Uma Manhã No Campus Da PUC

Há alguns meses, conversando num dos chats da vida com uma amiga do interior de São Paulo, a conversa chegou na questão ?caridade? e ela me perguntou se eu era a favor ou contra. ?Contra?, eu disse e, por que estava de saída, disse a ela que explanaria os motivos da minha opinião em outra oportunidade.

Mas esse post não é exatamente sobre a validade da caridade ou não, mas sobre a cena de que lembrei ao escrever a palavra ?contra? e ao vê-la rolando tela acima, enquanto outros participantes da sala se entretiam com seus próprios diálogos. No momento em que disse ?contra?, surgiu a imagem sorridente de um moleque de uns dez, doze anos, que costumava perambular no fim dos anos 80 no campus da PUC em Porto Alegre, onde eu estudava engenharia elétrica (ou freqüentava o Maza, a cerveja e uma certa morena, como minha mãe gosta de sublinhar),

Não lembro o nome do guri, mas todos sabiam que ele morava em alguma das favelas nos arredores da universidade e passava o dia ali pelo campus, indo à noite pra casa com alguns trocados que conseguia arrecadar entre os alunos ou professores. Mas, para não deixá-lo sem nome, vamos fazer de conta que seu nome era Davi, que era analfabeto, ou quase, que media uns dez centímetros menos que um menino de classe média de sua idade e que não tinha irmãos (isso é verdade, ele sempre dizia que não tinha irmãos).

Talvez porque fosse simpático, sempre sorridente, um bom garoto, os guardas da universidade sempre o deixavam entrar no campus, talvez ele tivesse descoberto algum método para burlar a segurança, mas o fato era que, além dele, nenhum outro menino de rua perambulava por ali. Mirrado, Davi tinha uma fome descomunal para sua idade e tamanho, ele mesmo anunciava a quem estivesse interessado em ouvir.

- Tio, o senhor vai me pagar um sanduíche e eu vou lhe mostrar o porquê. ? ele dizia para qualquer um que estivesse sentado nas aléias do campus. Tirava um pedaço de giz do bolso da calça e desenhava no chão, em alguns minutos, um retrato da vítima, e perguntava se estava bom. Sempre estava e o moleque quase sempre levava o equivalente a um sanduíche simples, às vezes um pouco mais.

Um dia, alguns alunos se cotizaram para comprar um bloco de papel A3, desses de estudantes de arquitetura ou desenho e um estojo com centenas de lápis de cor e outros instrumentos de desenho para o moleque. Entregaram ? eu assisti à cena ? e alguém lhe disse: ?assim você pode cobrar mais pelos desenhos, Davi?.

Davi sorriu, disse um ?Deus te abençôe, tia?, em agradecimento, e pediu pra fazer um retrato do grupo para estrear o presente. Levou uns dez, quinze minutos e ele fez nosso retrato, com o prédio 30 e suas linhas modernistas ao fundo, não esquecendo de detalhes que nenhum de nós tinha percebido até então. Minha namorada na época talvez o guarde ainda.

Vi ainda o menino umas três ou quatro vezes, até que um dia ele sumiu. Ninguém sabia seu endereço, nada sobre ele. Assim como surgiu e foi notado por sua graça e talento, desapareceu e foi esquecido, porque a vida continua, e, afinal, “ele era apenas um menino de rua”.

Quando disse “contra a caridade”, no chat, lembrei de Davi e calculei que ele deva estar com vinte e três, vinte e quatro anos, agora. O que terá sido feito dele? Pode ter morrido atropelado, atravessando a movimentada avenida Bento Gonçalves, pode ter sido assassinado, como costuma acontecer com adolescentes pobres no Brasil, pode ser o pedreiro na obra próxima da sua casa, pode ser o camelô engraçado que “sabe vender”, pode ser o guardador de carros da esquina, de que todos têm horror, pode ter aprendido uma profissão e ser garçom, padeiro, industriário, biscateiro ou vendedor de tecidos na Voluntários da Pátria, enfim, qualquer dos subempregos que são reservados aos “moleques” de sua condição. Aquilo que talvez em outro país parecesse sua vocação natural como desenhista, quadrinhista, arquiteto, talvez artista plástico, muito provavelmente não se realizou: Davi é pobre, analfabeto e, mesmo não sendo de família grande (ele não tinha irmãos, lembra?) suas chances de ter uma vida digna e da qual talvez pudesse se orgulhar são, virtualmente, nulas. Talvez se Michelangelo ou Pablo Picasso tivessem nascido na Vila Maria Degolada (Vila Conceição nos mapas oficiais da cidade), acabassem como pintores de parede ou garis, pra pagar as contas e ajudar a família. Talvez não.

Espero que você tenha dado sorte na vida, Davi. E, como você nos disse naquela manhã ensolarada, radiante de felicidade pelos lápis que o Brasil te negou, Deus te abençôe.

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