Arquivo de junho de 2003

Diferenças

28 de junho de 2003

As principais diferenças entre a média das pessoas da minha idade e condição social daqui em comparação com as de Porto Alegre, também verificada pela distie e por outros amigos do Sul: Aqui as pessoas casam. De véu, grinalda, papel passado, festão pra patota esfomeada. Segundo o Mojo, sempre bem humorado, isso sim é ser contestador. Talvez seja. Chega a ser meio assustador.

Aqui as pessoas gostam de festas de São João. Pelo menos pela verve trash da coisa. Aqui as festas de São João começaram no mês passado e continuam até o dia de hoje, nesse exato instante em que espoucam rojões e o pior de todos os sanfoneiros nordestinos ever, desencavado de alguma das bibocas de um filme do Walter Salles, toca alguma versão bisonha do Último Pau-de-Arara numa ruazinha ao lado da minha casa que foi fechada para a tal festa.

Enfim, São João é uma festa mais abrangente e duradoura por aqui que o carnaval, pelo visto. Lembro que a última “festa de São João” de que participei foi em algum ano entre 1977 e 1981, e eu recém tinha deixado de fazer pipi na cama por causa do Velho do Saco. E eu ganhei um par de meias na pescaria. E pedi um beijo na boca para a Tati e levei um saco de pipocas na cabeça como resposta. Seriam as meninas da minha geração - agora quase todas responsáveis matronas - mais bravas que as de agora?

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Achado arqueológico

28 de junho de 2003

No ano 3673 de Nosso Senhor Jesus Cristo os arqueólogos do Serviço Nacional de História e Arqueologia concluíram a descoberta de uma das cidades mais importantes de uma das civilizações do final do segundo milênio e início do terceiro no hemisfério sul.

Após muito escavar, foram encontrados os vestígios de grandes obras, talvez uma cidade inteira, talvez apenas um agrupamento de templos, com arquitetura baseada em formas geométricas das mais diversas. A cidade, demonstrando o primitivismo ou a inspiração de seu construtor, é toda disposta em forma de pássaro ou aeronove, com núcleos urbanos verdadeiros, mas periféricos e menos importantes arquitetonicamente, ao seu redor.

Perguntado sobre a função que o conglomerado urbano teria tido, um dos arqueólogos responsáveis pela descoberta (que não quis se identificar) declarou:

“A vida devia ser horrível nesta cidade. Há indicações claras, por testes de carbono 14, de que a umidade relativa do ar naquela época, na região, era abaixo da aceitável para a vida em geral. Também as distâncias entre as edificações, muito grandes, provavelmente não poderiam ser percorridas a pé. Ainda estamos tentando entender qual a função desta urbe, mas, a um primeiro olhar, muito deste magnífico aparato urbano não tinha funcionalidade alguma. Talvez todo o conjunto arquitetônico não tivesse qualquer outra motivação que a estritamente religiosa. Também não está descartada a possibilidade de ter sido um grande complexo penitenciário. Há sinais claros de que houve edificações gigantescas, mas pelo fato de terem sido feitas em concreto - um material que, como todos sabemos, não dura mais que duzentos anos - todas as edificações desta descoberta, se as houve, devem ter desaparecido em meados do século 23.

Como Machu Pichu, as pirâmides, os templos gregos ou Stone Henge, Brasília continua sendo um mistério. Acredito que se alguma edificação tivesse ficado em pé, poderíamos atestar com mais precisão o grau civilizatório atingido por esse povo. Mesmo assim, o conjunto da obra ainda impressiona, e, caso haja a liberação das verbas para que mais escavações sejam feitas, em poucos anos a cidade estará aberta à visitação pública, pela primeira vez desde há quase 12 séculos.”

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Ah!

28 de junho de 2003

Choveu na minha horta. Obrigado, Montevideo e Rivera. Obrigado, feira de Acari. Obrigado, mamãe. Obrigado, Santo André. Obrigado vinte e cinco anos estudando tudo quanto é porra interessante nesse mundo. E, claro, obrigado, Bob Esponja.

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Pintor Francês

27 de junho de 2003

Relendo Fervor de Buenos Aires, o primeiro livro de poemas do Borges, de 1923, descubro que, pelo menos até os trinta e dois anos o homem também foi um pintor francês (ele nasceu em 24 de agosto de 1899, e até o início dos anos 30 há provas da afirmação anterior). Uma das provas do crime segue abaixo, sem tradução. Não sabe castelhano? Jodéte, véi.

Sábados

Afuera hay un ocaso, alhaja oscura
engastada en el tiempo,
y una honda ciudad ciega
de hombres que no te vieron.
La tarde calla o canta.
Alguien descrucifica los anhelos
clavados en el piano.
Siempre la multitud de tu hermosura.

*

A despecho de tu desamor
tu hermosura
prodiga el milagro por el tiempo.
Está en ti la ventura
como la primavera en la hoja nueva.
Ya casi no soy nadie,
soy tan sólo ese anhelo
que se pierde en la tarde.
En ti está la delicia
como está la crueldad en las espadas.

*

Agravando la reja está la noche.
En la sala severa
se buscan como ciegos nuestras soledades.
Sobrevive a la tarde
la blancura gloriosa de tu carne.
En nuestro amor hay una pena
que se parece al alma.

*


que ayer sólo eras toda hermosura
eres también todo el amor, ahora.

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Mais bairrismo

23 de junho de 2003

A seqüência do post abaixo foi mais outro email do rapaz, cujos argumentos, cariocamente, resumiam-se a um ?ah, você é gaúcho, é? Então aproveitou o domingo pra ir à parada gay?, e que volto a responder por aqui, pois é uma discussão divertida e monga, como quase todas pela Internet.

Sempre achei engraçado o fato de que qualquer brasileiro deve, implicitamente, achar o Rio de Janeiro maravilhoso. Ao conversar com qualquer estrangeiro pela Internet, quase sempre o assunto vem à baila. É quase uma obrigação cívica. É, é uma obrigação: “Rio de Janeiro?” “Ah, o Rio de Janeiro é lindo, não?” “É, pois é…”

Há mais coisas implícitas que eu estranho e, às vezes, me incomodam: ?Ah, gaúcho? Chimarrão, churrasco, friozinho, eu adoro friozinho!” “Ah, brasileiro? Feijoada, feijão cuarrôz, torresminho, dobradinha, carne de sol, mocotó, caninha, pimenta!” “Ah, paranaense? Vaca barreada, organização!” “Rio de Janeiro? Carnaval, cordialidade, alegria, chopinho, festa!?. E por aí vai.

Sou de uma geração (em falta de melhor termo), talvez a última, que costumava associar o Rio de Janeiro com o que há de melhor no Brasil, na época em que Escadinha e o Comando Vermelho começavam a ganhar o noticiário. De lá pra cá, paulatinamente, de Rio-Babilônia, o Rio se transformou em Rio Faixa-de-Gaza, em pouco menos de vinte anos. E o interessante é observar que tudo isso é só o reflexo do que está narrado no ?O Cobrador? e no ?Feliz Ano Novo? do Rubem Fonseca, que me parecem ser a própria descrição da essência do que está ocorrendo no Rio e do que ainda virá.

E a cada ano véspera de Olimpíada (ano que vem tem outra, lembra? Em Atenas), o Rio de Janeiro é o candidato brasileiro a sediar os jogos de daqui a nove anos. Parece natural, não? Afinal, é a cidade mais maravilhosa do Brasil, etc, etc, mas nada, nada mesmo me parece mais estúpido que a candidatura perene do Rio de Janeiro a sede de qualquer coisa: Você iria a uma Olimpíada em Bogotá? O que faz alguém pensar que uma cidade e um estado incapazes de manter preso e minimamente controlado um pé-de-chinelo como o tal Fernandinho Beira-Mar seja capaz de organizar um evento como uma Olimpíada? Alguém ainda acredita que uma cidade com um índice de homicídios por cem mil habitantes maior que o de Bogotá ou que o da Faixa de Gaza seja encarada como uma competidora séria pelo Comitê Olímpico Internacional (que ainda tem vivo na memória o FIASCO que foram as Olimpíadas de Atlanta)? E lá vamos nós, de novo, lamentar a (óbvia) escolha de qualquer outro lugar que não o Rio de Janeiro pelo COI, e mais uma vez o Brasil, por conta desse tipo de interesse espúrio (?revitalizar? o Rio? garantir o caixa de algum veículo de comunicação em dificuldades?), que não se sabe bem de onde vem, perde a chance de ser sede de um evento como esse, que, não é preciso lembrar, é importante tanto econômica quanto socialmente para qualquer país.

Poderíamos especular à vontade sobre como seria uma Olimpíada no Rio: atletas sofrendo seqüestros relâmpago, o tráfico mandando fechar todo o comércio em protesto contra o policiamento extra devido aos jogos, balas perdidas atingindo espectadores do evento quando fossem à praia, um dos filhos do casal Garotinho (a esta altura eleito governador) dizendo que a culpa é do Governo Federal, exército pelas ruas fazendo o policiamento (ah, Bogotá, ah, Palestina!), arrastões festivos pela orla e no centro, hospitais cheios de gente com intoxicações alimentares das mais diversas e por aí vai. É claro que eu poderia imaginar uma Olimpíada no Rio bem diferente da acima, mas isso provavelmente seria um post do Mundo Perfeito, não da minha imaginação limitada.

Mas este ano, ao invés de Curitiba, Brasília ou Porto Alegre, a pré-candidata concorrente do Rio de Janeiro é São Paulo, uma cidade que, não só tem capacidade real de hospedar um evento dessa magnitude, mas que se encontra num estado em que bandidos pé-de-chinelo como o acima citado ficam em presídios de verdade e, surpreendentemente, presos. Talvez este ano o Comitê Olímpico Brasileiro não consiga alguma desculpa boa o suficiente pra escolher ? de novo ? a cidade ?maravilhosa? e, finalmente, o país venha a hospedar, em 2012, uma Olimpíada. Ou, por outra, vamos ver qual a desculpa que o COB vai arrumar pra que o Rio seja de novo nossa cidade candidata e continuemos, como bons vira-latas, lamentando que só os outros ? os ?civilizados? (a Grécia, civilizada? come on) ? conseguem fazer certas coisas.

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