Felicidade
Todos me perguntam qual meu ofício, e eu digo sempre que nada, invento algum de improviso, sorrio sem graça, eu, que tenho que, obrigatoriamente, fazer alguma coisa de generosa, de concreta. Devolver bens ao convívio. Ser útil e produtivo. Consumidor de bens. Fomentador de progressos materiais. E estamos cheios de civilização, tédio e opulência pelas ruas, moça, estamos lotados de carros, maços de cigarro e mendigos com fome de vida, estamos cansados de sorrir por obrigação.
Vamos manter todas as aparências para as câmeras, e nem as tragédias mais requintadas nos comoverão o suficiente. Nós, que não sabemos o que é morte ou efeito especial. Cheios de versos bobos que se arrebentam contra as pedras vamos empinando em pandorgas nossas decepções e as vidas que gostaríamos de viver, enquanto esquecemos como se vive a nossa própria, nós somos aqueles que tiveram a alma decepada como um membro, vivemos sós, calados e sorrimos todas as nossas tragédias, somos os maiores desconhecidos para nossas pessoas mais íntimas, e somos apenas isto: transeuntes uns dos outros, fantasmas perdidos na multidão, lobotomias aparelhadas de pernas e língua pra falar e maldizer.
E eu amo a senhora, e odeio a senhora, eu sou cheio de contradições e sorridente. Eu sorrio ainda cheio de dentes e quem sabes. E eu falo sempre beirando ou explodindo hipérboles, eu exagero as palavras e estropio meus joelhos nas pedrinhas do asfalto das ruas. Eu zamzaleio pelas ladeiras como meninos em carrinhos de lomba, e sou menino e chorão, sorridente e fazedor de vento e espuma. Eu bebo cerveja ou vinho ou qualquer algo que me dê perspectiva de prosseguimento. E trocamos farpas, sorrisos, fluidos e acusações, moça, tudo tão espantadoramente a um só tempo que nem sei se a senhora ainda tem vontade de qualquer coisa, como eu tenho, como eu afeto, como oculto. E estamos tão cheios de certezas definitivas, de cicatrizes pelas pernas, tão certos de que não há nada de novo a dizer neste idioma, tão cheios de completude, Álvaros de Campos, Paulos Francis e pontos finais que emudecemos a cada pôr-de-sol, a cada pergunta que nos fazem. E bebemos vinho abraçados em Canções de Rolando, em Alcassinos e Nicoletas, em qualquer novela cavalheiresca com ou sem sentido, em qualquer epopéia sublime e solitária, e nos intoxicamos das letras dos outros para aplacar essa ânsia de mais e mais ilusão.
Precisamos de ópio, luz elétrica, vértigo e pães como cachorros sarnosos. Precisamos de música, láudano e vinho barato como bastardos de pai, precisamos um do outro como recém-nascidos de consolo:
Coce, coce, coce meu esqueleto, coce até o último pêlo, verme querido. Massageie, massageie, massageie minhas costas, moça, amada de sempre, até a última esperança.
E trocamos carícias e cartas até que nos enjoemos um do outro, trocamos beijos e impressões falsas do mundo até o final dos filmes em que nos metemos, até o final dos romances que representamos para o mundo. E a senhora, que acha que eu não lhe entendo, a senhora entende qualquer das coisas desse mundo? Nem me explique qualquer uma então, por favor, pra não perder a graça do filme.
E vamos vivendo em busca de ritmos, de melhores lugares pra se dançar, de pesqueiros e lagoas desconhecidas da multidão (ó, nós dois! - seres intolerantes que odiamos multidões, desconforto e acotovelamentos), e vamos sorrindo e fingindo, até que sejamos fazedores de nada, e felizes, e os que sofrem em silêncio, e felizes, e os que enlouquecem em público, e felizes, e os que se matam aos poucos, e felizes, e os que se comovem de tudo, e felizes, e os que enojam as pessoas, e felizes, e os que são infelizes de tudo, e felizes, e os que envelhecem a dois, e felizes.
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