Nota dispensável

Por Láudano Sine Nauta Navis

A um simpático email que caiu na minha caixa postal: Não, eu nunca chamei minha mãe de “mamãe”, nem meu pai de “papai”, ou meus avós de “vovô” e “vovó”. Apesar de ruins, essas coisas que escrevo são pretensamente LITERATURA, e podem, sim, ter algum cunho auto-biográfico, mas são fundamentalmente MENTIRAS EDULCORADAS que não espelham nada além de um possível mal-estar ESTÉTICO que é no fundo, o que toda Literatura ou tentativa de Literatura são. Os dois pretensos poemas abaixo, por exemplo, que falam de noites sozinho e coisas no estilo, foram escritos pela manhã, enquanto minha ex-mulher brincava com meu filho caçula, então com alguns meses de idade, e dávamos boas risadas assistindo o moleque conversar com os seus brinquedos e morder pacientemente um livro de borracha do Pinóquio que ele ganhara dos tios.

Nessa época, apesar de ter seis computadores e impressora em casa, por conta duma firma que eu tocava, eu escrevia numa Olivetti Praxis 20, eletrônica. Uma máquina de escrever.

A passagem de “poema” abaixo:

“Papai foi embora pra fazer a luz elétrica e nunca mais voltou. Papai foi construir Itaipú pra encher de luz a tela do maldito computador em que escrevo. Papai foi como o chinês que fez a muralha e vive nos ossos da muralha até hoje.”

foi escrita e reescrita diversas vezes em papel nessa Praxis 20, até que um dia, sem nem mais quê nem porquê, comecei a jogar essas coisas para o micro ou para a lata de lixo.

Desconfiar do que se lê sempre é algo salutar, mas continuo acreditando na máxima de Mario Quintana: “quando alguém não entende um poema um dos dois é burro: o autor ou o leitor”.

Espero, sinceramente, que o burro seja eu.

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