Anotações para um poema

Nada pode embelezar ou enfeiar São Paulo.
Nem os pombos leprosos, estropiados, que mal conseguem voar, nem as pessoas que se encolhem como as plantas sensitivas dentro de seus carros ao mais fortuito sinal de aproximação de um maltrapilho, nem as horrendas marginais com seu fluxo constante e interminável como um trem que não acabasse nunca de passar, nem todos os pedestres, formiguinhas que esperam a hora do atropelamento, nem a multidão de ambulâncias que empurra os carros para as calçadas, nem os vigias ostensivamente armados, nem os prédios que vistos de longe lembram uma triste e geométrica cadeia de montanhas lunares, cheias de escotilhas de onde as pessoas não espiam, nem os bairros separados por linhas de trens suburbanos, hermeticamente contidos por avenidas de grande fluxo, estrangeiros lado a lado, Pirituba e Lapa, Tatuapé e Carrão, Morumbi e Brooklin, nem as crianças sempre vigiadas de perto como presos de segurança máxima, nem as mulheres passeando seus cães de alto quilate pelos shopping centers, nem a multidão de aleijados da cidade que segue se movimentando contra as calçadas estrategicamente irregulares, feitas pra que ninguém ande sobre elas, nem as pipas altas e felizes da periferia, nem as periferias, extensões de casinhas irregulares que parecem arrozais intermináveis, nem os ônibus barulhentos e se despedaçando pelas vielas e curvas dos bairros, nem os beija-flores que se alimentam da fumaça acumulada nas flores das quebradas, nem os bares da periferia, onde se serve sorrisos destentados e sinceros como os perfeitos e reluzentes das lojas da Lorena, nem os dirigíveis passeando lentos, tocando as nuvens e disputando espaço aos aviões que nunca param de chegar ou partir, aos helicópteros, sempre nervosos com sua carga pretensamente preciosa, aos urubus das marginais com seus vôos heráldicos esperando o próximo atropelado, nem os pedintes das avenidas mais ricas, com seus malabares e destreza para se desviar das montanhas de aço que se movimentam angustiadas assim que abre o sinal, nem os túneis do anel viário, onde parece que o tempo parou numa câmara sem gravidade, nem as antenas de transmissão, fábricas de parolagem cheias de ouvidos que lhes escutem.

E ainda assim, a cidade nunca pára de ir de um lugar para outro, inútil e atarefado formigueiro, cheio de boa gente que tem de ganhar a vida, se esquivar das mutilações e só sonha com o dia em que vai poder sair daqui, sem perceber que não suportaria outro lugar no mundo. São Paulo vicia.

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