A seqüência do post abaixo foi mais outro email do rapaz, cujos argumentos, cariocamente, resumiam-se a um ?ah, você é gaúcho, é? Então aproveitou o domingo pra ir à parada gay?, e que volto a responder por aqui, pois é uma discussão divertida e monga, como quase todas pela Internet.
Sempre achei engraçado o fato de que qualquer brasileiro deve, implicitamente, achar o Rio de Janeiro maravilhoso. Ao conversar com qualquer estrangeiro pela Internet, quase sempre o assunto vem à baila. É quase uma obrigação cívica. É, é uma obrigação: “Rio de Janeiro?” “Ah, o Rio de Janeiro é lindo, não?” “É, pois é…”
Há mais coisas implícitas que eu estranho e, às vezes, me incomodam: ?Ah, gaúcho? Chimarrão, churrasco, friozinho, eu adoro friozinho!” “Ah, brasileiro? Feijoada, feijão cuarrôz, torresminho, dobradinha, carne de sol, mocotó, caninha, pimenta!” “Ah, paranaense? Vaca barreada, organização!” “Rio de Janeiro? Carnaval, cordialidade, alegria, chopinho, festa!?. E por aí vai.
Sou de uma geração (em falta de melhor termo), talvez a última, que costumava associar o Rio de Janeiro com o que há de melhor no Brasil, na época em que Escadinha e o Comando Vermelho começavam a ganhar o noticiário. De lá pra cá, paulatinamente, de Rio-Babilônia, o Rio se transformou em Rio Faixa-de-Gaza, em pouco menos de vinte anos. E o interessante é observar que tudo isso é só o reflexo do que está narrado no ?O Cobrador? e no ?Feliz Ano Novo? do Rubem Fonseca, que me parecem ser a própria descrição da essência do que está ocorrendo no Rio e do que ainda virá.
E a cada ano véspera de Olimpíada (ano que vem tem outra, lembra? Em Atenas), o Rio de Janeiro é o candidato brasileiro a sediar os jogos de daqui a nove anos. Parece natural, não? Afinal, é a cidade mais maravilhosa do Brasil, etc, etc, mas nada, nada mesmo me parece mais estúpido que a candidatura perene do Rio de Janeiro a sede de qualquer coisa: Você iria a uma Olimpíada em Bogotá? O que faz alguém pensar que uma cidade e um estado incapazes de manter preso e minimamente controlado um pé-de-chinelo como o tal Fernandinho Beira-Mar seja capaz de organizar um evento como uma Olimpíada? Alguém ainda acredita que uma cidade com um índice de homicídios por cem mil habitantes maior que o de Bogotá ou que o da Faixa de Gaza seja encarada como uma competidora séria pelo Comitê Olímpico Internacional (que ainda tem vivo na memória o FIASCO que foram as Olimpíadas de Atlanta)? E lá vamos nós, de novo, lamentar a (óbvia) escolha de qualquer outro lugar que não o Rio de Janeiro pelo COI, e mais uma vez o Brasil, por conta desse tipo de interesse espúrio (?revitalizar? o Rio? garantir o caixa de algum veículo de comunicação em dificuldades?), que não se sabe bem de onde vem, perde a chance de ser sede de um evento como esse, que, não é preciso lembrar, é importante tanto econômica quanto socialmente para qualquer país.
Poderíamos especular à vontade sobre como seria uma Olimpíada no Rio: atletas sofrendo seqüestros relâmpago, o tráfico mandando fechar todo o comércio em protesto contra o policiamento extra devido aos jogos, balas perdidas atingindo espectadores do evento quando fossem à praia, um dos filhos do casal Garotinho (a esta altura eleito governador) dizendo que a culpa é do Governo Federal, exército pelas ruas fazendo o policiamento (ah, Bogotá, ah, Palestina!), arrastões festivos pela orla e no centro, hospitais cheios de gente com intoxicações alimentares das mais diversas e por aí vai. É claro que eu poderia imaginar uma Olimpíada no Rio bem diferente da acima, mas isso provavelmente seria um post do Mundo Perfeito, não da minha imaginação limitada.
Mas este ano, ao invés de Curitiba, Brasília ou Porto Alegre, a pré-candidata concorrente do Rio de Janeiro é São Paulo, uma cidade que, não só tem capacidade real de hospedar um evento dessa magnitude, mas que se encontra num estado em que bandidos pé-de-chinelo como o acima citado ficam em presídios de verdade e, surpreendentemente, presos. Talvez este ano o Comitê Olímpico Brasileiro não consiga alguma desculpa boa o suficiente pra escolher ? de novo ? a cidade ?maravilhosa? e, finalmente, o país venha a hospedar, em 2012, uma Olimpíada. Ou, por outra, vamos ver qual a desculpa que o COB vai arrumar pra que o Rio seja de novo nossa cidade candidata e continuemos, como bons vira-latas, lamentando que só os outros ? os ?civilizados? (a Grécia, civilizada? come on) ? conseguem fazer certas coisas.
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