Centro Velho, Ninho de Pedra
Por Láudano Sine Nauta NavisDe amar a vida assim, por mais que ela nos minta.
E no meu romantismo vagabundo
Eu sei que nestes céus de Porto Alegre
É para nós que inda São Pedro pinta
Os mais belos crepúsculos do mundo.”
Mario Quintana
Moça, ter medo é ser escravo, lhe digo, ter medo é ser indigno da cidade que nos deram, das pedras que vovô e vovó ergueram, dos quintanares que garatujaram por aí. E vamos atolando nossos carros moderníssimos pelas esquinas, ocultando cadáveres nas casas cheias de medo, de prevenções, de ferrolhos e olhos mágicos, cheias de trancas, gradis e clausuras. E eu olho no fundo dos seus olhos até ver a criança que a senhora foi, bem no fundo dos seus olhos, e amo seus olhos e suas crianças e tudo que venha da senhora até os ossos, e vejo tanto medo no fundo desses seus olhos, e pesco coragem pelos rios em volta da cidade, pesco coragem no fundo do Guaíba e lhe sirvo a coragem numa bandeja de prata, e vou de trem pra todos os destinos que me tirem pra sempre daqui.
E sou ingênuo, simplório e calino como um pião de criança, sou o vestido rendado que minha filhinha usa, sou a boneca de pano que as meninas carregam nas ruas, sou o doce e o sarcasmo que vendem nos cafés, sou um homem que se repete, repete, repete. E sepulto, oculto, clandestino, acoito e velo meu medo como um pai. Sou a pedra e o junco do Guaíba que o vento mói com água e espuma. E a senhora, moça: minha companheira, consorte, comparsa, sempre de conluio, arranjo e conjura, conspirando, tramando, maquinando e forjando novas indignidades, a senhora vai brotar de amor, brutalidade, verbos e expressões em cada casa dessa cidade velha, a senhora vai se adjetivar toda pra me dizer as coisas mais duras, a senhora vai se despir e despejar palavras, levantar a voz, empunhar o silêncio como uma pandorga sobre o morro, a senhora vai vestir um manto de silêncio e outro vermelho de fragor, a senhora será barroca com um acento luterano, vai usar imagens gastas como santinhos barrocos e dizer que o tempo é um rio e o silêncio um manto e a senhora noivará com meus juncos e meus óculos em qualquer igreja de improviso que tivermos construído no fim do morro, e a senhora vai ter medo do dia que se acaba, vai ter medo dos gatos vagabundos pelas ruas, sempre cheios de unhas e amores noturnos, vai ter medo dos brigadianos a cavalo e dos militares marchando com as cabeças de papel, vai ter medo de morrer, medo de viver, medo de continuar como estamos, medo de terminar a vida que levamos, medo das más influências, medo de seus filhos, medo dos vizinhos, medo dos aviões que passam rasantes sobre a cidade, medo dos estrangeiros, medo das crianças dos outros pelas ruas, medo de assaltos, medo desta crise econômica, da próxima crise econômica, medo de todas as fomes que passamos ou passaremos, de espírito ou pão, e a senhora sentirá falta de tudo, falta do sol quando a cidade está atolada no inverno ou no nevoeiro, falta da chuva quando ressecamos nos janeiros como na África - e somos dois leões desdentados ressecando ao sol nos parques - falta dos seus amigos que também se vão, como todos daqui.
Moça, nós ainda vamos fechar essa cidade e devolver as chaves pro Sepúlveda com laudações e glória, lá em Portugal, na vila de Portalegre lá dele, porque ele, moça, depois de ter plantado ruas, teatros e igrejinhas, depois de ter traçado nos seus papéis a nossa rua Bella, ele um dia também se foi, abriu as asas num gesto grave e deixou este ninho de pedras, desceu o rio Guaíba de caravelas e galeões festivos, disparando canhonaços em algum castelhano fugitivo, saiu pelo farol de Itapoã pra nunca mais, pra morrer de velho e virar um nome de rua em que os bêbados noturnos urinam, pra ganhar estátua de bronze e anonimato perpétuo, assim na terra como nos céus, e a senhora sente falta de qualquer coisa que nem sabemos nomear, e ficamos abestalhados folheando dicionários, e ficamos em êxtase minerando as enciclopédias da Biblioteca Pública com seu aviso aos entrantes, tão lindo quanto o da entrada do Inferno, e a senhora já está tão assim que nem poesia lhe salva, a senhora está tão assim que nem muita conversa não lhe convence, enlutada de coisas sem nome e sem rosto, cheia de dias de nevoeiro no peito, cheia de gente que não está mais, cheia de dias que parecem que vão acontecer como um balão de hélio subindo até as nuvens mas morrem feito bolhas de sabão contra as paredes, cheia de esperanças que vão parando como trens nas estações.
E a senhora nem fique assim, que lhe amo como amo aos ninhos, aos vôos curvilíneos das andorinhas sobre os terraços, às pitangueiras abarrotadas de flores pelas ruas em que andamos, às janelas venezianas flanando como bandeiras de madeira antes das tempestades, às flores dos parapeitos velando de antemão pela alma dos donos da casa, às noites geladas e repletas de vento nos recantos da Usina. Moça, a senhora é uma mulher com corpo de cidade, e é a minha cidade e minha casa, um veleiro diurno de velas bem caçadas e enfunadas por ventos de través, uma proa de escuna dividindo o rio em dois como os aviões partindo o céu em dois nas tardes ensolaradas, e nós dois somos motores cheios de dentes e palavras que acabam de parar, somos pássaros e versos ainda não catalogados, somos o vulto daquele navio gorducho que vem trazendo coisas pelo Guaíba, o vulto gorducho de um navio que vai encher todas as mesas de pão para o café da tarde, venha a nós o vosso reino, somos os trens indo lentamente para as gares como biguás pousando heráldicos sobre a água torpe do rio, somos as palavras que vão silenciando com as melodias, somos um fim de sinfonia em que alguns músicos já vão guardando os instrumentos enquanto outros ainda tocam, somos as letras finais de um livro que vai se acabando, acabando, acabando, e que a senhora fecha e aperta contra o peito, como um dia fez comigo.
Somos o Centro Velho, na madrugada, bocejando todos os nossos sonhos, enquanto o sol, mesmo antes de nascer, começa a esculpir o próximo nevoeiro.
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