Arquivo de maio de 2003

Ops

29 de maio de 2003

Ops, vai tarde, mas vai, tem um ensaio novo das supersexies e parece que as meninas tiveram uma semana agitada: Diário de Fortaleza, Revistra Trip e (hohohohoho, suprema ironia) o pasquim inominável.


Sabrina e Rico com a Rua Bella ao fundo - Foto-ensaio de Virulana Distimicavlov

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Felicidade

28 de maio de 2003

Todos me perguntam qual meu ofício, e eu digo sempre que nada, invento algum de improviso, sorrio sem graça, eu, que tenho que, obrigatoriamente, fazer alguma coisa de generosa, de concreta. Devolver bens ao convívio. Ser útil e produtivo. Consumidor de bens. Fomentador de progressos materiais. E estamos cheios de civilização, tédio e opulência pelas ruas, moça, estamos lotados de carros, maços de cigarro e mendigos com fome de vida, estamos cansados de sorrir por obrigação.

Vamos manter todas as aparências para as câmeras, e nem as tragédias mais requintadas nos comoverão o suficiente. Nós, que não sabemos o que é morte ou efeito especial. Cheios de versos bobos que se arrebentam contra as pedras vamos empinando em pandorgas nossas decepções e as vidas que gostaríamos de viver, enquanto esquecemos como se vive a nossa própria, nós somos aqueles que tiveram a alma decepada como um membro, vivemos sós, calados e sorrimos todas as nossas tragédias, somos os maiores desconhecidos para nossas pessoas mais íntimas, e somos apenas isto: transeuntes uns dos outros, fantasmas perdidos na multidão, lobotomias aparelhadas de pernas e língua pra falar e maldizer.

E eu amo a senhora, e odeio a senhora, eu sou cheio de contradições e sorridente. Eu sorrio ainda cheio de dentes e quem sabes. E eu falo sempre beirando ou explodindo hipérboles, eu exagero as palavras e estropio meus joelhos nas pedrinhas do asfalto das ruas. Eu zamzaleio pelas ladeiras como meninos em carrinhos de lomba, e sou menino e chorão, sorridente e fazedor de vento e espuma. Eu bebo cerveja ou vinho ou qualquer algo que me dê perspectiva de prosseguimento. E trocamos farpas, sorrisos, fluidos e acusações, moça, tudo tão espantadoramente a um só tempo que nem sei se a senhora ainda tem vontade de qualquer coisa, como eu tenho, como eu afeto, como oculto. E estamos tão cheios de certezas definitivas, de cicatrizes pelas pernas, tão certos de que não há nada de novo a dizer neste idioma, tão cheios de completude, Álvaros de Campos, Paulos Francis e pontos finais que emudecemos a cada pôr-de-sol, a cada pergunta que nos fazem. E bebemos vinho abraçados em Canções de Rolando, em Alcassinos e Nicoletas, em qualquer novela cavalheiresca com ou sem sentido, em qualquer epopéia sublime e solitária, e nos intoxicamos das letras dos outros para aplacar essa ânsia de mais e mais ilusão.

Precisamos de ópio, luz elétrica, vértigo e pães como cachorros sarnosos. Precisamos de música, láudano e vinho barato como bastardos de pai, precisamos um do outro como recém-nascidos de consolo:

Coce, coce, coce meu esqueleto, coce até o último pêlo, verme querido. Massageie, massageie, massageie minhas costas, moça, amada de sempre, até a última esperança.

E trocamos carícias e cartas até que nos enjoemos um do outro, trocamos beijos e impressões falsas do mundo até o final dos filmes em que nos metemos, até o final dos romances que representamos para o mundo. E a senhora, que acha que eu não lhe entendo, a senhora entende qualquer das coisas desse mundo? Nem me explique qualquer uma então, por favor, pra não perder a graça do filme.

E vamos vivendo em busca de ritmos, de melhores lugares pra se dançar, de pesqueiros e lagoas desconhecidas da multidão (ó, nós dois! - seres intolerantes que odiamos multidões, desconforto e acotovelamentos), e vamos sorrindo e fingindo, até que sejamos fazedores de nada, e felizes, e os que sofrem em silêncio, e felizes, e os que enlouquecem em público, e felizes, e os que se matam aos poucos, e felizes, e os que se comovem de tudo, e felizes, e os que enojam as pessoas, e felizes, e os que são infelizes de tudo, e felizes, e os que envelhecem a dois, e felizes.

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O Diário Perdido de Montevideo

28 de maio de 2003

Há algum tempo fiz uma viagem “gonzo” de férias pelo Uruguay e, por essas coisas bobas, resolvi anotar o que via, do dia da partida até a volta a Porto Alegre. Uns dias atrás, meu bom e velho amigo Ariel PbLogAn Pereira me disse que achara uns pedaços do dito cujo que eu enviara por email desde sua máquina e esquecera de apagar. Nem lembrava mais do tal diário. Abaixo, um pedaço do rapaz. Se eu achar algo mais ou menos legal nele, posto aqui. Diários. Putz.

Sábado - Partida de Punta del Este

Rodoviária de Punta del Este. Frio, treze graus e muito vento soprando da praia. A rodoviária é a meia quadra do mar. Duas horas de viagem até Montevideo. Me hospedarei no hotel Hospedaje Matriz, em Ciudad Vieja. Cem pesos por dia, com banheiro - o hotel mais barato que encontrei no bairro em que nasceu Ducasse - um dos motivos da minha visita. Estou tenso, pois não faço a menor idéia do que encontrarei por lá. Os uruguaios que conheço sempre são amáveis e educados, mas não é o que espero encontrar por lá, dessa vez. Hoje me avisaram para ter cuidado neste hotel. ?Ojo!?.

Não tenho sentido mais dores que o normal. Passei quase toda tarde conversando com Piero sobre a situação econômica do Uruguay. Bárbara tinha razão, Punta del Este é ok, sim, apesar de meio excessiva. Argentinizada demais. São 17:30 e vou apreciar a viagem. Me despeço de Punta feliz, foram ótimos esses últimos dias, mas ansioso por Montevideo, o sol começando a se pôr. Quatorze graus agora, mas Montevideo promete frio de verdade. O sul começa a ser impiedoso com todos nós. O ônibus rola pelas avenidas bem cuidadas de Punta. É sábado, e mesmo assim há gente cortando a grama dos passeios públicos. Pequena parada na rodoviária de Maldonado, alguns quarteirões à frente (Maldonado e Punta são duas cidades geminadas). Na saída da rodoviária, há uma fonte de uns 4 metros de altura, com dois leões marinhos, um apontando para o sul e outro para o norte. Tenho a sensação de estar numa ruazinha de uma cidade nórdica, semelhante às dos filmes que vi. Adiante, não mais que 50 metros, uma miniatura do Cristo Redentor, de 3 ou 4 metros de altura. O ônibus volta para uma larga avenida na beira da praia - praticamente deserta - com não mais que uns poucos pescadores. O mar, aqui, está sereno como o Guaíba, com pequenas marolas morrendo na areia, bem diferente de Playa Brava. Talvez seja a baía de que Piero me havia falado, pois Playa Mansa já deveria ter ficado a muitos quilômetros atrás. Não muito mais a ver, estamos saindo em definitivo de Maldonado, subindo um morro.

De repente, uma larga baía onde o sol se põe mansamente, vermelho. Penso em meu avô e digo, olha, velho, estou vendo isso pra ti. Sinto vontade de chorar, mas em ônibus não se faz isso. Ademais, o céu lá fora continua com essa cor indescritível de pôr-do-sol no inverno. Olha vô, como isso é lindo. Olha. De repente, me vem à boca o nome da cor, se acaso ela existir. Azul plúmbeo. O Sul.

Passamos uma ponte comprida e ainda nem sinal da estrada para Montevideo. Penso se as coisas, as pessoas e os momentos especiais que conheci ou vivi na vida, apesar de todo o sofrimento por que todos passam, apesar das dores horrorosas que me assolam os invernos, penso se essas coisas serão capazes de me tornar uma pessoa diferente, mais humano, generoso, melhor. Melhor que o que, mesmo, cara-pálida? me digo em seguida. O frio está te deixando desmiolado, Rico.

Os carros acendem os faróis na estrada. O Sul, com seus eucaliptos plantados, o Sul, com sua grama amarelando de frio, o Sul, com seus entardeceres plúmbeos, rosados, olivas. Colinas dos dois lados da estrada e horizontes a perder de vista para qualquer lado que se olhe. O Uruguay é pequeno, mas quem veja esses campos acaba com a ilusão de que ele não tem fim. As casas vão mudando de desenho e tez, vão se tornando mais e mais semelhantes às casas de outros lugares do interior do Uruguay, perdem o glamour afetado de Punta del Este à medida que avançamos pelo interior do país. Apenas agora me dou conta de que chegarei em Montevideo com noite fechada. Quero voltar de dia, na próxima semana, quando estiver vindo de Colonia del Sacramento. Amanhã, domingo, começo a pesquisar sobre Colonia e Ducasse, razões, além dos amigos, para estar aqui. Estou guardando os filmes P/B para Colonia. A luz ambiente começa a rarear, em breve terei de parar de escrever. Está abafado dentro desse ônibus. Começo a sentir calor. Um pouco enjoado da comida gorda, servida em casa de Cláudio e Gabriela. Gostosíssima, mas pesada. Claro, mas a culpa é da cerveja.

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A Prova

27 de maio de 2003

Eu ia fazer uma resenha longa e tal, mas fiquei sem saco. Sábado fomos ver ?A Prova? (The Proof, de David Auburn), com Andréa Beltrão, Emílio de Mello, Giselle Fróes e José de Abreu, direção de Aderbal Freire-Filho, que um amigo nos indicou. Vou pouco ao teatro, não porque goste pouco ou tenha algum preconceito contra. Vou pouco ao teatro pelo simples fato de que sou absolutamente apaixonado por teatro, fanático, e do tipo apaixonado murrinha, que sai bravíssimo de uma peça ruim ou de uma montagem desastrada de um bom texto. Jamais vou a comédias no teatro, a menos que algo ou alguém cuja opinião eu estime me indiquem.

Enfim, duvido que alguma peça este ano venha a ser melhor que esta. Andréa Beltrão está simplesmente grandiosa ? sem afetações ? como protagonista da história, os diálogos são muito bons, muito bons, o cenário funcional e muito apropriado, além de plasticamente bonito, enfim, tudo funciona. Fiquei muito impressionado com alguns lances da montagem e verei mais coisas do seu Aderbal Freire-Filho e mais textos do David Auburn que, porventura, forem encenados por aqui. Se tem algo em que os americanos e os alemães são os melhores há muitos, muitos anos, é na dramaturgia. É impressionante.

Os senões ficam por conta dos tiques de ?ator de teatro? do José de Abreu, nas primeiras cenas, que podem sugerir que você verá ?mais uma daquelas peças?, mas logo passam os tiques e a interpretação de todos é muito correta. No meio do texto você percebe que os tiques faziam parte do conflito. Alívio.

Como sempre que vejo algo que seja verdadeiramente bom, saí radiante do teatro. Vocês aí em Porto Alegre, se ainda não passou por aí, não percam. Pelo tipo de montagem, acredito que o único teatro que comporte esse texto seja o São Pedro.

E desconfiem de gente que disser que esse texto é uma comédia. Tem humor, sim, mas, por favor, sejam honestos, senhores resenhistas: Ou vocês considerariam Sexo, Mentiras e Videotapes uma comédia apenas porque tem algumas cenas mais engraçadas?

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Presente

26 de maio de 2003

Semana passada ganhei um presente lindo que acho que não agradeci direito, então aproveito que a pessoa que me presenteou vem a essa bodega com alguma freqüência, pra agradecer. É a edição da Record de Cantos de Outono ? O Romance da Vida de Lautréamont ? de Ruy Câmara, que talvez como romance seja uma merda (quem sabe? esse tipo de “romance da vida de fulano de tal” sempre é uma coisa de que desconfio, mas, enfim), mas foi um dos presentes mais bonitos e do fundo do coração que ganhei. Aquelas coisas de “isso é a tua cara, mê-o”. Obrigado, guria. Chuif. :^)

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