar, na era do desencanto, a clamar todos os fins possíveis. No entanto, se há, hoje, um só fim a ser promovido, é exatamente o do desencanto.”

Dialoguer avec L’Orient, de Cynthia Fleury, ed. PUF, 308 páginas, 25 euros

Lerei.

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Emmenez moi aux pays de merveilles

18 de fevereiro de 2004

Por uma doença causada por mosquito (moustique), nos informa o Le Monde, 169 morreram na Indonésia desde o início do ano, enquanto 8350 foram hospitalizadas com a doença no mesmo período. A nova variante do vírus é mais mortífera que as anteriores e de 50 a 100 milhões de pessoas são contaminadas a cada ano. A taxa de mortalidade, a se confiar nas estatísticas oficiais da Indonésia, está em dois porcento. A epidemia é de dengue, para a qual não há vacina e, parece até o momento, controlada no Brasil.

Como diz aquela letra mela-cueca: Il me semble que la misère serait moins pénible au soleil.

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Pena de morte para pichadores

16 de fevereiro de 2004

Curitiba é uma cidade tão limpinha, mas tão limpinha, mas tão limpinha, que eles até instituíram a pena de morte, sem julgamento, para pichadores. Tem certeza de que é lá mesmo, Nanuq?

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Oração

15 de fevereiro de 2004

Obrigado, Senhor Deus dos Esquimós por ter me permitido nascer em 1972 e ter dezoito anos em 1990.
Por Você ter ajudado Kurt Cobain a nos livrar de todos os metaleiros barítonos e farofas.
Por ter posto uma conta de email no meu nome em 1991.
Por ter me deixado assistir aos dois primeiros anos da MTV.
Por não ter me deixado ir pra Guerra da Bósnia em 1992.
Por ter me enviado ao século 16 em 1994.
Por ter me dado a coragem necessária pra voltar ao século 16.
Por ter me deixado três meses sem falar com absolutamente ninguém, em 1994, enquanto o inverno queimava o pasto e os cachorros me faziam companhia.
Por ter me dado cavalos rápidos e mulheres maravilhosas nas horas certas.
Por ter me posto nas mãos uma distro de Linux em 1995.
Por ter me dado um CD com o Netscape em 1995.
Por ter me dado emprego todos esses anos, trabalhando com a coisa que mais gosto depois de livros: computadores.
Por ter me dado uma BBS em 1996.
Por ter me dado uma Silicon Graphics em 1996.
Por ter me dado vários apartamentos de terceiro andar e casas em cidades diferentes.
Por ter me deixado conhecer um outro país duma maneira que pouca gente tem a chance de fazer.
Por ter me feito crer que, trabalhando, sorrindo e não levando os fascistas e stalinistas a sério, eu iria pra algum lugar melhor.
Por ter me ensinado a velejar.
Por ter me dados filhotes espertos e corajosos, cada um à sua maneira.

Obrigado, senhor deus dos esquimós. Eu sei que fiz muito menos em retribuição a Seu Sagrado Nome do que essas bênçãos divinas com que o Senhor me aquinhoou. Mas eu me esforço, Senhor Deus dos Esquimós, para que o software seja livre, as pessoas sejam livres e as opiniões também, como diz a sua Santa Palavra. E para que nunca falte a coca-cola nossa de cada dia para as crianças.

E que, se agora o senhor quer que a minha vida mude completamente, deve ser por um bom motivo e eu só entenderei isso daqui a alguns anos.

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Carnaval

14 de fevereiro de 2004

Finalmente o Centro Velho vai se livrar dos seus cadáveres carnavalescos. Eu sei que me chamam de exagerado, mas sempre que eu tinha de voltar pra casa tinha alguém baleado, esfaqueado, morto ou morrendo, nos dias de carnaval. O primeiro deles foi na parede do Instituto Providência, três quadras de casa, quando eu tinha uns oito, nove ou dez anos. Carnaval era a única época insuportável no bairro. Espero que o evento faça bastante sucesso no Porto Seco. E que diminua o número de cadáveres, esfaqueados e baleados esse ano.

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Bombas atômicas

12 de fevereiro de 2004

Era abril de 1982 e estávamos eu e o meu avô conversando na oficina da casa dele, que dava de frente para o meu prédio, do outro lado da rua. Não sei porque, mas tava frio, e o outono mal tinha começado, 82 foi o inverno mais frio de que lembro até hoje em Porto Alegre. Meu vô recém tinha chegado de São Paulo, de muda, um ou dois meses antes e ainda ajeitava os ferros e as bancadas da sua oficina mecanográfica e sua pequena biblioteca em outra peça das duas casinhas geminadas, quando ouvimos no rádio que a Argentina invadira as ilhas Malvinas. Lembro que estávamos, um pouco antes, falando de bombas atômicas, o assunto preferido de quase todo guri suburbano dos anos 80.

Ninguém, além de mim, acreditava que os argentinos ganhassem a guerra, e, à medida que os vizinhos iam afundando fragatas, cruzadores e navios ingleses e derrubando harriers, eu ia agradecendo mentalmente aos argentinos, que na época me pareciam os sujeitos mais corajosos (hoje em dia, idiotas, mesmo) do mundo, ao retomar justo da Inglaterra um punhado de ilhotas na rota do Magalhães.

O velho disse: “acho que só vão usar a bomba atômica de novo o dia em que todo mundo esquecer delas, sair das manchetes dos jornais.”

Uns meses depois circularam rumores de que a Inglaterra de Thatcher ia pulverizar Córdoba e Rosario se os maricones ingleses tivessem sido rechaçados (quase foram) na invasão a Puerto Argentino (Port Stanley) com seis ogivas nucleares. Mas eram rumores.

Anos depois, conheci a história dum sujeito de Corrientes que matou seis ingleses na facada - um gurka entre eles - na última batalha nas ilhas e ganhou o apelido de Martin Fierro, condecorações e aposentadoria pelo fato. Morava em Montevideo e queria por que queria voltar às Malvinas antes de morrer.

Tudo isso por que tenho sonhado insistentemente com um Sea Harrier jogando uma bomba atômica em Porto Alegre ou outra cidade que não identifico. Acordo pensando que seria bom ler algo sobre bombas atômicas nos jornais do dia. E sempre tem.

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Confeiteiros sem fronteiras

12 de fevereiro de 2004

Aposto que isso foi coisa da Jac.

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Si tu n’étais pas lá

11 de fevereiro de 2004

Francesa casa com defunto.

Imagino a moça cantando: Quand je suis dans tes bras, mon coeur joyeux s’enivre, etc. Essas coisas são o que os franceses chamam de “fait divers”, nos jornais.

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Véus

11 de fevereiro de 2004

É engraçado ver que a tal discussão sobre os véus proibidos (e cruzes e coquinhos) na França está passando completamente em branco pela imprensa e os blogs brasileiros. Numa sociedade como a nossa, em que, no máximo, na primeira geração nascida no país, os imigrantes já são tão brasileiros, sambistas, consumidores de big brother, novelas, torcedores de futebol e apreciadores de feijoada, talvez a diatribe não faça mesmo muito sentido. Japoneses, palestinos, chilenos, uruguaios, quase todos os estrangeiros que conheci aqui acabam por eleger o país como “seu” e não querem mais voltar, mesmo que o país seja esse que sabemos que é.

Pra mim, o mais comovente, até hoje, foi o depoimento do meu amigo Saïd, em Santana do Livramento, que disse: Ganzei de guerra, esse meu baís. Meus vilhas vai na esgola búbliga, meu mulher brasileira. Eu non volda bra Balesdina nem visida. Quando acabamos de tomar as cervejas, ele estava mais eufórico que o resto da mesa: O Grêmio tinha acabado de meter uns três gols em algum time argentino, na Libertadores de 95. A temperatura, na rua, rondando o zero e as ruas cheias de gente comemorando vá saber o quê.

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