Arquivo de maio de 2003

Enfim

18 de maio de 2003

Curitiba, banana-passa, Graal, mato, mato, mato, mato. O Brasil é grande mesmo, mas melhorou pacas desde a última indiada dessas quinze anos atrás. E, acreditem, crianças portoalegrenses dos anos 70, a viação Cometa existe mesmo e ainda tem os mesmos ônibus com que brincávamos, só que de verdade. E cromados. Um luxo. De brinde, São Paulo nos presenteou com um domingo de cinema (¡de película, che!) e ganhei um quiche de alho poró (o parente) de parar o trânsito, matar o guarda, pedir em casamento, etc. É engraçado, mas Sampa já é a minha casa. Ah, e as carambolas, caquis e goiabas maduras custam 2 pilas o quilo.

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Última

15 de maio de 2003

Estou espiando o blog português-em-manhattan A Memória Inventada e gostando do que leio por lá.

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Voltando

15 de maio de 2003

Agora só volto a postar sábado ou domingo, de São Paulo. Abraços aos ficantes e aos amigos de Porto Alegre que não pude ver.

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Ir embora

15 de maio de 2003

Moça, se a senhora quiser bem saber, lhe digo: não tem nada nesse mundo que não mude um dia, não tem tronco de árvore que não se encha de vidas alheias e parasitas: cheio de orquídeas, abelhas, morcegos, formigas, cupins, cheio de pássaros, fungos, esquilos e larvas, não tem tronco que não seja assim, isso de ir morrendo tão cheio de outras vidas, e vejo as casas velhas que vamos derrubando como nogueiras gigantescas e indefesas, as ruas que vamos rebatizando com o nome de gente anônima, as centenas de metros de rio que sepultamos com aterros e avenidas e prédios para burocratas, eu vejo as árvores crescendo e as crianças que vão embora, os velhos que vão embora, meus amigos que vão embora, meus filhos que vão embora, e fico aqui, como o último passageiro no trem para o arrabalde, o que vai para a última rua do bairro, e sou aquele que espera pra fechar a loja, pra apagar a luz, pra ver se está tudo bem aferrolhado, moça, que pra ser cidadão desta cidade é preciso mesmo se ir embora dela, que eu só conheço gente que não é mais daqui, gente que se foi, gente que já faz planos, e ainda não derrubaram a casa em que nasci só porque eu a escondi cuidadosamente no século de Dom Sebastião.

E eu ando pelas ruas desta cidade como um estrangeiro, e sou mal quisto pelo povo como um estrangeiro, eu sou um turista que busca detalhes em cada fachada, em cada rococó, pra descobrir em qual rua eu me perdi da senhora, em qual rua a senhora resolveu ir embora, e eu ando com essas raízes expostas pelas ruas, com meu sorriso de fratura exposta, ando por aí como calçamento que o jacarandá quebrou, ando empinando pandorgas e assustando as crianças pelas ruas do Centro Velho, e amo essa cidade e esse perfume de pântano, pitangas e fumaça fazendo amor em todos os recantos com os cadáveres que me restam, amo essa cidade enquanto escuto e lembro de sua voz, moça, pelos bares em que bebemos café, fumaça e láudano, amo essa cidade nos livros que ela guardou pra nós nos sebos da Rua do Cotovelo, amo essa cidade de pedras gastas e história perdida, amo as vendedoras de cicuta e morfina das pharmácias, e bebo todos os venenos sem dó de Deus ou da senhora, eu bebo a gasolina e o álcool das bombas dos postos, bebo petróleo e metais pesados na água do rio, bebo súlfur e todos os líquidos merencórios que rolam pelas escadarias à céu aberto, e quero incendiar disso que carrego dentro de mim, eu quero chorar, estourar e explodir junto com a senhora, e estou seco, eu quero chapinhar, derreter e conspurcar, e estou velho, eu quero morrer de vontade, arder de náuseas, quero morrer olhando pro teto, mas estou cansado.

Fui roubado e nem sei mais como se chora. Alguém levou minha vida embora e eu nem tive força pra gritar: ?pega ladrão!?. Moça, eu vou me exilar nas galerias subterrâneas, nos cabos dos telefones, nas noites de chuva, vou morar pra sempre embaixo dos trilhos do metrô, vou beijar sua boca em algum vidro de compotas, vou conversar com seu vulto como criança que fala com a imaginação, vou reunir todos os fantasmas e faremos um bonito chá de arsênico, e sangrarei de tédio, ódio e solidão na noite, pularei do vigésimo quinto andar de qualquer caixote, e vou iluminar os lampiões de querosene e derrota com meu sangue cheio de comburentes e ódio e nostalgia e odiarei a senhora até sua última circunstância, até sua última essência e seu último beijo e não perdoarei sua morte, sua ausência, sua fuga como se o fato de a senhora morrer fosse um atentado dirigido a mim, uma ofensa pessoal, um crime hediondo contra qualquer princípio aceito pelo maldito bom senso.

E serei intransigente, intolerante, fanático e satânico como o mais compenetrado e pio dos religiosos, serei perigoso como um beato em guerra santa, serei perigoso como um cientista convencido de uma verdade, exumarei seu cadáver em todos os cemitérios, e queimarei sua alma de criança na mesma fogueira em que os ingleses queimaram aquela menina que acabou virando santa, e disputarei aos vermes seus últimos beijos, e amaldiçoarei Deus e todas as promessas com soberba absoluta, e cegarei os olhos de todos que se aproximarem de ti e mergulharei em desespero com alegria, abraçarei o desespero como a um filho e dançarei em teus braços, ó Desespero, com ardores de filho, e calarei sobre tudo e sobre todos, e todas as vilezas serão normais, permitidas e aceitáveis, e convidarei à minha casa os mais vis traficantes de escravas brancas, os mais abjetos corruptores de mocinhas, os mais sanguinários assassinos, e viverei rodeado de escravas, fausto, vinho e loucura, e extorquirei vida, dinheiro e favores de todos os passantes e de todas as mulheres, e terei a mais vistosa carruagem de passeio, puxada por vinte moças nuas e acorrentadas, e serei louco e cruel, um César de subúrbio, um Átila de óculos, e venderei meninas em leilão como se fossem gado, para renovar meu plantel, e serei falso, fútil, mau e ignominioso, serei vencedor, arrogante e cheio de certezas, serei positivo, religioso e torpe, suserano de capitania, capitão do mato, coronel de estância, serei afirmativo, pedante e otimista, senhor de escravas, de certezas e, principalmente, dono de mim.

E farei tudo como manda o figurino, tudo como reza o ditado, como rezam as sagradas tradições, serei tradicional e místico, louvarei a Deus, a Satã e a mim mesmo da mesma forma, e esperarei a morte com a arrogância de quem espera a um inferior, com a benevolência com que se tratam os doentes terminais, com a espada pesada que se abate sobre os vencidos.

E tudo farei para espantar os últimos temores, e abrirei todas as janelas venezianas nos dias de tempestade, para que o vento as arranque e carregue em procissão pelas ruas, e beberei ácido, líquen e tanino nos cafés da manhã, e sangrarei cromo, mercúrio e fuligem pelos poros, e derreterei os metais e panelas da casa para construir poderosos navios de guerra e serei criador de novas liturgias e mitos.

E farei tudo apenas para esquecer que a senhora foi a minha vida um dia.

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Feito

14 de maio de 2003

Os comentários foram para o caráleo de novo. Se quiser comentar algo, clica lá no link “Seu Desaforo” e manda um email. Chega de erro de javascript.

Update: Descobri por acaso esse sistema de comentários em ASP (outra linguagem de programação) que me pareceu simpático, principalmente pelo “mensagem privativa” e vou testá-lo. É pena que não haja uma maneira de migrar os comentários do sistema anterior, nem eu paciência pra migrar manualmente. Anyways.

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Salão Mourisco

14 de maio de 2003

Duas semanas atrás, num dia de semana qualquer, passeando com meu filho caçula pelo Centro Velho, entrei com ele na Biblioteca Pública. Ele tem quatro anos, não sabe ler, mas já sabe que os livros, além das figuras, guardam histórias como um preto velho de romance americano do século 19. Andamos por toda biblioteca, por onde nos deixaram andar. Descobrimos que a sala de leitura do subsolo, onde há uma fonte num pátio em que, quando eu era criança e passava boa parte do meu tempo por lá, todos tinham acesso, virou um escritório para a burocracia e interdito ao público. Na entrada da biblioteca, na porta principal, há um aviso em bronze: “Aqui circula o espírito do mundo”. Quando eu era criança, achava que o espírito do mundo eram os peixinhos dourados rodando naquela fonte do poço de luz, no subsolo. Humrum, uma imagem Selvagem da Motocicleta, que ainda nem tinha sido filmado. Queria mostrar a fonte ao menino e inventar alguma história do gênero pra ele, mas ficamos olhando tristemente a fonte de uma das janelas do térreo. Depois subimos a escadaria de mármore, para conhecer o Salão Mourisco, uma das muitas heranças do Positivismo Castilhista, vimos outros salões, algumas obras raras, outras consideradas raras não sei por quem, mas enfim, e fomos embora, ele aparentemente contente com o lugar esquisito que conheceu e eu meio triste de ter encontrado a biblioteca pública tão mal ajambrada, precisando de reformas, com cara de abandono. Lembrando que esteve no governo até 4 meses atrás um sujeito que, teoricamente, é um amante de livros, literatura, blá-blá-blá. E a BPERS fica praticamente em frente ao palácio do governador.

Pelo menos descobri ontem que a diretora Morgana Marcon conseguiu incluir a BPE no projeto Monumenta e que ela não vai cair de podre, que era o que a outra direção, do PT, estava deixando acontecer. Outra coisa legal foi ter visto o Salão Mourisco lotado, mesmo que não seja muito difícil lotar uma sala para cinqüenta pessoas, com um evento sobre História.

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Lambança

14 de maio de 2003

Abraçando um sistema que deu muito errado em outras capitais brasileiras - mesmo que sejam minúsculas e do meio rural, como gostam de dizer muitos paulistanos bem educados (os mal educados chamam de jeca, mesmo) - a prefeita Marta Suplicy começa a implementar uma “reforma” no transporte coletivo de São Paulo. Talvez porque São Paulo é uma cidade muito diferente do resto do país, dê certo, e é o que espero, pois ainda dependerei de ônibus por lá por algum tempo. Mas parece apenas um movimento pra aparecer na mídia, já que ano que vem, como começam a nos lembrar, tem eleição.

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Permanências e reminicências

13 de maio de 2003

Nem lembrava mais como eu ficava feliz com essas coisas. Ontem fui a uma palestra sobre ?Reminicências Medievais e Permanências Medievais Portuguesas? no Salão Mourisco da Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul. Ministrada pelos professores José Rivair Macedo e Glenda Cruz, foi uma boa surpresa, apesar de eu estar esperando algo mais focado em lingüística e menos histórico. E eu que nem sabia que já estavam levando estudos medievais a sério aqui no meio rural. É, você precisa rever seus conceitos, titio.

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Bravo

9 de maio de 2003

“Mas, ao contrário do Alexandre, eu gosto do Guimarães Rosa, e muito, especialmente quando ele escreve sobre seus ‘matutos’. Que não se trata, está claro, de literatura socialmente engajada. É literatura sobre ser humano, suas limitações, as forças e desejos que o movem. Quem lê o ‘Grande Sertão: Veredas’ e só enxerga ali um retrato da condição dos nordestinos abaixo da linha da miséria devia estar gastando o tempo com outra coisa.”

Daniel Galera, autor de Até o Dia em Que o Cão Morreu.

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Angola

9 de maio de 2003

Também espiando as estatísticas, vejo quatro ou cinco visitantes com IPs de Angola, há coisa de já mais ou menos um mês, diariamente. Eu sei que é indelicado dizer assim em público de onde vem ou não os visitantes do diário pessoal, mas fiquei curioso com o fato, e queria dizer ao(s) angolano(s) (pelo menos acredito que o seja(m)) que tenho muita curiosidade sobre seu país, de que conheço apenas o escritor Pepetela e o músico Waldemar Bastos (um quase ‘não-angolano’), e que se sinta à vontade pra me mandar um email ou deixar um comentário se assim achar ok.

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