Desembarque
Por Láudano Sine Nauta NavisDepois de quase quatro meses de governo Lula e de uma série de informações, às vezes de cocheira, às vezes públicas, como alguns outros também estou desembarcando do estelionato em que se transformou a atual administração federal do PT e do senhor Luís Inácio da Silva. Minha namorada me enviou ontem um interessante artigo do Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo de domingo e um artiguinho no Correio do Povo de hoje me reforçam esta decisão que já estava sendo calmamente apascentada desde a indicação do senhor Antônio Palocci para o ministério da Fazenda - o único ministério que importa em qualquer republiqueta de bananas, como a República Federativa das Bananas do Brasil. Antônio Palocci que ainda não explicou satisfatoriamente o caso dos extratos de tomate com ervilha para a merenda escolar na prefeitura que pilotava no interior de São Paulo.
No artigo de Jânio de Freitas, como em outro, anterior, de Élio Gaspari, está descrita a orientação econômica e, por conseqüência, política, que permeará os próximos três anos e meio da administração paulista-petista do Governo Federal, baseada no documento ?Políticas Econômicas e Reformas Estruturais” apresentado pelo senhor Palocci, recentemente. Trata-se como disse Jânio de Freitas, baseado em trabalho da repórter Marta Salomon, de um documento provindo de uma ONG (o IETS) financiada por organismos internacionais e pelo próprio governo brasileiro, que vaticina que “o problema brasileiro básico é o déficit governamental”, ao contrário do que diagnosticam vários economistas, até mesmo do PT, que “localizam o problema básico no ‘estrangulamento externo, no aumento dos passivos externos’ (dívida externa, seus juros, e balança de transações internacionais)”.
E Jânio ressalta: “Diagnóstico diferente, receituário diferente.” Ou seja, aprofundamento do receituário do governo anterior, com mais “aperto fiscal” para que se possa “honrar os compromissos”. Em português de boteco significa simplesmente aumento de impostos para que se possa pagar os juros das dívidas do Governo Federal. A mesma situação que se viveu na época da Derrama, que culminou na Inconfidência Mineira e na época do aumento de impostos que culminou na Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul. A previsão é de que, aprovadas as tais reformas do senhor Luís Inácio da Silva, a carga tributária (aumentada de 25 para 37% do PIB do país pelo governo do sociólogo paulista Fernando Henrique Cardoso) chegue a 40% do PIB. A cada 5 reais produzidos no Brasil, 2 serão do governo, para pagar os juros da dívida. Ultrapassaremos a Alemanha, a França, e alguns outros países europeus no peso da carga tributária, só atrás dos países nórdicos, enquanto a contrapartida dos serviços, na maior parte do Brasil continuará senegalesa. Sim, senhores, o Haiti é aqui.
Não encontro meios suficientes pra exprimir a tristeza que essa situação - ver o PT e todo um projeto nacional e de independência nacional em que, apesar de acreditar e apoiar com várias ressalvas, eu e toda minha família nos engajamos desde 1982 - anda me causando. Ando mau humorado e me sentindo ludibriado, com certeza, mas com a firme disposição de não deixar que esses grandes baluartes do PT paulista estraguem de uma vez por uma das poucas alternativas viáveis para que, pelo menos meus netos e os seus, leitor, venham a ver e viver em um país de que não precisem sentir vergonha. Ou você não sente vergonha do país em que vive?
Quem devia ser expulso do PT não são os “radicais”, que apenas defendem o programa do partido que também ajudaram a fundar e a quem se está, como em Cuba (defendida pelo presidente e pelo chefe da casa civil) ou nos Estados Unidos (combatidos por todos os “humanistas” de plantão), negando o direito de divergir. Quem devia ser expulso do PT é o senhor Lula e quase toda esse gente que ele, apenas ele, indicou para a área econômica. E, pode ter certeza de que, numa votação nesse sentido dentro do partido, é o que provavelmente aconteceria. Estou acompanhando atentamente a movimentação dos parlamentares do PT em quem votei e os que conheço pessoalmente, e, pode ter certeza, pelo menos um deles vai ter muitas dificuldades em se reeleger para qualquer coisa aqui no RS, se continuar votando essas reformas junto com o governo.
Só para concluir, algumas das reformas propostas e que não estão sendo apresentadas claramente à sociedade:
- Previdência: Os números da Previdência, que seriam publicados, continuam na caixa-preta. Onde está a tal transparência das administrações petistas? Aqui em Porto Alegre, os números da prefeitura são públicos e acessíveis a qualquer cidadão. Por que estes mesmos números não podem ser apresentados claramente aos eleitores? A atual reforma vai em sentido contrário e confirma o fechamento das contas da previdência.
- Lei de Falências: A título de criar condições para a diminuição do “spread” bancário, a taxa de juros extra e extorsiva que os bancos cobram para emprestar dinheiro aos cidadãos comuns e empresários, será modificada a lei de falências que garante que, em caso de falência, os direitos (pagamentos devidos pela massa falida) dos trabalhadores são os primeiros a ser respeitados, logo após o fisco e depois o resto (bancos, fornecedores, credores em geral).
- Por algum motivo não muito claro, pelo menos pra mim, mas talvez por ter a mesma origem (no FMI, no Banco Mundial, elsewhere), a taxa extra a ser cobrada dos aposentados (todos, não só os públicos) é igual a que o Fernando De La Rúa começou a cobrar dos aposentados argentinos: Onze por cento. Lá, deu no que deu.
Há outros pontos “obscuros” da tal reforma, que comentarei em outros posts. E estarei nas passeatas, atos, o cacete, de apoio e contra a expulsão da deputada Luciana Genro, que pode ser porra-louca, riponga, etc, mas não se vendeu por meia dúzia de sorrisos de banqueiros.
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