Carta Vieja del Diablo

Mil novecentos e noventa e um, Iraque já bombardeado, rumores de milhares de mortos pelos bombardeios cirúrgicos da tal guerra de videogame na sua primeira edição. De manhã, faculdade, almoçar no RU do Campus do Vale, um frio do cacete e, à noite, comprar uma garrafinha de qualquer coisa sauvignon - a mais barata que houvesse - no mini-Zaffari da Protásio esquina Carazinho, algum queijo, algum salaminho, algum pão. Se fosse alguma ocasião especial, um vinho argentino, talvez um malbec Medrano ou Mariscal sei-lá-o-quê, não lembro mais. Quando era dia de almoçar em casa, inexoravelmente caldo de ervilhas. A grana sempre muito curta, mas não pro prazer minúsculo de uma garrafinha de vinho, um queijinho e outras porcarias, sorrisos, papos na cozinha até sabe deus que hora e música, muita música. Lá pelas tantas vinha a síndica do prédio reclamar que a conversa estava muito alta. Conversa e jazz altos. Uma das melhores coleções de vinis que vi até hoje, poucos mas preciosos, bem cuidadinhos, almofadas de limpeza e mãos carinhosas para a limpeza das trilhas, o cheiro estranho do álcool isopropílico, móveis antigos, espelhos bisotados, muralhas de livros meio bagunçados, objetos legais, legais, e muita, muita coisa uruguaya pelas paredes, nas estantes, na cozinha. Longas caminhadas nas noites geladas, grossos sobretudos de lã, chá de rum, a concha de prata para preparar chá, garrafas de Pilsen de litro, cinzeiros com o desenho do mapa do Uruguay, pomelo Paso de Los Toros, queso parrillero, dulce de leche Conaprole, todo um micro mundo furiosamente diferente dos meus micro mundos até então.
Numa das primeiras viagens à fronteira encontramos a garrafinha. Barata, muito barata, três dólares e pouco. Casillero del Diablo. O nome era ótimo, o rótulo magnífico para a época, a história no contra-rótulo divina. O vinho era simplesmente muito bom, ou nos pareceu. Levamos algumas garrafas para Porto Alegre. Algum tempo depois descobrimos também outro, Carta Vieja, um pouco mais barato e também razoável.
Esses dias tive a oportunidade de revisitar a ambos, Casillero e Carta Vieja, aqui em Sampa e os encontrei ruins, com gosto de uvas niágara no fundo, sem a cor que nos encantava, ácidos e muito alcoólicos. No contra-rótulo um aviso: Vinícola Concha y Toro, importado do Chile, mas engarrafado em Osasco, ou algo assim.
Não sei porque fiquei triste, como se aquelas duas garrafas de vinho chileno falsificadas em Osasco fossem um atentado brutal contra aquele micro mundo que, sei lá, é uma das melhores lembranças que carrego comigo e o porquê de ter lembrado do conto Le Secret de Maître Cornille de Alphonse Daudet:
Et nous avions tous des larmes dans les yeux de voir le pauvre vieux se démener de droite et de gauche, éventrant les sacs, surveillant la meule, tandis que le grain s’écrasait et que la fine poussière de froment s’envolait au plafond.
C’est une justice à nous rendre : à partir de ce jour-là, jamais nous ne laissâmes le vieux meunier manquer d’ouvrage. Puis, un matin, maître Cornille mourut, et les ailes de notre dernier moulin cessèrent de virer, pour toujours cette fois… Cornille mort, personne ne prit sa suite.
Que voulez-vous, monsieur !… tout a une fin en ce monde, et il faut croire que le temps des moulins à vent était passé comme celui des cloches sur le Rhône, des parlements et des jaquettes à grandes fleurs.
Enquanto isso, no Iraque, a população libertada acaba de saquear e destruir um dos mais importantes museus de todo o Oriente Médio, repleto de peças sumérias, assírias, babilônicas e do primeiro califado bagdali, sob o olhar impassível dos marines. Que voulez-vous, monsieur ?
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