Um guri porreta

Por Láudano Sine Nauta Navis

Desde que voltei o Zorro tem passado todos os dias na casa da avó - minha mãe, onde estou me hospedando - matando ostensivamente as “aulas” na creche. Hoje fomos, entre outras coisas, ver pela segunda vez o veleiro-escola Cisne Branco, da marinha, que está ancorado no porto de Porto Alegre. Esta é uma das nossas principais diversões aqui no meio rural: ver navios zarpando do porto, visitar algum ocasional veleiro, velejar, etc, e o de que mais sinto falta, além do próprio Zorro. Qualquer coisa relacionada a barcos - de livros a miniaturas dos propriamente ditos - é o regalo predileto do moleque, que vive dizendo que, quando crescer vai trabalhar bastante pra comprar um veleiro de três mastros e vai me convidar pra passear nele. Grande garoto.

Pois hoje foi um dia muito divertido por uma série de coisas, entre elas a visita ao Cisne Branco. No tombadilho da proa, próximo a um dos canhões de salvas, o guri pergunta a um dos marinheiros: moço, esse é um navio escola, não? e o marinheiro, mecânico: é, é o navio-escola da marinha Cisne Branco. E como faz pra entrar na tua escola? posso ser aluno aqui? Risos e explicações, o guri não se convenceu: E se, depois duma tempestade, vocês encontrarem um navio pirata, um brigue de dois mastros mais rápido que o Cisne Branco? E se eles atirarem em vocês e quebrarem o traquete (mastro de traquete, o da frente). O marinheiro ficou quieto, sorrindo. Bom, aí vamos ter de responder ao fogo, disse, por fim. Com esse canhãozinho aí? Tsc.

Depois fomos ao Margs ver as gravuras do Francisco Toledo e, principalmente, nos manter ao abrigo da chuva gelada que começava a cair. No Margs, além dos pintores acadêmicos de sempre, uma ou duas exposições de autores pouquistas, desses que já estamos acostumados, também. Eu e o Zorro gostamos das gravuras do mexicano Toledo, menos do que as do Otto Dix, mas nos divertimos, principalmente com os sapos Lautreamonianos do rapaz. Ficamos até as 19h. Depois era a hora de ir pra casa e pedir uma prometidíssima pizza do Cavanhas, ainda chovia, tomamos um táxi que cruzou um sinal vermelho (”Ei, o senhor cruzou o sinal vermelho, tio!” e deixou o taxista completamente sem graça) e chegou uns 15 segundos antes que se tivesse respeitado o sinal. “Ah, a maioria dessas pessoas por aí morreria de fome se tivesse de dirigir um táxi”, tentou se defender o tiozinho. Chegamos, ligamos a TV na TVE, ficamos vendo um documentário sobre a vida de um dromedário na Austrália - vimos um dromedário nascer, parece gente, papai… e, quando eu ia chamar a pizza: ZZZZZZZZ. Enfim.

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