Quando o inverno chega pelo Rio Guaíba
Por Láudano Sine Nauta NavisUm homem que perdeu o rumo, uma casa materna derrubada, um museu que o fogo comeu e a chuva caindo fina e fria. Dia de enterro de alguma coisa qualquer? E o silêncio de antes de tempestade, não há mais crianças barulhando na calçada e mesmo a calçada já não tem qualquer utilidade - não há passantes, não há mais gente em qualquer lugar. Alguém fala de deus, alguém pergunta, o que teremos pro almoço?, uma gota d’água fica pulando de folha em folha procurando o chão.
É o primeiro frio do inverno roçando a pele, é o primeiro dia de algo que todo mundo almeja, hoje estou viva e o mundo parece de luto, pensa a menina. E é tão grande esse mundo, meu deus, quem terá ânimo para andar por todos esses caminhos?
As árvores estão com frio, tremendo com o vento. Deus, sentado no seu trono onipotente cofia a barba e acerta o relógio de areia. A umidade amplia a rachadura na fachada do solar - a umidade tem mais tempo e paciência que qualquer outra coisa nesse mundo. A umidade já existia antes de qualquer deus.
Há na umidade do dia uma cor de paredes rachando: da Patagônia, uma imensa massa de nuvens avança com a lentidão de um rebanho. O vento sul vem tocando as nuvens como um pastor. Época de migração, nem as nuvens nem os biguás suportam mais o Sul.
O inverno é maníaco depressivo, o inverno vai matar a todos nós, menina, começando pelos biguás.
E o velhote diz à menina: o Sul já matou toda minha família, minha criança, e quer me matar também, mas eu vou desafiá-lo para um duelo, creia em mim.
A menina pergunta a um senhor de sobretudo: papai, por que o Sul quer matar as pessoas?
E as pessoas voltam às ruas. Uma multidão de guarda-chuvas avança com os mesmos passos incertos dos flamingos nos charcos: quem não cuida onde pisa escorrega e quebra os ossos na pedra molhada. Há um homem em frente a uma banca de revistas orando. O inverno não fala nosso idioma, menina.
A questão, menina, é onde começa o Sul. E ela diz, o Sul começa em mim. Levo o Sul comigo aonde quer que eu vá.
Impasse. O Sul é uma entidade prática. Para ele, impasses se resolvem com borrascas e vento. Um dia houve pedras no litoral sul, mas o inverno transformou tudo em areia. Um dia houve índios, mas ele os matou a todos.
A multidão de guarda-chuvas avança sobre as pedras úmidas. Os flamingos pulam poças d’água cheias de folhas caídas. Os cachorros da rua estão escondidos sob os carros estacionados para que o Sul não os veja. O Sul não gosta de cães, crianças, mendigos e velhotes.
E a chuva amaina, há um arco-íris que nasce no meio do Guaíba e estende os braços até o mar, barrando o Sul. Vamos dormir, mamãe? E a tarde rotunda e pesada continua caindo do céu, a umidade rachando as paredes, adiando a pressa febril dos formigueiros adormecidos. Eu não quero que o Sul leve você, mamãe, eu não vou deixar o Sul te levar, eu prometo.
Na Patagônia, enregelado, o inverno espera que o arco-íris se distraia. O inverno é o sujeito mais paciente do mundo, até mais que a umidade.
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