Cena dominical
Estava passando a pé sobre um dos viadutos sobre a 23 de Maio quando vi um moleque duns oito, dez anos, empinando uma pipa quadrada e pobre, dessas feitas com varetas de bambu. Vi que ele estava atrapalhado e a pipa apenas revoluteava a pouco mais de vinte metros dele, a alguma altura sobre a larga avenida abaixo. O moleque era branquelo, cabelos pretos, lisos e meio compridos. Vestia menos roupa que o normal dos moleques paulistanos da idade dele num dia de vento - mesmo que ensolarado - como o domingo passado. Não me contive e parei, perguntando:
- Por que você não dá mais linha na pipa, garoto? - eu disse, apontando para o quadrado colorido que se rebelava no final do barbante.
- Tô cum medo que arrebente a linha, tio, e aí minha pandorga vá embora. Já perdi umas duas ou três - ele respondeu.
- Dê mais linha, rapaz, ela agüenta - insisti.
- Tu acha que ela não vai arrebentar, tio? - ele disse, meio ansioso.
- Acho que ela agüenta. Se rebentar, dou uma grana pra você comprar os apetrechos pra fazer outra - respondi.
- Eu tenho as coisas pra fazer outra, tio, só quero que ela vá bem alto - ele disse, sorrindo.
- Dê linha devagarinho - eu disse, apontando pra pipa.
- Tu sabe fazer ela voar bem alto? - disse, olhando pro céu.
- Sei - completei, lembrando das minhas próprias pipas que escalavam o céu até que, quando quase estavam tocando os aviões, se libertavam do barbante e iam mansamente morrer sobre alguma das ilhas do Guaíba.
- Faz, então - ele disse, e indicou com um gesto a linha, que ia me passando.
Dei corda à pipa, puxando a cada tanto, para que ela revoluteasse ganhando altura. Quando o carretel estava a meio e a pipa muito alta no céu, quase tocando nos últimos andares dos prédios à direita e à esquerda da avenida, devolvi a pipa ao moleque, que estava maravilhado, como eu. Abaixo, a 23 de Maio corria rápida como um rio na serra, entre os dois paredões de prédios.
- Olha só, guri, como ela tá alta, tu tá quase tocando nas nuvens.
- Valeu, tio.
E saí, alegre, ainda admirando a pandorga feia que era a única voando alto no céu do bairro. Só depois, bem depois, me dei conta de que o moleque também era de Porto Alegre.
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