Arquivo de dezembro de 2003

Capotagem na madrugada

19 de dezembro de 2003

Sonhei que estava dirigindo em alta velocidade pela marginal Tietê na madrugada, na pista oposta à do prédio da Abril, quase na Lapa. Algo fez com que o carro escorregasse, batesse no pneu dum caminhão na faixa de tráfego ao lado, e capotasse várias vezes, no comprimento, como se desse várias voltas no Enterprise do Playcenter. O carro continuou girando, até bater num pilar duma ponte e parar. O cenário mudou imediatamente para a Ipiranga - a avenida mais parecida com as marginais no meio rural - na frente da Zero Hora. Desafivelei o cinto, desliguei o rádio do carro (que estava de pé, apoiado na vertical a um poste) e pulei pra fora. Lembro de ter olhado pro céu estrelado e visto algum luminoso anunciando coca-cola ou outra merda assim. Fiquei olhando para o carro, um três volumes enorme, quase um opalão, mas modernoso, algo que eu jamais compraria (pensei, no sonho) e procurei com os olhos o posto de gasolina na esquina oposta à da Zero Hora. Ninguém parecia, na madrugada, ter reparado que eu acabara de destruir o carro depois de capotar a traquitana várias vezes. Saí dali pela Lima e Silva pra achar um bar onde tomar pisco ou rum e comprar cigarros. Acordei suado, abraçado na minha namorada. O que me intriga é não lembrar o que estava tocando no rádio.

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Nova leitura

17 de dezembro de 2003

Um blog bacana sobre nerdices.

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Anotações para um poema

16 de dezembro de 2003

Nada pode embelezar ou enfeiar São Paulo.
Nem os pombos leprosos, estropiados, que mal conseguem voar, nem as pessoas que se encolhem como as plantas sensitivas dentro de seus carros ao mais fortuito sinal de aproximação de um maltrapilho, nem as horrendas marginais com seu fluxo constante e interminável como um trem que não acabasse nunca de passar, nem todos os pedestres, formiguinhas que esperam a hora do atropelamento, nem a multidão de ambulâncias que empurra os carros para as calçadas, nem os vigias ostensivamente armados, nem os prédios que vistos de longe lembram uma triste e geométrica cadeia de montanhas lunares, cheias de escotilhas de onde as pessoas não espiam, nem os bairros separados por linhas de trens suburbanos, hermeticamente contidos por avenidas de grande fluxo, estrangeiros lado a lado, Pirituba e Lapa, Tatuapé e Carrão, Morumbi e Brooklin, nem as crianças sempre vigiadas de perto como presos de segurança máxima, nem as mulheres passeando seus cães de alto quilate pelos shopping centers, nem a multidão de aleijados da cidade que segue se movimentando contra as calçadas estrategicamente irregulares, feitas pra que ninguém ande sobre elas, nem as pipas altas e felizes da periferia, nem as periferias, extensões de casinhas irregulares que parecem arrozais intermináveis, nem os ônibus barulhentos e se despedaçando pelas vielas e curvas dos bairros, nem os beija-flores que se alimentam da fumaça acumulada nas flores das quebradas, nem os bares da periferia, onde se serve sorrisos destentados e sinceros como os perfeitos e reluzentes das lojas da Lorena, nem os dirigíveis passeando lentos, tocando as nuvens e disputando espaço aos aviões que nunca param de chegar ou partir, aos helicópteros, sempre nervosos com sua carga pretensamente preciosa, aos urubus das marginais com seus vôos heráldicos esperando o próximo atropelado, nem os pedintes das avenidas mais ricas, com seus malabares e destreza para se desviar das montanhas de aço que se movimentam angustiadas assim que abre o sinal, nem os túneis do anel viário, onde parece que o tempo parou numa câmara sem gravidade, nem as antenas de transmissão, fábricas de parolagem cheias de ouvidos que lhes escutem.

E ainda assim, a cidade nunca pára de ir de um lugar para outro, inútil e atarefado formigueiro, cheio de boa gente que tem de ganhar a vida, se esquivar das mutilações e só sonha com o dia em que vai poder sair daqui, sem perceber que não suportaria outro lugar no mundo. São Paulo vicia.

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“Na Universidade Pública só tem rico”

15 de dezembro de 2003

Finalmente fotografaram o que já se sabia desde a metade dos anos 80:

“Nas instituições públicas, 70,8% dos formandos que participaram do Provão têm renda familiar de até R$ 2.400, enquanto nas particulares esse porcentual era de 58,4%. Com patamares maiores de renda, acima de R$ 2.400, estavam 29,1% dos estudantes de instituições públicas e 41,6% das particulares. “

E é por isso que querem acabar com a Universidade Pública. E os Neocons que vão dar cu na esquina. :^)

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By the way

14 de dezembro de 2003

I know, I know for sure, life is beautiful around the world.

Mais uma semana movimentada pela frente. Dezembro está no mesmo campo semântico de redemoinho, acabo de descobrir numa enciclopédia sânscrita. Com o Natal e Ano-Novo como ralo, no fim-de-linha. Espero voltar a tempo pra poder estourar umas champãs na Paulista no 31 com a alemoa e os amigos.

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