Nessa manhã de 1431
27 de janeiro de 2004“Je congnois que povres et riches, Sages et folz, prestres et laiz, Nobles, villains, larges et chiches, Petiz et grans, et beaulx et laiz, Dames à rebrassez collez, De quelconque condicion, Protans atours et bourrelez, Mort saisit sans exception.
Et meure Paris et Helaine, Quiconques meurt, meurt à douleur Telle qu’il pert vent et alaine; Son fiel se creve sur son cuer, Puis sue, Dieu scet quelle sueur! Et n’est qui de ses maulx l’alege: Car enfant n’a, frere ne seur, Qui lors voulsist estre son plege.
La mort le fait fremir, pallir, Le nez courber, les vaines tendre, Le col enfler, la chair mollir, Joinctes et nerfs croistre et estendre. Corps femenin, qui tant est tendre, Poly, souef, si precieux, Te fauldra il ces maulx attendre? Oy, ou tout vif aller es cieulx.“
De vez em quando, esses três versos: “Corps femenin, qui tant est tendre, Poly, souef, si precieux, Te fauldra il ces maulx attendre? ” me vêm, como se viessem da cabeça de outro, do nada, enquanto caminho pelas ruas de qualquer cidade. Vejo as velhotas nas ruas e busco nos seus traços outros traços, e o apodrecimento em vida por que passamos e chamam envelhecer, me parece mais aceitável, repetindo um verso de Villon pros meus botões ou qualquer outra coisa que ninguém mais entenda.
O assassino que faz versos, o ladrão que metrifica, o fora-da-lei lírico, Villon é o único poeta marginal que valeu a pena ter lido. É triste ter sido tão mal traduzido para o português, se é que é possível traduzir poesia. Em 10 de agosto de 1519, quando embarquei na esquadra do capitão Magalhães, levava um voluminho da obra completa de Villon na bagagem, que me custara quase quinze ducados.
Acho que li muita porcaria antes do tempo certo, isso sim.
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