Roman Fleuve
2 de dezembro de 2003(Começa o sonho entre sorrisos e mamãe sabe que estamos atentos à sua leitura. No céu de Porto Alegre, Deus desenrola seus pergaminhos como um grave juiz. El-rei Dom Sebastião calça os sapatos e começa sua primeira cruzada em direção à Alcácer-Qibir. San Telmo nos acompanha no passeio pelas ruas desertas da cidade.)
Um Homem grisalho e sem rosto desbasta no esmeril a cabeleira verde de um anjo de bronze. Outro, de suspensório e calças curtas, filma. San Telmo ilumina a cena com lamparinas de cristal. No Beco do Império, Mario Quintana fuma cachimbo. Magalhães, feliz, passeia de braços com o escravo Henrique em alguma ilha Philippina. Mamãe, sorrindo, vira a página.
Continua o filme: Uma menina de tranças grossas lança um barquinho de papel enfeitado com finas pétalas de margarida e asas de borboletas nas águas calmas do Estige. Uma andorinha aproveita uma corrente de ar e plana, quase parada, próxima a chaminé da Usina do Gazômetro.
Um vento de mau agouro invade o quarto trazendo o cheiro do Guaíba. Em Lisboa, a Torre do Tombo é uma folha de papel ao vento no dia do terremoto. Mamãe pede pra Deus abençoar nossa família. Magalhães acende uma vela no porão da nave e consulta mais uma vez seus mapas. Porque o mundo é tão maior que qualquer mapa, mamãe? O cheiro do mar invade todo o navio, até o último velame e a última junta, enquanto o sol brilha, caindo no poente. Mamãe brinca de bonecas próximo ao leme. Um casal de golfinhos se aproxima, nos acompanha por algumas horas e, finalmente, se afasta da embarcação. Ainda demora muito pra chegarmos a Porto Alegre, mamãe? É verdade que Porto Alegre também é uma ilha, mamãe? San Telmo, no horizonte, espera a pequena esquadra e sorri aos passageiros, flutuando sobre as ondas.
Eu e mamãe passeamos de mãos dadas pelas ruas desertas, exterminadas, do Centro Velho de Porto Alegre. Mario Quintana, sentado sob a sombra de um velho jacarandá, nos acena com sua bengala. Ao longe, desde o trapiche que sai da praça e invade o rio Guaíba, um cargueiro festivo e colorido se afasta lentamente, fumaçando o azul perfeito da manhã, carregado de cadáveres de índios e vinho tinto. Mamãe canta uma modinha açoriana para passar o tempo. Na Ilha do Pavão, San Telmo, rodeado de devotos, louva a Deus com o fervor e os gestos de quem louvasse ao Diabo. A profusão de fogos-fátuos no céu vai fazendo com que as palavras, cada vez mais, careçam de sentido.
Mamãe canta ao retirar um pão do forno de barro. Mamãe tece o manto interminável e nos diz que papai talvez um dia não volte. Mamãe monta o alazão e empunha uma lança para matar os castelhanos que nos querem roubar a terra que roubamos. Mamãe volta da guerra e nos abençoa com suas mãos sujas de sangue, nos embala com seus braços sujos de sangue, nos amamenta com seu peito sujo de sangue, e bebemos desde crianças esse sangue de inimigo, e expelimos desde sempre o sangue do inimigo, e é por isso que esse rio que não é rio foge para o mar tinto do sangue do inimigo que minha mãe matou, enquanto tecia esse manto que vestimos, enquanto fazia o pão que comemos. San Telmo abençôa a menina mamãe de tranças que aprende a tecer e lhe promete que um dia Dom Sebastião voltará.
Deus acende as estrelas uma a uma. San Telmo se encarrega de iluminar a lua. Um navio de bandeira grega sobe a Lagoa dos Patos carregado do trigo argentino que será servido em todas as casas do centro da cidade nas próximas duas semanas. Vovô amaldiçoa o Presidente Dutra e sua gastança inútil. Villa Lobos desenha sobre a pauta a primeira nota de Trenzinho Caipira.
Mamãe frita bolinhos de chuva e procura termômetros para medir minha febre. Numa manhã de sol, Dom Sebastião recita um poema de Drummond para sua filha mais nova (aquela que ainda jamais nasceu). A primavera cruza o rio, abrindo todas as flores, perfumando de jacarandás as ruas, imprimindo pequenos sorrisos nos rostos duros dos velhos. Uma criança rouba uma fruta do comércio da Praça Quinze. Dois policiais militares perseguem Dom Sebastião, que acabou de furtar a bolsa de uma senhora moura na esquina da Rua da Praia com a Rua Clara. O negro Vilmar deposita a última peça na Ponte de Pedra e dão a ponte por concluída. Deus, de batina e batuta, rege um coral de devotos de Dom Sebastião.
A doutora segue fazendo anotações sem nos olhar. Na borda ocidental do mundo, alguns metros antes do Grande Abismo, a esquadra de Magalhães faz sua louvação aos reis de Espanha e Portugal com o sangue de uma menina índia ainda viva. Deus e o Diabo contabilizam suas almas em papiros de palmeiras. Desde o nascente, dos lados de África, um enorme útero começa a envolver o nosso planeta, que se cola às paredes do útero lenta e cuidadosamente e começa a se dividir. Meiose. Enquanto isso, mamãe conta uma história de navegadores pra nos distrair.
Minha irmã boceja a plenos pulmões assim que Magalhães atinge a Terra do Fogo. San Telmo ilumina com fogueiras as montanhas vizinhas às águas turbulentas do estreito, mostrando o caminho sem volta aos viajantes. Sobre o granito da praça da Alfândega centenas de pombos disparam em revoada. O próximo plano-seqüência mostra a tempestade vindo do sul, lavando os paralelepípedos da cidade e fugindo em busca da ilha de Santa Catarina, deixando frio e céu azul em seu rastro. Cecília e Virgínia discutem literatura em um banco da praça. Mamãe prepara café em um bule prateado.
Vovô, recém chegado da Cólquida, traz uma ostra e um carro para as crianças. Mamãe gira a roca de fiar, enovelando as entranhas dos índios e negros mortos na conquista de São Miguel. Brotam reflexos platinados de todos os pontos da cidade, de todos os metais da rua, dos carros, das janelas. Um homem sonha com um homem, que sonha com um homem que sonha com um homem. Alguém, inutilmente, tenta assassinar Borges ou pelo menos quebrar sua bengala.
Dentro do salão mourisco da Biblioteca, leio Júlio Verne, Sterne e enciclopédias com a atenção de quem lê bulas de remédio. Mamãe nos dá a mão para atravessarmos a rua e o inverno teima em não terminar. Fiquem comportados até a hora de eu voltar, diz mamãe, nos deixando outra vez na Biblioteca Pública e partindo para o trabalho. Simone se esconde de seus pais e me convida para nosso primeiro beijo de língua. Num dia cinza e frio em que o Guaíba está revolto, papai faz a barba, embarca na esquadra de Magalhães e nunca mais volta.
O vento sopra do além-mar e dispersa um tropel de cavalos selvagens. Em alguma ruela napolitana, vovô recebe o aviso de que não tem mais pátria e arruma as malas para fazer a América, enquanto Isidore uiva para os lobos guarás que infestam nossos campos, antes de partir para sempre para Paris. As almas das crianças ceifadas pelo Anjo na porta da Candelária brincam de roda sobre aquela nuvem. Papai e Magalhães, recém colhidos por um tufão no Taiti, se juntam à brincadeira.
Na enfermaria, uma dose extra de analgésicos, calmantes e lítio invade a veia. A lua rola pelo céu como um balão de gás. Mamãe cozinha damascos e folhas de eucalipto para perfumar a casa. Papai, montado no cavalo de Dom Sebastião, volta calmamente do exílio no século catorze. Sopra um vento que vem do porto de Itapoã, da Lagoa, dos anos do Império, de uma de nossas revoluções, trazendo cheiro de sangue, pitangas e pântano. San Telmo desembarca com Magalhães na ilha do Desterro e decide não mais abandonar a freguesia. Caramuru engravida a primeira índia. Sepé Tiaraju, ferido de morte, joga pife e se diverte com vovô. Mamãe conta histórias, mamãe é interminável. Sherazade, Gulliver, o Curupira, Visconde, Crusoé, a besta da praça da Matriz, Alice, o menino Açoriano, todos brincam de roda conosco na noite opressiva que cai sobre a cidade. Na madrugada, Dante faz amor com Beatriz em frente à porta da Livraria do Globo. Em Timor, em Almada, em São Miguel, no Bonfim, na Rua Bella, mais uma criança aprende a falar português, essa língua de dizer, rir ou xingar, como qualquer outra.
Vovô tem o primeiro de seus tantos enfartes públicos e é levado às pressas para um hospital miocárdico. Landell de Moura veste o rádio, acende os sapatos e vai fazer a primeira transmissão de batinas da História. Dom Sebastião, arquitetado no Leprosário de Itapoã, planeja a sua volta e esconde como desbaratar o exército de Bagdá que tomou a ponte da Azenha com a ajuda da armada do Califa castelhano. Vovó reclama novamente que o mundo está de pernas pro ar.
Deus desenha minúsculas marolas nas águas do rio Guaíba. Um veleiro de papel vem subindo de Itapoã carregado de imigrantes, escravos, sacos de açúcar e ratos no porão. Dom João Primeiro diz a Fernão Lopes para tomar nota de mais um feito. Vítor Ramil começa a escrever Estrela, Estrela. Mamãe amaldiçoa nosso Senhor porque as crianças da casa sempre nascem com as asas quebradas. Deus desiste de brincar com as águas e o Guaíba volta a ser um espelho.
Uma garça sobrevoa todo o rio, cruza a Lagoa dos Patos e vai procurar abrigo no Farol da Solidão. O vento esculpe mais uma duna. Garibaldi empurra sozinho um veleiro pelo campo. Mamãe acende uma vela para San Telmo. Vovô pede esta dança à minha irmã mais nova. Vovô sopra as cinzas do cigarro e diz que o tempo vai continuar passando quando ele for embora e nós não devemos ficar tristes por isso.
Mamãe disse que vovô é uma estrelinha bonita que brilha lá perto das Três Marias. Os filhos que terei brincam de ciranda no céu. Como uma ostra que termina de confeccionar sua pérola, Quintana deposita o vigésimo oitavo ponto final sobre um soneto. O vento me carrega para o passado, para o longe, para o nada. Um martim pescador rouba um peixe do batéu de Magalhães. Os peixes dos mares do sul são perigosos, já descobriram os marinheiros da expedição, quando três deles morreram comendo um lindo e colorido linguado. Em Lisboa, o exército d’el-Rey, O Meestre D’Avis, desbarata mais uma vez os castelhanos. Sessenta casais de ilhéus acabam de deixar a pátria à barlavento e fundarão por acidente a cidade em que nasceremos alguns anos depois. Tito Lucrécio, envenenado por um filtro de amor, faz um discurso para um pequeno grupo de desempregados sobre um caixote na frente do chalé da Praça Quinze. Papai ajuda Dom Sebastião a desbaratar os farroupilhas para o sul e o príncipe regente Dom Pedro de Bragança condecora a freguesia dos casais com o galardão de Mui Leal e Valorosa pelo feito. Em Ponche Verde, os Farroupilhas massacram o exército de Dom Sebastião, que busca asilo no Leprosário de Itapoã. Mamãe fecha o livro e diz que a História de hoje chegou ao fim.
Deus assobia sob uma paineira centenária. Quem te ensinou a nadar? Quem te ensinou a nadar? Foi, foi, marinheiro, foi os peixinhos do mar. O diabo registra num pequeno diário os feitos dos filhos da terra. Meu filho mais novo sorri num retrato ao lado de Magalhães. Os dois auxiliam os médicos a aplicar minha dose diária de tranqüilizantes. Montaigne empina pandorgas ao lado de Camões numa canchinha de futebol no Campo da Tuca. Mamãe volta do século III trazendo na mão esquerda a cabeça ainda ensangüentada de não se sabe bem se um romano ou castelhano e na direita um exemplar do novo testamento em fina brochura, recém escrito por Constantino. Mamãe é canhota como a moura torta.
No campo da Tuca, na Cruzeiro do Sul, no Morro Santana, na Bom Jesus, na Vila Safira, as operações policiais sempre
resultam em crianças mortas e centenas de almas mutiladas. Uma brigada de visigodos desce os Pirineus em busca de terras melhores para plantar videiras negras. O diabo, sorridente, distribui idéias em panfletos aos passantes pelas ruas da cidade. Papai masca chicletes em frente à confeitaria Colombo. Mamãe passa a tarde preenchendo mais um caderno de caligrafia. Papai me diz que as pedras na beira da praia não são pedras, são presentes ali deixados pelos antigos gregos. Mamãe afirma que sonhar é só mais uma forma, como qualquer outra, de vermos as coisas. Acaba de cair a última casa portuguesa no Centro Velho de Porto Alegre e as fundações de mais um caixote feio, para doze famílias, começam a surgir dos escombros do velho solar. Mamãe atravessa a rua Clara em frente à sede de A Federação conosco pelas mãos e uma mulher bonita nos cruza à frente trazendo nos braços a menina que será minha segunda mulher (que conhecerei dentro de vinte anos). Me sinto sozinho pela primeira vez. Vovô, numa aparição, abana ao longe e diz que tem saudades de casa. Deus, sem pressa, fuma palheiro, bebe cachaça e folheia o jornal de anteontem, no balcão do
botequim de seu Onésio.
Mamãe acende uma vela para iluminar nosso caminho na noite sem eletricidade. Deus, de sobrecasaca, tirita de frio em meio ao vento que vem de São José do Norte. Uma equipe de médicos conduz vovô apressadamente para a sala de operação. No fundo do céu, perto do Cruzeiro do Sul e acima das Três Marias, uma destas estrelas que chamam de supernova começa a apagar. Mamãe, montando um alazão e vestida com as armas e o brasão do Mestre d’Avis, começa a carga sobre os castelhanos que vieram incendiar e saquear nossa cidade.
Vovô morre antes do final do espetáculo, criando sérios problemas de continuidade e com os patrocinadores. A Multidão, aniquilada, volta lentamente para as cavernas. Deus abandona a coordenação executiva. Confortavelmente banhado em sangue e ornado de almas de meninas violadas, o Novo Mundo respira de excitação, júbilo e gozo.
Ponto final, diz mamãe fechando o livro, sorridente. Vovô, em meio a uma valsa, pede a mão em casamento da princesa da Pérsia e vai embora para Pasárgada. Papai, ferido por uma flecha minuana no meio do peito, morre sem sentir qualquer dor sob a sombra de um castanheiro decrépito num garimpo de ouro em Oriximiná, na margem esquerda do Rio Amazonas.
Magalhães, coberto de louros pelo rei das Philipinas, celebra a vitória do espírito humano e parte em sua nova viagem, para os confins do sistema solar, bem atrás daquela nuvem gorducha.
Numa noite de nevoeiro, Dom Sebastião enfuna as velas rumo sul e vem morar o resto de sua vida numa casinha portuguesa de duas águas na escadaria da Rua General João Manoel, antiga Rua Clara, entre a rua Formosa e a Rua do Arvoredo, no Centro Velho de Porto Alegre.
San Telmo, com um gesto grave, apaga as luzes da cidade tão logo mamãe deixa o quarto, com minha irmã ao colo. Sonha com os anjos, meu querido.
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