Arquivo de maio de 2003

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30 de maio de 2003

Moça, ir embora é a melhor forma de continuar a ser daqui, ir embora e levar a cidade junto, dentro da senhora, que a senhora foi embora e nem nunca esteve tão presente como agora.

E vou embora pelas estradas desse país imenso e sem sentido, pelas estradas desse mundo torpe e absurdo, visitando os amigos daqui em todos os lugares, pelo casario de São Luiz, Recife e Ouro Preto, em dias de ressaca em Copacabana, Ilhéus e em Vitória, e vou respirando os ares gelados de Montreal, os furacões em Atlanta, me escondendo da vida nos prédios da Berrini, nas Ramblas à beira das duas margens do rio da Prata, estamos em Campo Grande e nas águas do Pará, navegamos nos cerrados e campos de Goiazes e Goitacazes, e cavalgamos Vilhenas, Rio Brancos e Porto Velhos, e estamos, vamos e viveremos as loucuras de Frankfurt, Colônia e Boston, mataremos arquiduques em Sarajevo, e também estaremos do outro lado, salvando as crianças dos franco-atiradores, dos cristãos fascistas, tapando feridas de mouros, descobrindo tesouros e cavando poços, e estamos em Nínive, Praga, em Ur e no crescente fértil, garimpando memória e petróleo, e a senhora que nem gostava assim dessa cidade, e a senhora está em Barcelona, Bratislava e Berlim, nos bairros de imigrantes de Londres, Paris e Roma, vivendo da caridade dos estados europeus, fazendo riqueza e sendo maltratada, chefiando departamentos de pesquisas ou lavando pratos e latrinas.

E somos os caranguejos deixando minúsculas pegadas nas praias anônimas de Santa Catarina, na Ferrugem, na Cal, e visitamos as casas que hospedaram ou pariram Martin Fierro, O Barão de Maldoror e Pedro Malasartes e somos o solo que seca rachando o vale do Jequitinhonha, somos as cidades avermelhando até a cintura de terra no Paraná, falamos guarani e estranhas línguas com sabor de beberagens no interior deste país de águas e meninas sorrindo, estamos em Tuiuti e andamos ao lado dos trinta e três orientais, fundamos Sacramento e matamos espanhóis em emboscadas, e a senhora conhece Gaudí em pessoa e ossos de concreto, e Rimbaud nos espera com chá e mau-humor na Abissínia, e corrigimos para a eternidade o monumento a Mario Quintana em Alegrete, vivemos em Lyon, em Treviso e em Málaga, e a senhora é tão vienense e florentina como Papini, tão italiana como nossos avós eram, tão langue d’oc como seus ancestrais Marselheses, tão marselhesa quanto meu avô napolitano, tão valenciana e vasca quanto minha avó angola, moça, a senhora é sangue leto, batavo, russo e ucraniano, é da pomerânia, moçambique, vietnamita e japonesa, a senhora é tão derrotada como qualquer navio que encalha no Guaíba e eu amo a senhora em Brasília, na Babilônia e no Bonfim, eu amo a senhora em Cali, em Petersburgo, em Vilna, eu amo a senhora no Porto, em Beira e em Macau, e eu entro no Mediterrâneo pela barra de Rio Grande ou pelas colunas de Hércules, eu costuro o Bósforo com agulhas e cola, eu planto o caminho sobre o Mar Vermelho no meio do Atacama, eu rebatizo as cataratas da Rainha Vitória com seu nome original, e seremos nômades, estranhos e bem adaptados em todos os lugares, e seremos portoalegrenses cheios de água do Guaíba e pôr-do-sol onde estivermos, e seremos açorianos nas naus de Colombo, índios minuanos povoando a Ilha de Cook, seremos pigmeus na Polinésia, plantaremos a torre Eiffel em Sidney, e seremos Nelson, Champollion, Garibaldi, Napoleão e a Grande Armada cheia de galeões irrompendo por Trafalgar Square, seremos Alexandre, Átila e o Sepúlveda, perseguindo castelhanos até quase os Champs Elysées, e explodiremos as Alexander Platz e catedrais de Diamantina pelos bulevares, e amaremos o mundo com os mesmos olhos que vêem o sol se pondo na Usina do Gazômetro, e carregaremos nossa tristeza congênita por todas as terras, e espalharemos nosso sorriso triste por todos os filhos que tivermos nesse mundo, e teremos saudades de nossa infância como do vento tépido pelas ruas do Centro Velho, e amaremos nossas crianças como amamos o mar e as milhas que passam sob o casco de nossos navios nos oceanos, seremos a mesma andorinha em todos os portos, seremos a mesma ave de arribação em cada lugar, e os homens nos respeitarão por que sabem que viemos de longe e não temos destino certo, e reviveremos esta língua maltratada como o Vasco que viajou a Calicute, e falaremos tão bonito como Magalhães e mamãe, e em nós sobreviverá e renascerá essa língua tenra, macia e sanguinária, que nos ensinaram pra que disséssemos a nossos filhos que nós, moça, nós os amamos e respeitamos, e amamos ao vento, e amamos àquele veleiro que vai levando a senhora pela cinza do rio Guaíba pro Morro do Osso, pra Rua Bella, pra Rua Clara, pra nossa infância, pra nossa casa, no colo.

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Eu sabia

29 de maio de 2003

A febre de posts abaixo só podia significar uma coisa: febre de verdade. Vou tomar uma aspirina e dormir. Hasta luego, señores.

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Paulo Francis on Herman Melville

29 de maio de 2003

Achei no meu disco rígido umas coisas clipadas do site Paulo Francis, o contundente crítico cultural.

Quando se lê “Moby Dick”, de Herman Melville, é a obsessão do capitão do baleeiro, Ahab, perneta, feroz, bíblico, implacável, contra a baleia branca, “Moby Dick”, que nos agarra a imaginação. A inexorabilidade trágica do destino de Ahab é a essência do romance.

Em Billy Budd, noveleta, um jovem bonito, inocente, amigável, servindo na marinha de guerra inglesa, é amado por toda a tripulação, os oficiais inclusos, que veêm em Billy uma espécie de Adão, antes da queda. Menos Claggart, que o odeia, como Ahab a baleia. Claggart provoca Billy a tal ponto que este o mata. É julgado pelos oficiais. É condenado e executado. A história se passa no fim do século XVIII, quando a marinha inglesa era o único obstáculo a que Napoleão Bonaparte conquistasse a Europa. Já tinha sofrido um motim sério, em 1798, suprimido a bala. O capitão sabe que Claggart não prestava e Billy é intrinsecamente inocente, mas tem de mandar matá-lo, por Realpolitik. Billy o perdoa.

“Billy Budd” só foi publicado em 1924. Melville viveu de 1819 a 1891. Teve um breve sucesso com “Typee”, seu primeiro romance passado nas Ilhas dos Mares do Sul. Depois, começou a ser verificado pelos críticos. A recepção a “Mobby Dick” é um exemplo insuperado de insensibilidade crítica. Melville morreu em desespero.

Começou a interessar a gente de toda parte quando Albert Camus escreveu sobre “Mobby Dick”. Harold Beaver, no “TLS”, não cita sequer Camus. Atribui a ressurreição de Melville a Benjamim Britten, que escreveu uma ópera sobre “Billy Dick”, W. H. Auden e E. M. Forster, que se interessaram pelo conteúdo homoerótico da obra de Melville. Pfui. Leiam os livros.

E fiquei pensando que o meu Melville preferido é Benito Cereno, mas não lembro mais do argumento do livro. Hum, há algo de errado com minha memória e não é maconha.

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Pratos quebrados

29 de maio de 2003

Para eterno desespero da torcida do Madureira, dos meus amigos e dos vizinhos em qualquer cidade, continuo e acho que jamais deixarei de ser fanático por Erasmo Carlos. Tenho quase tudo dele, das coisas mais antigas, iê-iê-iê da jovem guarda, passando pela carreira solo dos anos 80 - a parte que mais gosto, inclusive - até as coisas mais recentes e um tanto quanto lamentáveis. Ouço tudo e continuo gostando, com o detalhe que simplesmente não suporto qualquer das fases do Roberto Carlos. Desde criancinha. Pobre Tremendão, deve ter mais dois ou três fãs no país. CDs e vinis dos anos 80 do Tremendão são um excelente presente para o tio aqui, se você eventualmente estiver na contingência de querer fazer algum presente - e não for da torcida do Madureira.

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Querido Diário

29 de maio de 2003

Semana agitada, essa que termina amanhã, depois de uma relativa “paradeira”. Depois de ter perdido a corrida armamentista, parece que rúculas e agriões voltarão a florescer no meu canteiro. Novidades para breve. Hoje pela manhã conheci o Tatuapé, 14,5 km distante da minha casa, segundo o maplink. Quase todo portoalegrense que passa algum tempo por aqui descobre que São Paulo, afora o rio Guaíba, é igual ao pago, mas seis, dez, quinze, vinte vezes maior. Há várias avenidas da Azenha, o Partenon daqui leva quase quarenta minutos pra ser atravessado de carro, Santo André é a cara de Sapucaia do Sul, só que dez vezes maior, São Bernardo do Campo é igual a Canoas, e, hoje de manhã, descobri que o Tatuapé, Brás, Bresser, Belém e arredores são a versão paulistana dos bairros de Navegantes e São Geraldo, só que muito, muito maiores. A Santa Ifigênia e arredores, perto da fabulosa (mais uma scania vabis de adjetivos) Estação da Luz, é uma versão mais suja e mais comprida da Senhor dos Passos e arredores. Mas não consigo identificar algo que seja nem remotamente semelhante ao que é a Pinacoteca (a formidável e mais outro caminhão de adjetivos - que eu conheço a algum tempo) com qualquer coisa existente em Porto Alegre. E nem venham me falar do MARGS. É outra, outra coisa. E, sim, o Morumbi também é uma versão com elefantíase da Chácara das Pedras e arredores.

De qualquer forma, estou torcendo que as rúculas e agriões venham dos arredores da Estação da Luz, não do Tatuapé. Está prometido um ritual pagão que envolve o sangue branco de uma grande dama. Velas para o negrinho do pastoreio já estão acesas, indeed.

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