Arquivo de junho de 2003

Perplexidades

9 de junho de 2003

Há vezes em que a vida parece fluir como um barco a remo num rio manso mas caudaloso, cheio de árvores às margens de que se tem de desviar dos galhos baixos, repletos de espinhos, embora todo o percurso seja agradável, prazeroso e, não se deixando abater por qualquer dos galhos baixos, é um quase um passeio belle-époque num lago qualquer. Você nunca se dá conta de que aquele é um percurso agradável até que encontre uma corredeira. Há quem só faça reclamar dos galhos e esqueça completamente de aproveitar o passeio e quando está na corredeira, só faz lamentar pelo trecho calmo que ficou pra trás. Há quem, mesmo atento aos percalços do percurso, aproveite para apreciar a paisagem.

Lembro de alguns períodos assim na minha vida: a época em que minha vida virou uma festa, no Parobé, no cursinho, o apartamento na Bela Vista, os dias em que as coisas davam certo em Campanha, o primeiro apartamento MEU, com lareira, janela enorme e móveis de escritório e impessoais na sala de visitas, como eu gosto, as noitadas no Uruguay com os melhores amigos do mundo, em que só faltava dom Lúcifer pra festa estar completa, o nascimento do Zorro e o acompanhar o seu crescimento até as primeiras palavras, mesmo trabalhando como um idiota até 16 horas por dia num negócio meu que não tinha muito futuro do jeito que tinha sido montado, os primeiros meses após a minha quase morte na metade do ano 2000, as maravilhosas horas compartilhadas de veleiro no Guaíba, as viagens sozinho ou a dois, as festas para os poucos amigos no encarquilhado apartamento da Rua Bella, enfim.

Até que chegou mais uma vez a hora da corredeira, e o barco voltou a pular, sacolejar, jogar as pessoas pra fora, enquanto eu sigo agarrado, covardemente agarrado, pra não cair na água.

Mas eu vejo lá na frente que o percurso talvez volte a ser tranqüilo, parece que o rio vai voltar a ser manso, e só um ou outro galho baixo em frente atrapalhará um pouco a viagem. Espero estar enxergando bem. Espero que não seja o percurso calmo que todo rio percorre antes da cachoeira. Acho que preciso trocar de óculos e abolir minha tendência ao abuso de metáforas pobres e rasteiras.

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Pueden moverse, pero no avanzar

8 de junho de 2003

“Seguimos profunda, definitivamente convencidos de que si algún habitante de estas humildes playas logró acercarse a la genialidad literaria, llevaba por nombre el de Roberto Artl. No hemos podido nunca demostrarlo. Nos ha sido imposible abrir un libro suyo y dar a leer el capítulo o la página o la frase capaces de convencer al contradictor. Desarmados, hemos preferido creer que la suerte nos había provisto, por lo menos, de la facultad de la intuición literaria. Y este don no puede ser trasmitido.
Hablo de arte y de un gran, extraño artista. En este terreno, poco pueden moverse los gramáticos, los estetas, los profesores. O mejor, pueden moverse mucho, pero no avanzar”.

Juan Carlos Onetti

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Nevoeiro

8 de junho de 2003

É manhã de nevoeiro e os navios apitam graves trombetas no cais do porto.

É manhã de nevoeiro e o milhão de transeuntes dessa cidade se reuniu nesse centro de cidade para protagonizar o espetáculo de anonimato que é o amanhecer de Porto Alegre.

Apitam as trombetas dos navios no cais do porto e, no nevoeiro, todos os desta cidade são apenas vultos que se locomovem, vultos com objetivos bem traçados, vultos com compromissos nas agendas, milhões de quilômetros de tinta de canetas consumidos em afazeres repetidos, semelhantes, inúteis à sua maneira.

É manhã de nevoeiro no centro de Porto Alegre e as crianças pedem esmolas aos fantasmas, os homens mula empurram carros abarrotados de papéis com compromissos e anotações e urgências burocráticas, e os papéis entram no moinho de vento do tempo, e um improvável cavalo relincha no nevoeiro, e todos vestimos as armas de Avis para bem receber Dom Sebastião, e os paralelepípedos da Rua da Praia reluzem como os dentes das caveiras de nossos índios assassinados, e o perfume de pântano e junco do Guaíba grita pelas ruas o nosso berço no meio do mar.

Porto Alegre é a maior cidade açoriana do mundo, Porto Alegre é a maior das ilhas açorianas em meio ao mar-oceano de gaúchos e castelhanos belicosos. E ser açoriano é assim: Eternamente degredado, andarilho, patriota da primeira casa que se receber, da primeira casa que nos bem receber, é ter saudades infindas de não se sabe precisamente o quê, é ser triste e nefando e inverossímil como qualquer homem, é admirar o pôr-do-sol como quem viaja de balão, é sempre ter um sorriso e saber confortar a quem precisa, ser açoriano é sofrer em silêncio, é amar em silêncio, é ser feliz em silêncio, e é ser festivo e colorido até nos funerais, é ser humano e nômade, é desaparecer para sempre no mar-oceano, é sempre procurar uma pátria, é sempre esperar pelo impensável, amar as crianças e plantar lares por onde nos degredarem, é amar o nevoeiro e, depois, o dia limpo.

Porto Alegre é a maior cidade açoriana deste mundo. Simples, ilhoa e festiva, a casa que Dom Sebastião perdeu nas suas andanças.

E é por isso que nessa manhã de nevoeiro todos os navios do cais de Porto Alegre trombeteiam a chegada do Infante Sebastião, O Desejado, que morreu peleando mouros em Alcácer-Quibir. Porque em Alcácer-Quibir morreu o Portugal navegador, e, desde de lá, ferido de morte, estertora meu país, deste lado do além-mar.

Bem vindo, menino Sebastião, último rebento e mestre d’Avis. Os açorianos desta cidade te rendem homenagem com o sangue e os braços de seus meninos e meninas assinalados, para a glória final de teu exército de desaparecidos.

No meio do nevoeiro, Luís de Camões, ajeitando seus andrajos, cofia a barba e lamenta o olho perdido. Uma moedinha para um velho doente, por favor?

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A Estrada para Montevideo

8 de junho de 2003

Deus plantou cidades no Sul do mundo.
Deus mandou, com cruz e fé fabricada na Europa,
Que matassem índios, negros e aborígenes,
Deus não gosta nem dos pingüins.

Deus plantou Sydney, Deus plantou Montevideo
Deus plantou Porto Alegre, Deus plantou Capetown
Deus disse que ninguém deve viver em Punta Arenas
Deus deixou Borges fundar Buenos Aires.

Deus manda chuva seis meses por ano.
Deus não gosta das pessoas.
Deus mata todo mundo de frio.
Deus plantou a estrada para Montevideo.

Deus matou os índios das missões.
Deus não gosta dos deuses dos outros.
Deus é ciumento.
Deus não gosta do Sul.

Deus não gosta de crianças.
Deus castigou Jó.
Deus matou Sepé Tiaraju.
Deus matou todos os mortos.

Deus inventou as cidades.
Deus é mal-humorado.
Deus acorrentou os negros nos navios negreiros.
Deus acorrentou os negros nas favelas.

Deus não gosta de judeus.
Deus não gosta de amarelos.
Deus não gosta de cordeiros.
Deus não gosta de estátuas.

Deus não gosta de Michelangelo.
Deus não gosta de Tintoretto.
Deus não gosta dos homens, nem das mulheres.
Deus não gosta das crianças.

Deus não gosta de Onetti.
Deus nunca gostou de Ducasse.
Deus não gosta de Quintana.
Deus não sabe brincar de roda.

Deus não sabe brincar de pega-pega.
Deus se irrita, no céu, quando vê uma pandorga.
Deus não gosta que as pessoas façam amor.
Deus parece uma velhinha invejosa.

Deus esqueceu Porto Alegre.
Deus esqueceu Montevideo.
Deus esqueceu da estrada para Montevideo.
Graças a Deus.

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Variadas

4 de junho de 2003

Meu resultado do teste engraçadinho que vi lá pelo Narrativas de Niill:

Que palavrão você é?

Está (ou estava) rolando uma discussão engraçada sobre “quais aspectos tornam sedutora uma mulher” nos blogs do Träsel, Bruno Galera e do Eduf. Os comentários aos posts, como disse o Träsel, são parte das coisas que fazem a gente continuar acreditando na humanidade…

Como dizia o João Manoel, famoso Don Juan do Campo da Tuca e imediações da Vila Maria Degolada, “deixem de viadagem, se é mulher já tá valendo”.

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Disclaimer

4 de junho de 2003

Os textos que venho postando há alguns dias são poemas de um livro que - quem leu deve ter percebido o porquê - havia decidido deixar guardados no HD para sempre. Foram escritos de 1991 a 1999, e não são, especificamente, para ninguém. São a resposta a alguém que disse que eu não falava de amor no que eu escrevia. Just it.

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Lapidar

3 de junho de 2003

“Deus me deu a mulher que eu pedi e o diabo colocou ela no Paraná”. Frase do grande Lúcifer, se despedindo de Porto Alegre. Boa sorte lá, manow véi. E vê se aparece por Sampa pra gente bater um snooker num boteco simpático que eu conheço no Jardim Ângela.

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Centro Velho, Ninho de Pedra

2 de junho de 2003
“Não me constranjo de sentir-me alegre,
De amar a vida assim, por mais que ela nos minta.
E no meu romantismo vagabundo
Eu sei que nestes céus de Porto Alegre
É para nós que inda São Pedro pinta
Os mais belos crepúsculos do mundo.”
Mario Quintana

Moça, ter medo é ser escravo, lhe digo, ter medo é ser indigno da cidade que nos deram, das pedras que vovô e vovó ergueram, dos quintanares que garatujaram por aí. E vamos atolando nossos carros moderníssimos pelas esquinas, ocultando cadáveres nas casas cheias de medo, de prevenções, de ferrolhos e olhos mágicos, cheias de trancas, gradis e clausuras. E eu olho no fundo dos seus olhos até ver a criança que a senhora foi, bem no fundo dos seus olhos, e amo seus olhos e suas crianças e tudo que venha da senhora até os ossos, e vejo tanto medo no fundo desses seus olhos, e pesco coragem pelos rios em volta da cidade, pesco coragem no fundo do Guaíba e lhe sirvo a coragem numa bandeja de prata, e vou de trem pra todos os destinos que me tirem pra sempre daqui.

E sou ingênuo, simplório e calino como um pião de criança, sou o vestido rendado que minha filhinha usa, sou a boneca de pano que as meninas carregam nas ruas, sou o doce e o sarcasmo que vendem nos cafés, sou um homem que se repete, repete, repete. E sepulto, oculto, clandestino, acoito e velo meu medo como um pai. Sou a pedra e o junco do Guaíba que o vento mói com água e espuma. E a senhora, moça: minha companheira, consorte, comparsa, sempre de conluio, arranjo e conjura, conspirando, tramando, maquinando e forjando novas indignidades, a senhora vai brotar de amor, brutalidade, verbos e expressões em cada casa dessa cidade velha, a senhora vai se adjetivar toda pra me dizer as coisas mais duras, a senhora vai se despir e despejar palavras, levantar a voz, empunhar o silêncio como uma pandorga sobre o morro, a senhora vai vestir um manto de silêncio e outro vermelho de fragor, a senhora será barroca com um acento luterano, vai usar imagens gastas como santinhos barrocos e dizer que o tempo é um rio e o silêncio um manto e a senhora noivará com meus juncos e meus óculos em qualquer igreja de improviso que tivermos construído no fim do morro, e a senhora vai ter medo do dia que se acaba, vai ter medo dos gatos vagabundos pelas ruas, sempre cheios de unhas e amores noturnos, vai ter medo dos brigadianos a cavalo e dos militares marchando com as cabeças de papel, vai ter medo de morrer, medo de viver, medo de continuar como estamos, medo de terminar a vida que levamos, medo das más influências, medo de seus filhos, medo dos vizinhos, medo dos aviões que passam rasantes sobre a cidade, medo dos estrangeiros, medo das crianças dos outros pelas ruas, medo de assaltos, medo desta crise econômica, da próxima crise econômica, medo de todas as fomes que passamos ou passaremos, de espírito ou pão, e a senhora sentirá falta de tudo, falta do sol quando a cidade está atolada no inverno ou no nevoeiro, falta da chuva quando ressecamos nos janeiros como na África - e somos dois leões desdentados ressecando ao sol nos parques - falta dos seus amigos que também se vão, como todos daqui.

Moça, nós ainda vamos fechar essa cidade e devolver as chaves pro Sepúlveda com laudações e glória, lá em Portugal, na vila de Portalegre lá dele, porque ele, moça, depois de ter plantado ruas, teatros e igrejinhas, depois de ter traçado nos seus papéis a nossa rua Bella, ele um dia também se foi, abriu as asas num gesto grave e deixou este ninho de pedras, desceu o rio Guaíba de caravelas e galeões festivos, disparando canhonaços em algum castelhano fugitivo, saiu pelo farol de Itapoã pra nunca mais, pra morrer de velho e virar um nome de rua em que os bêbados noturnos urinam, pra ganhar estátua de bronze e anonimato perpétuo, assim na terra como nos céus, e a senhora sente falta de qualquer coisa que nem sabemos nomear, e ficamos abestalhados folheando dicionários, e ficamos em êxtase minerando as enciclopédias da Biblioteca Pública com seu aviso aos entrantes, tão lindo quanto o da entrada do Inferno, e a senhora já está tão assim que nem poesia lhe salva, a senhora está tão assim que nem muita conversa não lhe convence, enlutada de coisas sem nome e sem rosto, cheia de dias de nevoeiro no peito, cheia de gente que não está mais, cheia de dias que parecem que vão acontecer como um balão de hélio subindo até as nuvens mas morrem feito bolhas de sabão contra as paredes, cheia de esperanças que vão parando como trens nas estações.

E a senhora nem fique assim, que lhe amo como amo aos ninhos, aos vôos curvilíneos das andorinhas sobre os terraços, às pitangueiras abarrotadas de flores pelas ruas em que andamos, às janelas venezianas flanando como bandeiras de madeira antes das tempestades, às flores dos parapeitos velando de antemão pela alma dos donos da casa, às noites geladas e repletas de vento nos recantos da Usina. Moça, a senhora é uma mulher com corpo de cidade, e é a minha cidade e minha casa, um veleiro diurno de velas bem caçadas e enfunadas por ventos de través, uma proa de escuna dividindo o rio em dois como os aviões partindo o céu em dois nas tardes ensolaradas, e nós dois somos motores cheios de dentes e palavras que acabam de parar, somos pássaros e versos ainda não catalogados, somos o vulto daquele navio gorducho que vem trazendo coisas pelo Guaíba, o vulto gorducho de um navio que vai encher todas as mesas de pão para o café da tarde, venha a nós o vosso reino, somos os trens indo lentamente para as gares como biguás pousando heráldicos sobre a água torpe do rio, somos as palavras que vão silenciando com as melodias, somos um fim de sinfonia em que alguns músicos já vão guardando os instrumentos enquanto outros ainda tocam, somos as letras finais de um livro que vai se acabando, acabando, acabando, e que a senhora fecha e aperta contra o peito, como um dia fez comigo.

Somos o Centro Velho, na madrugada, bocejando todos os nossos sonhos, enquanto o sol, mesmo antes de nascer, começa a esculpir o próximo nevoeiro.

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Santa Iphigênia

1 de junho de 2003

Hoje foi um daqueles dias legais para nerds. Fui com um amigo e a namorada à região da Santa Ifigênia resolver uns probleminhas com placas-mãe e comprar cacarecos indispensáveis a nerds em geral. Proveitoso e muito, muito legal: é possível encontrar absolutamente tudo que se refira a computadores por lá - a Santa Ifigênia andava meio abalada nos anos 90 - tudo de origem duvidosa, mas muito barato e em ordem. Depois, café da tarde, sorvete de pitangas - meu Deus, como é bom - e petiscos, antes do teatro.

Numa das travessas da Santa Ifigênia, acho que na rua dos Gusmões, um ambulante anunciava seus produtos:

- Chega mais, freguês! Computador barato! Caldo de cana!

O centro é mesmo uma aventura estética. E encontramos num sebo fétido a partitura do Hymno da Revolução Constitucionalista de 1932. E partituras de Carlos Gardel. Fiquei emocionado.

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Mote da semana

1 de junho de 2003

Como diz alguém que eu prezo muito, empurrar bêbado de escada não tem a menor graça, é fácil demais. Tsc.

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