Relógio calculadora com música
Estou de volta à vida de assalariado desde a segunda-feira, trabalhando numa dessas mega-hiper-multinacionais em que todo mundo que trabalha nelas enche a boca pra dizer, “ah, eu trabalho na ACME INC, e você?”. Grandes merdas. O trabalho parece ok, provavelmente se tornará chato como 99% dos empregos em alguns meses, a grana é pouca, mas suficiente pra pagar as contas, y asi pasa la vida, uno tiene que ganar su plata, muchacho, me dizia meu velho amigo Groncho (tosco) em 1995.
Pois pra chegar no trampo tenho de fazer uma daquelas viagens folclóricas por São Paulo e arredores. Ao todo são cinco linhas de diferentes tipos de meios transporte pra ir, cinco pra voltar, duas horas e quinze minutos de viagem em cada sentido, quatro horas e meia do dia apenas se deslocando de um lado pra outro. Tempo pra ler vários livros nos diferentes trens, metrôs e ônibus que tenho de pegar.
O trampo é em Alphaville, distrito ou ilha de fantasia de Barueri, uma cidadezinha que lembra remotamente Novo Hamburgo, com as mesmas idiossincrasias da terra dos Muckers (ou será São Leopoldo a dos santarrões? tsc, memória de merda): Trânsito intenso no núcleo “bonitinho”, mulheres bonitas, prédios novos, etc. Claro, tudo dez vezes maior, menos o número de mulheres bonitas.
No último pedaço do percurso, no trem que pego na Barra Funda até Barueri, várias cenas pitorescas: uma favela que invade a linha férrea, gente que pula os muros da linha, saltando para a estação para não pagar passagem, currais de cavalos na mesma favela a poucos metros dos trilhos, dezenas de vendedores nos vagões oferecendo de tudo. O ar espesso e poluído, cheiros diversos das indústrias ao redor.
Pois no trem, hoje pela manhã, um dos vendedores oferecia Halls, pilhas, lanternas e “calculadora com relógio e música”, daquelas de mesa de vendedor de automóvel ou advogado de porta de cadeia. A música, nos primeiros acordes, me pareceu vagamente familiar. Depois de uns segundos, quase estourei gargalhando: Era Fischia Il Vento, um dos hinos partisans da segunda guerra que meu avô cantava quando eu era criança. Fischia il Vento numa calculadora de mesa. Porra. Abri a carteira e vi que a grana estava curta, se eu comprasse ia ficar sem almoço, mas amanhã eu VOU ACHAR ESSE CARA e comprar a CALCULADORA COMUNISTA.
Abaixo, a letra. Aqui, o midi pra ouvir acompanhando. Cante bem alto, principalmente na parte em que ele diz “pela noite te guiam as estrelas, forte o coração e o braço ao combater”. Fico devendo a bolinha de acompanhamento do Gasparzinho. Quanta bobagem. Letra surripiada infamemente do Le Drapeau Rouge (A Bandeira Vermelha), um site cheio de letras e midis comunas e anarquistas de procedências as mais diversas.
Fischia il vento, urla la bufera,
Scarpe rotte eppur bisogna andar
a conquistare la rossa primavera
dove brilla il sol dell’avvenir,
a conquistare la rossa primavera
dove brilla il sol dell’avvenir.
Ogni contrada è patria del ribelle,
ogni donna a lui donò un sospir;
nella notte lo guidano le stelle,
forte il cuore e il braccio nel colpir,
nella notte lo guidano le stelle,
forte il cuore e il braccio nel colpir.
Se non ci coglie la crudele morte,
dura vendetta verrà dal partigian;
ormai sicura è già la triste sorte
del fascista vile traditor,
ormai sicura è già la triste sorte
del fascista vile traditor.
Cessa il vento, calma è la bufera,
torna a casa il fiero partigian,
sventolando la rossa sua bandiera:
vittoriosi e al fin liberi siam,
sventolando la rossa sua bandiera:
vittoriosi e al fin liberi siam.
Compare Preços de: MP3, iPod, celulares, notebooks, câmeras no Buscapé.
