Moça, se a senhora quiser bem saber, lhe digo: não tem nada nesse mundo que não mude um dia, não tem tronco de árvore que não se encha de vidas alheias e parasitas: cheio de orquídeas, abelhas, morcegos, formigas, cupins, cheio de pássaros, fungos, esquilos e larvas, não tem tronco que não seja assim, isso de ir morrendo tão cheio de outras vidas, e vejo as casas velhas que vamos derrubando como nogueiras gigantescas e indefesas, as ruas que vamos rebatizando com o nome de gente anônima, as centenas de metros de rio que sepultamos com aterros e avenidas e prédios para burocratas, eu vejo as árvores crescendo e as crianças que vão embora, os velhos que vão embora, meus amigos que vão embora, meus filhos que vão embora, e fico aqui, como o último passageiro no trem para o arrabalde, o que vai para a última rua do bairro, e sou aquele que espera pra fechar a loja, pra apagar a luz, pra ver se está tudo bem aferrolhado, moça, que pra ser cidadão desta cidade é preciso mesmo se ir embora dela, que eu só conheço gente que não é mais daqui, gente que se foi, gente que já faz planos, e ainda não derrubaram a casa em que nasci só porque eu a escondi cuidadosamente no século de Dom Sebastião.
E eu ando pelas ruas desta cidade como um estrangeiro, e sou mal quisto pelo povo como um estrangeiro, eu sou um turista que busca detalhes em cada fachada, em cada rococó, pra descobrir em qual rua eu me perdi da senhora, em qual rua a senhora resolveu ir embora, e eu ando com essas raízes expostas pelas ruas, com meu sorriso de fratura exposta, ando por aí como calçamento que o jacarandá quebrou, ando empinando pandorgas e assustando as crianças pelas ruas do Centro Velho, e amo essa cidade e esse perfume de pântano, pitangas e fumaça fazendo amor em todos os recantos com os cadáveres que me restam, amo essa cidade enquanto escuto e lembro de sua voz, moça, pelos bares em que bebemos café, fumaça e láudano, amo essa cidade nos livros que ela guardou pra nós nos sebos da Rua do Cotovelo, amo essa cidade de pedras gastas e história perdida, amo as vendedoras de cicuta e morfina das pharmácias, e bebo todos os venenos sem dó de Deus ou da senhora, eu bebo a gasolina e o álcool das bombas dos postos, bebo petróleo e metais pesados na água do rio, bebo súlfur e todos os líquidos merencórios que rolam pelas escadarias à céu aberto, e quero incendiar disso que carrego dentro de mim, eu quero chorar, estourar e explodir junto com a senhora, e estou seco, eu quero chapinhar, derreter e conspurcar, e estou velho, eu quero morrer de vontade, arder de náuseas, quero morrer olhando pro teto, mas estou cansado.
Fui roubado e nem sei mais como se chora. Alguém levou minha vida embora e eu nem tive força pra gritar: ?pega ladrão!?. Moça, eu vou me exilar nas galerias subterrâneas, nos cabos dos telefones, nas noites de chuva, vou morar pra sempre embaixo dos trilhos do metrô, vou beijar sua boca em algum vidro de compotas, vou conversar com seu vulto como criança que fala com a imaginação, vou reunir todos os fantasmas e faremos um bonito chá de arsênico, e sangrarei de tédio, ódio e solidão na noite, pularei do vigésimo quinto andar de qualquer caixote, e vou iluminar os lampiões de querosene e derrota com meu sangue cheio de comburentes e ódio e nostalgia e odiarei a senhora até sua última circunstância, até sua última essência e seu último beijo e não perdoarei sua morte, sua ausência, sua fuga como se o fato de a senhora morrer fosse um atentado dirigido a mim, uma ofensa pessoal, um crime hediondo contra qualquer princípio aceito pelo maldito bom senso.
E serei intransigente, intolerante, fanático e satânico como o mais compenetrado e pio dos religiosos, serei perigoso como um beato em guerra santa, serei perigoso como um cientista convencido de uma verdade, exumarei seu cadáver em todos os cemitérios, e queimarei sua alma de criança na mesma fogueira em que os ingleses queimaram aquela menina que acabou virando santa, e disputarei aos vermes seus últimos beijos, e amaldiçoarei Deus e todas as promessas com soberba absoluta, e cegarei os olhos de todos que se aproximarem de ti e mergulharei em desespero com alegria, abraçarei o desespero como a um filho e dançarei em teus braços, ó Desespero, com ardores de filho, e calarei sobre tudo e sobre todos, e todas as vilezas serão normais, permitidas e aceitáveis, e convidarei à minha casa os mais vis traficantes de escravas brancas, os mais abjetos corruptores de mocinhas, os mais sanguinários assassinos, e viverei rodeado de escravas, fausto, vinho e loucura, e extorquirei vida, dinheiro e favores de todos os passantes e de todas as mulheres, e terei a mais vistosa carruagem de passeio, puxada por vinte moças nuas e acorrentadas, e serei louco e cruel, um César de subúrbio, um Átila de óculos, e venderei meninas em leilão como se fossem gado, para renovar meu plantel, e serei falso, fútil, mau e ignominioso, serei vencedor, arrogante e cheio de certezas, serei positivo, religioso e torpe, suserano de capitania, capitão do mato, coronel de estância, serei afirmativo, pedante e otimista, senhor de escravas, de certezas e, principalmente, dono de mim.
E farei tudo como manda o figurino, tudo como reza o ditado, como rezam as sagradas tradições, serei tradicional e místico, louvarei a Deus, a Satã e a mim mesmo da mesma forma, e esperarei a morte com a arrogância de quem espera a um inferior, com a benevolência com que se tratam os doentes terminais, com a espada pesada que se abate sobre os vencidos.
E tudo farei para espantar os últimos temores, e abrirei todas as janelas venezianas nos dias de tempestade, para que o vento as arranque e carregue em procissão pelas ruas, e beberei ácido, líquen e tanino nos cafés da manhã, e sangrarei cromo, mercúrio e fuligem pelos poros, e derreterei os metais e panelas da casa para construir poderosos navios de guerra e serei criador de novas liturgias e mitos.
E farei tudo apenas para esquecer que a senhora foi a minha vida um dia.
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