Arquivo de abril de 2003

Desembarque

29 de abril de 2003

Depois de quase quatro meses de governo Lula e de uma série de informações, às vezes de cocheira, às vezes públicas, como alguns outros também estou desembarcando do estelionato em que se transformou a atual administração federal do PT e do senhor Luís Inácio da Silva. Minha namorada me enviou ontem um interessante artigo do Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo de domingo e um artiguinho no Correio do Povo de hoje me reforçam esta decisão que já estava sendo calmamente apascentada desde a indicação do senhor Antônio Palocci para o ministério da Fazenda - o único ministério que importa em qualquer republiqueta de bananas, como a República Federativa das Bananas do Brasil. Antônio Palocci que ainda não explicou satisfatoriamente o caso dos extratos de tomate com ervilha para a merenda escolar na prefeitura que pilotava no interior de São Paulo.

No artigo de Jânio de Freitas, como em outro, anterior, de Élio Gaspari, está descrita a orientação econômica e, por conseqüência, política, que permeará os próximos três anos e meio da administração paulista-petista do Governo Federal, baseada no documento ?Políticas Econômicas e Reformas Estruturais” apresentado pelo senhor Palocci, recentemente. Trata-se como disse Jânio de Freitas, baseado em trabalho da repórter Marta Salomon, de um documento provindo de uma ONG (o IETS) financiada por organismos internacionais e pelo próprio governo brasileiro, que vaticina que “o problema brasileiro básico é o déficit governamental”, ao contrário do que diagnosticam vários economistas, até mesmo do PT, que “localizam o problema básico no ‘estrangulamento externo, no aumento dos passivos externos’ (dívida externa, seus juros, e balança de transações internacionais)”.

E Jânio ressalta: “Diagnóstico diferente, receituário diferente.” Ou seja, aprofundamento do receituário do governo anterior, com mais “aperto fiscal” para que se possa “honrar os compromissos”. Em português de boteco significa simplesmente aumento de impostos para que se possa pagar os juros das dívidas do Governo Federal. A mesma situação que se viveu na época da Derrama, que culminou na Inconfidência Mineira e na época do aumento de impostos que culminou na Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul. A previsão é de que, aprovadas as tais reformas do senhor Luís Inácio da Silva, a carga tributária (aumentada de 25 para 37% do PIB do país pelo governo do sociólogo paulista Fernando Henrique Cardoso) chegue a 40% do PIB. A cada 5 reais produzidos no Brasil, 2 serão do governo, para pagar os juros da dívida. Ultrapassaremos a Alemanha, a França, e alguns outros países europeus no peso da carga tributária, só atrás dos países nórdicos, enquanto a contrapartida dos serviços, na maior parte do Brasil continuará senegalesa. Sim, senhores, o Haiti é aqui.

Não encontro meios suficientes pra exprimir a tristeza que essa situação - ver o PT e todo um projeto nacional e de independência nacional em que, apesar de acreditar e apoiar com várias ressalvas, eu e toda minha família nos engajamos desde 1982 - anda me causando. Ando mau humorado e me sentindo ludibriado, com certeza, mas com a firme disposição de não deixar que esses grandes baluartes do PT paulista estraguem de uma vez por uma das poucas alternativas viáveis para que, pelo menos meus netos e os seus, leitor, venham a ver e viver em um país de que não precisem sentir vergonha. Ou você não sente vergonha do país em que vive?

Quem devia ser expulso do PT não são os “radicais”, que apenas defendem o programa do partido que também ajudaram a fundar e a quem se está, como em Cuba (defendida pelo presidente e pelo chefe da casa civil) ou nos Estados Unidos (combatidos por todos os “humanistas” de plantão), negando o direito de divergir. Quem devia ser expulso do PT é o senhor Lula e quase toda esse gente que ele, apenas ele, indicou para a área econômica. E, pode ter certeza de que, numa votação nesse sentido dentro do partido, é o que provavelmente aconteceria. Estou acompanhando atentamente a movimentação dos parlamentares do PT em quem votei e os que conheço pessoalmente, e, pode ter certeza, pelo menos um deles vai ter muitas dificuldades em se reeleger para qualquer coisa aqui no RS, se continuar votando essas reformas junto com o governo.

Só para concluir, algumas das reformas propostas e que não estão sendo apresentadas claramente à sociedade:

- Previdência: Os números da Previdência, que seriam publicados, continuam na caixa-preta. Onde está a tal transparência das administrações petistas? Aqui em Porto Alegre, os números da prefeitura são públicos e acessíveis a qualquer cidadão. Por que estes mesmos números não podem ser apresentados claramente aos eleitores? A atual reforma vai em sentido contrário e confirma o fechamento das contas da previdência.

- Lei de Falências: A título de criar condições para a diminuição do “spread” bancário, a taxa de juros extra e extorsiva que os bancos cobram para emprestar dinheiro aos cidadãos comuns e empresários, será modificada a lei de falências que garante que, em caso de falência, os direitos (pagamentos devidos pela massa falida) dos trabalhadores são os primeiros a ser respeitados, logo após o fisco e depois o resto (bancos, fornecedores, credores em geral).

- Por algum motivo não muito claro, pelo menos pra mim, mas talvez por ter a mesma origem (no FMI, no Banco Mundial, elsewhere), a taxa extra a ser cobrada dos aposentados (todos, não só os públicos) é igual a que o Fernando De La Rúa começou a cobrar dos aposentados argentinos: Onze por cento. Lá, deu no que deu.

Há outros pontos “obscuros” da tal reforma, que comentarei em outros posts. E estarei nas passeatas, atos, o cacete, de apoio e contra a expulsão da deputada Luciana Genro, que pode ser porra-louca, riponga, etc, mas não se vendeu por meia dúzia de sorrisos de banqueiros.

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Um guri porreta

27 de abril de 2003

Desde que voltei o Zorro tem passado todos os dias na casa da avó - minha mãe, onde estou me hospedando - matando ostensivamente as “aulas” na creche. Hoje fomos, entre outras coisas, ver pela segunda vez o veleiro-escola Cisne Branco, da marinha, que está ancorado no porto de Porto Alegre. Esta é uma das nossas principais diversões aqui no meio rural: ver navios zarpando do porto, visitar algum ocasional veleiro, velejar, etc, e o de que mais sinto falta, além do próprio Zorro. Qualquer coisa relacionada a barcos - de livros a miniaturas dos propriamente ditos - é o regalo predileto do moleque, que vive dizendo que, quando crescer vai trabalhar bastante pra comprar um veleiro de três mastros e vai me convidar pra passear nele. Grande garoto.

Pois hoje foi um dia muito divertido por uma série de coisas, entre elas a visita ao Cisne Branco. No tombadilho da proa, próximo a um dos canhões de salvas, o guri pergunta a um dos marinheiros: moço, esse é um navio escola, não? e o marinheiro, mecânico: é, é o navio-escola da marinha Cisne Branco. E como faz pra entrar na tua escola? posso ser aluno aqui? Risos e explicações, o guri não se convenceu: E se, depois duma tempestade, vocês encontrarem um navio pirata, um brigue de dois mastros mais rápido que o Cisne Branco? E se eles atirarem em vocês e quebrarem o traquete (mastro de traquete, o da frente). O marinheiro ficou quieto, sorrindo. Bom, aí vamos ter de responder ao fogo, disse, por fim. Com esse canhãozinho aí? Tsc.

Depois fomos ao Margs ver as gravuras do Francisco Toledo e, principalmente, nos manter ao abrigo da chuva gelada que começava a cair. No Margs, além dos pintores acadêmicos de sempre, uma ou duas exposições de autores pouquistas, desses que já estamos acostumados, também. Eu e o Zorro gostamos das gravuras do mexicano Toledo, menos do que as do Otto Dix, mas nos divertimos, principalmente com os sapos Lautreamonianos do rapaz. Ficamos até as 19h. Depois era a hora de ir pra casa e pedir uma prometidíssima pizza do Cavanhas, ainda chovia, tomamos um táxi que cruzou um sinal vermelho (”Ei, o senhor cruzou o sinal vermelho, tio!” e deixou o taxista completamente sem graça) e chegou uns 15 segundos antes que se tivesse respeitado o sinal. “Ah, a maioria dessas pessoas por aí morreria de fome se tivesse de dirigir um táxi”, tentou se defender o tiozinho. Chegamos, ligamos a TV na TVE, ficamos vendo um documentário sobre a vida de um dromedário na Austrália - vimos um dromedário nascer, parece gente, papai… e, quando eu ia chamar a pizza: ZZZZZZZZ. Enfim.

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Elevator Action ou A Vingança do Cobrador

27 de abril de 2003

Eventualmente matar-me-ei jogando isso nos próximos dias, em homenagem a todas as fichas de flipper que os meus dez anos e minha condição de desempregado infantil, além da falta de um pai compreensivo para com as necessidades dos pré-adolescentes, impediram de me comprar. O sujeito que inventou o emulador devia ser canonizado.

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Nérdicas

27 de abril de 2003

Não é nenhuma novidade para o nerd antenado, mas desde o fim de 2002, de uma vez por todas, se pode rodar Photoshop 7, Access (97, 2000, XP), Outlook (quem usa isso, at all?), Word, Lotus Notes etc, etc, em uma máquina Linux usando o CrossOver Office da CodeWeavers. Estou começando os meus testes e acho que desta vez, sim, o Windows vai virar apenas uma memória, uma nota de rodapé na minha história computacional pessoal. E, se eu ficar saudoso do visual do XP (argh), posso utilizar esse Window Manager aqui. Meu problema vai ser encontrar uma versão do VMWare pra Linux. Uma versão não demonstrativa, se me entende. Adeus NTFS, foi bom ter te conhecido, foi bom o tempo em que você pagava minhas contas. Mas não sentirei muitas saudades de você, sabe?

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Tão Triste Como Ela

26 de abril de 2003

Estou desde a páscoa em Porto Alegre, organizando o que havia ficado para trás na vida. Reencontro a cidade meio suja e em alguma medida, já diferente da cidade que deixei pra trás. Reabro minhas caixas de livros ? quase nenhum deles foi comigo para São Paulo ? e reencontro meus preferidos, Borges, Onetti, Lautréamont, meus volumes raros, cada um com sua história, que vou relembrando à medida que os vou abrindo.

Hoje releio um dos livros que foi o mais difícil de encontrar nos sebos e livrarias que conheci. Não compro livros pela Internet: nada substitui o prazer de encontrar um livro que você quer, folheá-lo, observar o estado da edição, conversar com o livreiro, regatear no preço, procurar alguma eventual indicação, encontrar algo absolutamente diferente do que se estava procurando. Certo, é um micro-prazer primitivo, demorado e patético, mas cada um tem seus vícios e este é um dos meus. Nenhuma Amazon é capaz de me comover dessa maneira.

Meu primeiro contato com este foi na biblioteca da gloriosa, em 1991. Procurava algo de outro autor quando o título na lombada me chamou a atenção: Tan Triste Como Ella y Otros Cuentos. Larguei imediatamente o que procurava e comecei a ler o volume de duzentas e poucas páginas, aleatoriamente. Li o menor conto, El Posible Baldi, de pé, em frente à estante da biblioteca. Ao terminar o conto, senti que meu castelhano era absolutamente incipiente para a história que estava lendo, que a aspereza e beleza do relato me escapavam. Li duas ou três vezes sem muito entender até encontrar uma tradução, acho que da L&PM, e me dar conta de que, como Guimarães Rosa, Juan Carlos Onetti é praticamente intraduzível. Nenhum neologismo, nenhuma invenção lingüística, nada disso: apenas o ritmo. Ritmo narrativo é algo quase inexplicável, mas qualquer bom leitor sabe do que se trata. Podemos dizer que se trata apenas de um artifício, uma construção mental, mas todo relato tem seu ritmo interno, mais ou menos reproduzível, mais ou menos inerente ao autor do relato. Talvez o ritmo narrativo esteja intimamente relacionado a outro conceito difícil de elucidar, o estilo. Talvez não.

Durante dez anos, de 1991 a 2001, procurei obsessivamente por este livro, em cada livraria. Tan Triste Como Ella y Otros Cuentos? Não, esta edição está esgotada, é espanhola, de Barcelona. Vendi o último volume há uns dois meses. Juan Carlos Onetti? Nunca ouvi falar. É peruano? Os peruanos estão na moda, parece. Uruguayo? Não, uruguayo só tenho Mario Benedetti, já li, gostei. Você não gostou de Benedetti, Rico? Sério?

Maio de 2001, dez da manhã, Montevideo, cinco graus centígrados, chove. Visto o sobretudo, desço as escadas de mármore carcomido do hotel em que me hospedo, digo um ?buen día? a Don Moisés, o negro ancião que atende na portaria do hotelzinho barato, subo calle Ituzaingó até a Plaza Constituición, tomo o rumo da Plaza de la Independencia, daí à Dieciocho de Julio até a frente das estátuas da Universidad de La República, o Cervantes hirsuto apontando para calle Tristán Narvaja onde se encontram as librerías de canje, aquilo que chamamos por aqui de sebos. Textos. Canje de Libros. Clásicos. Textos para la facultad. Visito uma a uma, todas as livrarias da rua, até chegar na Babilónia Libros. Juan Carlos Onetti, señorita? El Uruguayo? Sí, tenemos. Acá, señor, mirá acá. Sólo un rato que yo le pongo la escalera. Subi a escadinha através da muralha de livros bem organizados nas estantes e lá estavam eles, próximos dos indefectíveis Octavio Paz, todos os livros de Onetti que eu procurara anos a fio. Dejemos Hablar Al Viento. El Astillero. Tan Triste Como Ella. Cuando Ya No Importe. Não sei se o sujeito que abriu a câmara do faraó na primeira pirâmide se sentiu tão imensamente feliz como eu me senti, naquela manhã, morrendo de fome ? já passava muito das duas da tarde - ao encontrar aqueles quatro ou cinco volumes de madeira morta, fatiada e pintada de tinta preta. Não sei se vou ter outro dia desses na vida.

Mas o fato é que retomo posse dos meus Onetti, dos meus Chants de Maldoror, e, como o casal bêbado conversando e comemorando a virada do ano em ?Justo el Treintaeuno? volto a saborear o veneno desse cara que é desconhecido no Brasil, na Argentina e até no Uruguay, amado e reconhecido na Espanha, autor de tangos para Carlos Gardel por uma aposta perdida e que é o melhor escritor contemporâneo que eu li até hoje. A partir de hoje, tomo a firme resolução de não me separar mais dos meus Onetti, não importa onde eu esteja. E se, contra a minha vontade, me enterrarem quando eu morrer, ponham pelo menos o meu Tan Triste Como Ella junto comigo no caixão, pra apodrecermos calmamente, com todo o tempo do mundo. E, se houver inferno, vou queimar na longa noite fria, com os pés descalços enterrados na geada, tossindo e leproso, mas áspero e bonito como uma frase de Onetti. E vivo.

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