Arquivo de novembro de 2003

Mamãe, temos boas notícias

26 de novembro de 2003

Depois de um dia estupendo pra mim e pra minha alemoa, fomos com um amigo comum jantar num restaurante chinelo e gostoso na Pompéia, a algumas quadras do Sesc. O dia foi ensolarado e cheio de vento - coisa meio rara em Sampa - e a noite estava úmida e agradável, estrelada, na medida do possível. Os três felizes, cada qual por sua razão, nos demos ao luxo de um vinho, para acompanhar o couvert de pãezinhos antes do prato principal.

Muitas risadas, comida farta e bem preparada, o vinho, adequado ao jantar simples, e fiquei por alguns instantes observando, de fora, a cena. Acho que eu tinha esquecido, nos últimos meses, do prazer de compartilhar um vinho com uma mulher que sabe o que está bebendo. E que feche a boca ao mastigar a comida, pelo menos no restaurante.

Mas as boas notícias, mamãe, são aquelas que eu te falei ao telefone esses dias. E, sim, mãe, eu estou escrevendo. A novidade é: Lembra aquela peça minha que foi encenada em Porto Alegre? pois é, talvez ela seja encenada aqui, ano que vem. Vamos ver.

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Nota dispensável

25 de novembro de 2003

A um simpático email que caiu na minha caixa postal: Não, eu nunca chamei minha mãe de “mamãe”, nem meu pai de “papai”, ou meus avós de “vovô” e “vovó”. Apesar de ruins, essas coisas que escrevo são pretensamente LITERATURA, e podem, sim, ter algum cunho auto-biográfico, mas são fundamentalmente MENTIRAS EDULCORADAS que não espelham nada além de um possível mal-estar ESTÉTICO que é no fundo, o que toda Literatura ou tentativa de Literatura são. Os dois pretensos poemas abaixo, por exemplo, que falam de noites sozinho e coisas no estilo, foram escritos pela manhã, enquanto minha ex-mulher brincava com meu filho caçula, então com alguns meses de idade, e dávamos boas risadas assistindo o moleque conversar com os seus brinquedos e morder pacientemente um livro de borracha do Pinóquio que ele ganhara dos tios.

Nessa época, apesar de ter seis computadores e impressora em casa, por conta duma firma que eu tocava, eu escrevia numa Olivetti Praxis 20, eletrônica. Uma máquina de escrever.

A passagem de “poema” abaixo:

“Papai foi embora pra fazer a luz elétrica e nunca mais voltou. Papai foi construir Itaipú pra encher de luz a tela do maldito computador em que escrevo. Papai foi como o chinês que fez a muralha e vive nos ossos da muralha até hoje.”

foi escrita e reescrita diversas vezes em papel nessa Praxis 20, até que um dia, sem nem mais quê nem porquê, comecei a jogar essas coisas para o micro ou para a lata de lixo.

Desconfiar do que se lê sempre é algo salutar, mas continuo acreditando na máxima de Mario Quintana: “quando alguém não entende um poema um dos dois é burro: o autor ou o leitor”.

Espero, sinceramente, que o burro seja eu.

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Feira Livre na Madrugada

25 de novembro de 2003

A noite está repleta de gente abraçada, namorando pelas ruas: dia dos namorados. Ouço música. Do fundo da noite um pregoeiro e uma feira livre anunciam bananas, maçãs, abacates maduros e um cheiro de hortaliças e plantas ornamentais invade o pavilhão nasal com ferocidade e adjetivos esquecidos.

Melão Espanhol!

Ervilhas Verdes!

Mamão Gaúcho!

Chá de Quebra-Pedra!

Felicidade empacotada com jornal!

E os olhos da menina agricultora que nos observa com a mesma estranheza que a olhamos ? atrás da banca de frutas as bolitas de gude verdes são mais verdes ainda.

Deus está em oferta, freguesa! E mamãe compra um maço de espinafre cheio de vontade de virar um refogado no domingo.

A noite, os agriões, a memória, de onde saiu, meu deus, essa feira livre em que passeio agora?

Porto Alegre, junho de 1999

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Besteira inacabada

25 de novembro de 2003

Estou só, só e com sono. Tiros repicam longínquos na noite que começa a cair com o sereno calmo, a noite vem com andorinhas que se recolhem, repleta de morcegos furiosamente cheios de ânsia de voar.

E os telhados das velhas olarias parem milhares de almas negras e felizes. Deus, não há nada de mais ansiado que o vôo de um morcego, Deus, morcegos são insones diurnos esperando a luz da noite. E a noite tem luzes como as do prédio - vampiro negro gigantesco - que os burocratas ergueram sobre os ossos do rio.

Estou só, e tenho certeza de que tinha algo a dizer. Minhas mãos dedilham o teclado como quem tocasse o corpo defunto de um estranho. Estou só e é natal em breve. Por que, deus, eu tenho obrigação de ser feliz?

Porto Alegre, novembro de 1999

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Good Morning Vietnam

21 de novembro de 2003

Meu horário de trabalho, desde o advento dos mexicanos, é das 15:00 às 23:00, o que dá a manhã inteira e um pedacinho da tarde pra fazer absolutamente o que eu quiser, inclusive ter outro emprego, o que está absolutamente fora de questão. Não sei vocês, mas o horário das 18:00 até, sei lá, as 22:00, sempre foi, pra mim, um dos mais inúteis quando estou em casa, recém chegado do trampo. Nunca consegui fazer nada de útil nesse horário, em qualquer cidade.

Chegar às 11 e pouco da noite significa que você faz algo leve pra comer, fuma um cigarro, escova os dentes, lê algo no micro ou em livro e, pumba, cama. Tenho acordado sempre cedo, no máximo às nove da manhã, pra não perder esse tempo precioso que Nanuq me regalou na cidade onde mais se tem coisas pra fazer se se tem tempo livre, no país. Veremos o que sai disso.

Há vagas permanentemente não preenchidas no meu trampo, por falta de gente que fale minimamente bem o castelhano e seja capaz de compreender tanto um equatoriano de Guayaquil (os mais toscos, mas boa gente) quanto um “refinado” (e chato) portenho da Recoleta e algum eventual inglês, americano, holandês ou francês perdidos em algum buraco de ’sudamérica’. E, claro, conheça a coisa técnica inerente.

E o mais putamente fascinante é que, em já cinco meses, jamais tive que trazer trabalho pra casa, apesar de já ter três sábados de “treinamento” no diário de bordo. Veremos o que sai disso, também.

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Pequeno dicionário de economia

20 de novembro de 2003

“A economia, paulatinamente, volta a crescer, com leve aumento no nível de emprego”.

Tradução:

“Depois de saldadas as dívidas, São Paulo voltou a consumir como louca, de novo”.

É impressionante como essa gente compra. Parecem japoneses de férias. Como antevejo dias pré-natalinos armagedônicos em breve, vou comprar os presentes da patota sulista amanhã, pra escapar das filas, que já começaram.

Agora entendo o significado dos sucessos imobiliários de 4 ou 5 suítes e 4, 5, 6 vagas na garagem entre a classe média local. Em algum lugar nego tem que meter as trancas que compra. Quanto mais longe e com “qualidade de vida”, melhor.

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Londres

20 de novembro de 2003

É a primeira vez na vida que eu lamento não estar em Londres.

Como diz o meu mais novo ídolo terceiro-mundista:

“Where I would like to live and to expend the most of my life? In a hot country! You know, in a hot country that I have ISPAICE! That I have TRRREES!… Not in an island, a cold one. Name it, and I go.”

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Maçonaria

19 de novembro de 2003

Essa semana o Mojo aderiu à Maçonaria e volta à publicar seu vlógue no wunderblogs. No Martelada tem uma discussão de alto nível sobre o assunto, nos comentários da mesma notícia. Deu vontade até de reproduzir por aqui, de tão boa. Vão lá, ler os dois que eu tenho preguiça e respeito pelas leis de copyright.

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Ela se puxa

16 de novembro de 2003

Mas bá, miguinha, que isso ficou do caralho.

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Idiomas

16 de novembro de 2003

É engraçado trabalhar num lugar onde, não só não é estranho falar quatro, cinco ou seis idiomas, mas isso abre mais portas. O complicado é mudar do castelhano para inglês e francês uma ou duas vezes por dia. É pena que eu não possa aproveitar o Latim, mas, qualquer hora dessas também vamos trabalhar com o Vaticano, e aí, sim, vocês vão ver. Vou ter de aprender como se chamam uma série de coisas como teclados, CPUs, servidores, caixas de correio eletrônico e essas coisas no idioma de Marcial. E ler muito Pato Donald em Latim. “Donaldus Anas Atque nox Saraceni”.

Y que vengan los mejicanos que los vamos a romper el culo también, carajo.

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